Kady, um Kaminho mais dançante para a música de Cabo Verde

Filha de uma cantora dos Simentera, Kady lança em Lisboa o seu disco de estreia. Kaminho tem influências da soul, do jazz, do funk e do hip-pop. Esta sexta-feira, no B.Leza, às 22h

Foto
Kady fotografada para o seu disco de estreia RUI DE CARVALHO

Músicos filhos de músicos: se isto é já uma tendência internacional, e antiga, em Cabo Verde surge como algo ainda mais natural. Kady, por exemplo. É uma jovem cantora, ainda a caminho dos 30 anos, que cresceu com rodeada de música. Nascida em 1987, na Cidade da Praia, é filha de uma das fundadoras do grupo Simentera, a cantora (também professora) Terezinha Araújo. “Sempre achei que a música era uma coisa normal”, diz Kady. “Pensava que toda a gente cantava e tocava”. Só com o tempo percebeu que uns cantavam melhor do que os outros. Com 6 anos cantou pela primeira vez em público, na televisão. “A minha mãe tinha um programa para crianças, que ela é pedagoga também. Lembro-me de não me sentir à vontade, porque eu era uma criança tímida.”

Paixão pelo jazz

Mas isso não a impediu de continuar a cantar, muito pelo contrário. E aos 10 anos já tinha um grupo chamado Mea-Culpa, formado em 1997 numa festa de final de ano na Ilha do Sal. “Os Simentera foram cantar e nós fizemos também o nosso grupo. O meu irmão era guitarrista, o filho da Teté Alhinho era percussionista, a Sara (também filha da Teté) era cantora. Era uma pequena banda. Cantávamos música pop, para adolescentes, mas em português e em crioulo.” Como eram filhos dos músicos dos Simentera, tinham “meia culpa” de estar ali. Mais tarde fez parte de outro grupo, Blende, que nunca gravou nada, mas que fez sucesso com uma versão rock de Notícia, de Betu, que era cantada por Ildo Lobo. Só depois Kady conseguiu uma bolsa para estudar na Weslyan University. Concorreu três vezes e à terceira ganhou. Um curso de Verão, que a levou a ficar por dois meses em Connecticut, nos Estados Unidos. “Foi uma experiência muito enriquecedora. Tivemos aulas de canto e de escrita musical. Abriu-me muito a mente em relação à música. Nas aulas ensinavam-nos mais música lírica, mas depois uma professora de jazz deu-nos um workshop e foi aí que me apaixonei pelo jazz.” Era um género de música que ela já ouvia, mas só nesse momento a entendeu. “O que mais me atraiu no jazz foi a liberdade de improvisar. Na música lírica era tudo muito certinho.”

Encontrar um estilo

Nos Estados Unidos começou a ouvir muito Nat King Cole. “Mais pela música, pelas melodias, pelas letras, era pelo todo, não só pela parte vocal.” Outros músicos ela já conhecia e ouvia, como Stevie Wonder, que diz ser um dos seus cantores favoritos. Mas na adolescência os seus ouvidos prendiam-se a outras músicas. “Ouvia muito Djavan, Caetano Veloso, era a música que eu tinha em casa. E o Michael Jackson também. De Cabo Verde ouvia muito os Simentera, o Boy Gé Mendes, isso num leque mais vasto.”

Exceptuando o período em que estudou nos EUA, ou algumas viagens a Portugal, em férias, Kady permaneceu sempre em Cabo Verde. Ali cresceu e estudou e só depois de terminar os estudos, há três anos, é que decidiu dedicar-se em exclusivo à música. E consumou esse passo num disco, Kaminho, que está agora a ser lançado. “Graças a Deus sempre tive pessoas a impulsionar-me para isso, a minha família, amigos… A minha dificuldade era encontrar um estilo, porque tinha todas essas influências. Quem me ajudou a fazer o álbum foi o Djodje, o produtor musical, e acho que encontrei o estilo que queria passar mas não sabia como.” Nascido na Cidade da Praia, como ela, mas em 1989, Djodje é cantor e compositor e também filho de pais músicos. Em 2009, foi um dos fundadores da editora Broda Music, que, entre outros já lançados, também edita o disco de estreia de Kady (que em Portugal tem distribuição da Sony Music).

Fusões e esperança

Com um total de dez faixas, Kaminho não vai pela via da música tradicional seguida por outras cantoras, arriscando (em crioulo) influências da soul, do jazz, do hip-pop ou do funk. “Gosto muito da música tradicional, mas se só fizesse isso eu não me ia identificar. É como se fosse apenas uma parte daquilo que eu sou. Com este disco, sim, eu identifico-me. É um álbum em que se pode encontrar várias fusões de estilos musicais e é um álbum muito positivo. Fala de esperança, da necessidade de cada pessoa seguir o seu próprio caminho e não ir pela cabeça dos outros.” Em Cabo Verde reagiram bem ao disco, diz ela. “Gostaram muito, até porque traz um ar fresco.”

Kaminho, o disco, conta com a participação de músicos de várias nacionalidades. Além do seu irmão, Sori Araújo (guitarra) e da mãe, Terezinha Araújo, num dueto vocal (em Simplisidadi), participam os cabo-verdianos Djodje e Dodas Spencer (guitarras), Paló Figueiredo (cavaquinho), Khaly Angel (teclas); os guineenses Manecas Costa (guitarra) e Braima Galissá (kora); o angolano Ndu (percussões), os portugueses Ivo Costa (bateria), Alexandre Manaia (teclas) e André Moreira (baixo); e o brasileiro Gileno Santana (trompete). E há mais três duetos: com Alberto Koenig (que tocou com ela nos Mea-Culpa, em 8 ku 80), com Djodje (em Sorte) e o rapper Hélio Batalha (em Praia). Do disco, há três faixas já com vídeos no Youtube: Kaminho, Speransa e Nkre voá.

Com Kady (voz) estarão no concerto de lançamento do disco em Lisboa, no B.Leza, esta sexta-feira dia 1 de Abril, às 22h, Dodas Spencer (guitarra), Hugo Aly (baixo), Alexandre Manaia (teclas), Miroca Paris (percussão), Gileno Santana (trompete) e Miguel Casais (bateria), além de três convidados: Karyna Gomes, Dino D’Santiago e Djodje.