Jornais portugueses fazem "cobertura responsável" dos suicídios

Estudo de investigadores da Universidade do Minho conclui que os media nacionais cobrem o tema sem sensacionalismo e seguindo abordagens responsáveis.

A cobertura mediática do suicídio tem riscos e pode levar a ondas de suicídio
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A cobertura mediática do suicídio tem riscos e pode levar a ondas de suicídio Nélson Garrido (arquivo)

Um estudo sobre a mediatização da saúde na imprensa portuguesa concluiu que os jornais promovem "uma cobertura responsável" do suicídio, em linha com as recomendações da Direcção-Geral da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.

A investigação, que faz parte da tese de doutoramento de Rita Araújo, investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, analisou a cobertura dada pelos jornais portugueses aos casos de suicídio.

"Ficámos surpreendidos positivamente com os resultados, percebemos que a cobertura que se pratica em Portugal não apresenta os traços sensacionalistas que foram identificados noutros países pela Organização Mundial da Saúde", disse Rita Araújo à agência Lusa. Segundo a investigadora, nos jornais generalistas portugueses raramente são apresentados detalhes de suicídios.

"Os títulos geralmente são factuais (não apelam ao sensacionalismo) e quando há retratos de casos específicos de situações de suicídios são sempre enquadrados numa perspectiva da saúde mental", sublinhou a investigadora, que participa nesta sexta-feira, em Guimarães, no Simpósio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, com o tema Crise suicidária: prevenção, intervenção e pósvenção".

Para realizar o estudo, a equipa de investigadoras, formada por Rita Araújo, Felisbela Lopes e Zara Pinto-Coelho, baseou-se na literatura que existe noutros países (Austrália, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha).

"O que nos dizem os estudos desses países é que, de facto, os media nem sempre têm os comportamentos mais responsáveis no que toca à cobertura dos suicídios", disse Rita Araújo.

Contudo, "verificámos que em Portugal as coisas não são assim, a situação não é tão alarmista como se verifica noutros países", disse, comentando que a análise permitiu concluir que os jornalistas portugueses estão a fazer "um bom trabalho".

Rita Araújo adiantou que há uma série de normas nacionais e internacionais sobre como os profissionais dos media devem noticiar os suicídios. Entre essas normas estão evitar fazer uma cobertura sensacionalista, evitar dar pormenores sobre o caso, o método utilizado para cometer o suicídio e "evitar as generalizações".

"Dizer que determinada pessoa cometeu o suicídio porque estava com depressão não quer dizer que todas as pessoas com depressão o vão fazer", explicou.

Há vários estudos que comprovam que as notícias sobre o suicídio têm o poder de criar novos suicídios, um fenómeno denominado "efeito de imitação".

"A cobertura mediática do suicídio tem alguns riscos e pode levar a ondas de suicídio", advertiu, defendendo que deve haver "um debate mais alargado no seio da profissão sobre a forma como isso deve acontecer".

Geralmente, os jornalistas sabem que não devem noticiar o suicídio, mas muitas vezes não sabem porquê, frisou. Para a investigadora, "noticiar o suicídio por si só pode não fazer sentido": "O que é preciso é alertar para as causas do suicídio, para os factores de risco e dar mais notícias sobre a saúde mental em geral, falar sobre os factores de risco e quem são aqueles que estão mais em perigo de cometer suicídio".

"É muito importante perceber que a cobertura do suicídio, em si mesma, não promove comportamentos suicidas, mas a forma como a cobertura é feita pelos jornalistas pode promover", vincou.