Epidemias de febre-amarela e malária geram caos nos hospitais de Luanda

Angola vive a pior epidemia de febre-amarela de há 30 anos com centenas de mortes. Orçamento da segurança do Presidente é três vezes superior ao de nove hospitais em Luanda no total. Fraude no fundo contra a malária desviou 3,8 milhões de euros.

Angola vive uma epidemia de malária e de febre-amarela, com centenas de pessoas a morrerem, os hospitais sem condições para as tratar e as morgues a não conseguirem acolher tanta gente.

Poucas vezes a expressão cliché “murro no estômago” faz tanto sentido como depois da leitura da reportagem A Morgue, que o jornalista Rafael Marques publicou há uma semana no seu site Maka Angola (vídeo acima). As descrições do “trânsito” de corpos na morgue do Hospital Josina Machel, o maior do país e o que mais verbas recebe, a forma como reporta a saída de 235 cadáveres em cinco horas para serem enterrados e os negócios que se geraram à volta do atendimento podem provocar enjoos.

“Na parte traseira da morgue, o cenário fala por si”, escreve. “Cada família leva o seu bidão com água, são todos amarelos, de 20 litros, banheira, sabão, o necessário para darem banho aos seus mortos. Conto mais de 20 corpos espalhados, a serem lavados ao ar livre pelos familiares, vestidos, aprumados para o adeus final aos entes queridos. No chão, as águas não escorrem. Misturam-se com sangue, com os plásticos abandonados, luvas, máscaras, panos, roupas retiradas dos mortos. Há uma fossa entupida, com águas putrefactas, no mesmo local.”

A epidemia de febre-amarela em Angola é a pior em 30 anos segundo a Organização Mundial de Saúde: entre 5 de Dezembro e 29 de Março provocou a morte de 198 pessoas, 129 das quais em Luanda. A malária já terá afectado cerca de 500.000 pessoas na capital angolana nas últimas semanas, diz, por seu lado, a agência Lusa - esta doença é a principal causa de morte no país. Com quase 25 milhões de habitantes, Angola tem anualmente três milhões de casos clínicos de malária e 6.000 óbitos anuais, segundo Filomeno Fortes, coordenador do Programa Nacional de Controlo da Malária.

Esta semana, o semanário angolano independente Expansão fez as contas da saúde e revelou que só a Casa de Segurança do Presidente da República tem um orçamento para 2016 três vezes superior ao dos nove principais hospitais em Luanda no total: 28,4 mil milhões de kwanzas (157 milhões de euros) versus 90,5 mil milhões (quase 500 milhões de euros).

O semanário económico, dirigido por Carlos Rosado Carvalho, diz também que apenas 7,7% do Orçamento Geral do Estado é para a saúde, três vezes menos que a Segurança e Defesa, sendo esta a percentagem mais baixa da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2013 que abrangem 10 dos 15 Estados-membros. 

No único diário privado angolano, O País, denunciava-se numa manchete recente que havia 500 mortes por dia. O lixo acumulado nas ruas e as chuvas agravaram a situação de epidemia.

Apesar de pôr de lado a possibilidade de declarar a situação de emergência na capital, o ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo, reconheceu que Luanda vive epidemias de malária grave e febre-amarela que estão a deixar os hospitais sem capacidade de resposta. Está em curso uma campanha de vacinação promovida pela Organização Mundial de Saúde e que já imunizou 88% da população alvo. Luís Gomes Sambo anunciou ainda o reforço do orçamento com 30 milhões de dólares para a compra de vacinas, medicamentos e material médico.

Isto acontece numa altura em que uma investigação do Fundo Global, que é o grande financiador de programas de luta contra a sida, tuberculose e paludismo (malária), revelou o desvio de 3,8 milhões de euros feitos por pessoal de topo do Ministério da Saúde, dinheiro este que era para reduzir a taxa de mortalidade por malária. A coordenadora financeira da Unidade Técnica de Gestão do Ministério da Saúde, Sónia Neves, é a principal visada de uma fraude que implica “fabrico de bens e serviços que não foram entregues” – por isso em Março de 2014 o uso dos fundos foi congelado. Segundo o site noticioso Voz da América, o ministério da Saúde diz que os valores já foram devolvidos e os visados estão a “contas com a justiça”.

O Expansão lembra que a taxa de mortalidade este ano foi de 14 mil, das mais elevadas, e uma boa parte das mortes foram crianças. Os dados do Banco Mundial colocam Angola como o país onde mais crianças com menos de cinco anos mais morrem.  

Entretanto, as campanhas de ajuda proliferaram nas redes sociais. Em meados de Março, uma denúncia de desespero no Facebook, feita por pessoal do Hospital Pediátrico David Bernardino, em Luanda, desencadeou uma onda de doações – inclusivamente das filhas do presidente, a empresária Isabel dos Santos e a deputada do MPLA Tchizé dos Santos. José Eduardo dos Santos anunciou que se retira da política em 2018.

“27 crianças morreram neste fim-de-semana no Hospital Pediátrico David Bernardino, ajude”. Isabel dos Santos partilhou o apelo na sua conta do Instagram, gerando comentários jocosos. A empresária acabou por doar ao hospital, através da sua operadora por satélite Zap, 5 milhões de kwanzas (cerca de 28 mil euros), e lançar o programa Stop Malária pela empresa Unitel. Tchizé dos Santos apareceu na Televisão Pública de Angola (TPA) a oferecer luvas, máscaras, seringas e outros materiais descartáveis aos hospitais, segundo o Maka Angola.

Várias vozes se levantaram contra a ausência de uma política de combate a estas epidemias. Uma petição no site da Central Angola exige a criação de um Plano Nacional de Emergência Hospitalar “que envolva profissionais médicos isentos (que não pertençam ao Comité de Especialidade) e associações credíveis da sociedade civil, utilizando parte dos 5 biliões de dólares do Fundo Soberano, ou das receitas do diferencial do preço do petróleo enquanto esteve acima dos 100 dólares”.  

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