O "banco péssimo" que escusava de ter acabado "tão mal"

António Varela foi representante do Estado na administração do Banif e administrador do Banco de Portugal. Está a depor no Parlamento, e a contar de forma viva a história de um "desastre". Que até foi o que foi porque havia burocratas europeus com vontade de ir de férias de Natal.

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António Varela, antigo administrador do Banco de Portugal, está a ser ouvido nesta quinta-feira Miguel Manso

António Varela, ex-administrador do Banif em representação do Estado (até Setembro de 2014), estranha o incidente que ocorreu nos dias que antecederam a resolução do banco e quando já era administrador do Banco de Portugal (de Setembro de 2014 a Março de 2015): enquanto se dedicava no banco central a preparar "um plano que permitisse criar um banco de transição", semelhante ao Novo Banco (que ficou com os activos “bons” do BES), uma tarefa que desenvolvia em articulação com o BCE, o próprio BCE estava no Banco de Portugal, "no andar de cima a tratar da resolução do Banif". 

Varela revela ainda que a 18 de Dezembro esteve em São Bento com António Costa e Mário Centeno a analisar o processo de venda livre que estava a ser conduzido pela gestão do Banif, liderada por Jorge Tomé. No encontro, que decorreu pelas 21h30, teve ocasião de manifestar ao Governo que a opção deveria ser a venda do Banif, só depois seria a via da resolução. E manifestou, então, "esperança" no êxito de uma venda. Em resposta ao deputado do CDS, João Almeida, o ex-administrador do Banco de Portugal alega que o Governo tentou ganhar tempo para poder avançar com a alienação do Banif, mas a sua convicção é que nem o BCE, nem a DG Comp queriam esta solução e forçaram a resolução antes da entrada em 2016, até porque levam muito a sério as férias da Pascoa.

"Não havia nada a fazer" e o resultado foi "desastroso" para os contribuintes portugueses. E "não se atendeu aos interesses dos depositantes e contribuintes portugueses". Varela continua a defender que o banco de transição teria sido mais favorável aos interesses dos contribuintes.

No entanto, Varela não hesita em qualificar o banco que encontrou quando lá chegou, depois da intervenção pública. O Banif "privado", em 2012, "era um banco muito, muito mau, era um banco péssimo". Tinha uma "estratégia errada", que dependia de "investimentos completamente disparatados", uma "política de concessão de créditos com elevadíssima exposição ao imobiliário". E mais: "Não tinha sistema informático, não tinha avaliação de risco".

Em resumo: "Era pois difícil que não corresse mal. O que se escusava era que tivesse corrido tão mal." No entanto Varela considera que o Estado tinha as mãos atadas no momento em que injectou capital público (Governo anterior) e quando se viu a braços com a resolução (Governo actual). 

A responsabilidade maior atribui-a às instituições europeias – DG Comp, Comissão Europeia e BCE. São, nas suas palavras, "instituições que estão muito longe do escrutínio democrático". E o Banif, tal como a maioria dos bancos portugueses, representam muito pouco: "Estamos a falar de peanuts para essas entidades."

Em Bruxelas e Frankfurt, assegura, há um "pensamento quase que cínico", segundo o qual "os portugueses que tenham lá os problemas, foram eles que os arranjaram eles que os resolvam".

Sobretudo quando se aproxima o Natal, como foi o caso do Banif, cuja resolução foi decidida no dia 20 de Dezembro passado. "As instituições europeias querem prolongar as férias de Natal." E reforçou a nota. "É por sentir revolta por esse tipo de situações que decidi dar essa nota."

As férias de Natal

Sob interrogatório do deputado do PCP, Miguel Tiago, Varela considerou que o desfecho encontrado para o Banif se enquadrou no facto de os funcionários europeus quererem ir de "férias alargadas no Natal", pelo que nem o Banco de Portugal, nem o Governo tinham forma de contrariar uma decisão de fecho do dossier rapidamente: "É um dos custos da união bancária." 

E adiantou que esta intenção de Bruxelas de encerrar o processo Banif antes do final de 2015 só foi conhecida pela primeira vez do Banco de Portugal a 17 de Novembro por carta da DG Comp.

O deputado do PCP questionou os pressupostos do plano de recapitalização pública do Banif, em 1100 milhões, e a possibilidade do Estado de recuperar esse investimento. António Varela explicou que, à medida que o tempo foi passando, as condições de reembolso tornaram-se cada vez mais difíceis.  

Depois de corrigir um dos deputados que lhe atribuiu a função de ex-vice-governador do banco central, esclareceu que "apesar de ter sido convidado para ser vice-governador, isso nunca se verificou", salientando que a terceira versão do plano de reestruturação do Banif, enviada em Janeiro de 2014 à DG Comp, teve como resultado um pedido de esclarecimentos ao banco pois os dados estavam "todos errados".

A partir daí, a DG Comp avisou que ia levar a ajuda pública (1100 milhões) a investigação aprofundada e foi necessário criar "uma task force para resolver rapidamente o problema e ganhou-se" tempo. Mas "não posso deixar de ressalvar que quando entrei no Banif, o Banif era um banco muito, muito mau." 

Depois da intervenção, registaram-se "enormes progressos" feitos no Banif, "designadamente ao nível do controlo interno, do compliance e da prevenção de branqueamento de capitais". 

Instado a esclarecer o que o levou a demitir-se do BdP, António Varela avança que se tratou de uma decisão pessoal sustentada no facto de não se identificar com a estratégia e a política adoptada pela liderança de Carlos Costa. 

Uma notícia "criminosa"

O social-democrata Carlos Abreu Amorim procurou saber se, sem a notícia da TVI (publicada a 13 de Dezembro dando o fecho do banco como iminente), teria sido possível vender o Banif com menor prejuízo para o Estado. "Acho que sim", respondeu Varela, considerando a notícia "responsável pelo que aconteceu". "Não tenho dúvida. Reflectiu-se no valor das propostas" de compra do banco, apresentadas a 18 e a 19 de Dezembro, disse.

Mas quando o deputado do PSD o interrogou sobre se, na sua óptica, houve manipulação de mercado ou abuso de informação privilegiada (crimes de mercado), o ex-administrador do Banco de Portugal não foi esclarecedor. "Mas espero que o Ministério Público tire conclusões", pois defendeu que é necessário apurar de onde partiu a informação para se tirarem ilações. Ou seja, referiu, é preciso saber quais foram os interesses que terão estado na origem de uma notícia que Varela classificou de “criminosa”.