Opinião

Como os museus se abrem ao mundo

A era digital e a internet criaram uma plataforma global para a projeção dos nossos bens museológicos.

m 2013, o New York Times perguntou a Taco Dibbits, diretor das coleções do Rijksmuseum (o museu mais visitado da Países Baixos), como é que ele se sentiria se uma imagem do Johannes Vermeer fosse impressa em papel higiénico: "Se quiserem colocar uma obra do Vermeer no seu papel higiénico, eu prefiro que a imagem seja de boa resolução", disse. Esta resposta é fruto de uma estratégia digital adoptada pelo museu, da utilização de conteúdos de alta resolução e completamente livres para reutilização.

No caso do Rijksmuseum, tudo começou com o encerramento do museu para obras que duraram dez anos. Permitindo assim libertar os recursos humanos necessários para que uma grande digitalização de conteúdos fosse disponibilizada. Tendo um acervo de cerca de um milhão de peças, e espaço físico para exposição de apenas oito mil, a colocação das peças na Internet parece portanto, um passo natural para dar maior projeção às peças em acervo.

Um passo muito significativo foi dado quando em 2011 o museu decidiu que todas peças colocadas online estivessem devidamente assinaladas como estando no domínio público. Hoje em dia, já se encontram mais do que 247 mil peças no site do museu, e a ideia é de que sejam digitalizadas 40 mil peças por ano, para que a coleção possa estar disponível na íntegra. Para incentivar a reutilização das imagens, em 2013, o museu lançou uma ferramenta chamada "RijkStudio", permitindo, entre outras coisas, que os utilizadores criem exposições virtuais.

Esta estratégia tem provado ser benéfica em muitos aspetos. Primeiro, os conteúdos de alta resolução fazem com que haja menos cópias de baixa qualidade pouco fiéis na Internet. O facto de estarem no domínio público permite que as grandes plataformas, como a Wikipédia, as possam utilizar com facilidade e conscientes de que estão a operar dentro da legalidade dos direitos de propriedade intelectual. Adicionalmente, partindo do princípio de que, quantas mais vezes a peça for reutilizada, mais ligada vai estar com outros conteúdos, permitindo assim maior disseminação da mesma na Internet. E, acima de tudo, quanto mais a peça for utilizada, maior a projeção dada ao museu em termos de marketing.

O modelo de conteúdos de alta resolução de livre uso está agora a ser adotado por outros museus, como o Statens Museum Kunst na Dinamarca, que disponibilizou cerca de 160 peças em alta resolução. Em 2013, a administração dos museus estatais da Suécia (Livrustkammaren och Skoklosters slott med Stiftelsen Hallwylska museet) criou o Open Image Archive Project em que disponibilizou todos os seus conteúdos livres de restrições de propriedade intelectual, com enorme sucesso, especialmente relativamente ao uso dos mesmos na Wikipédia. Tal é a importância dos conteúdos abertos que a American Alliance Museums criou um prémio na área da tecnologia chamado Open Culture award para os museus que melhor promovam os seus conteúdos abertamente.

Em Portugal, disponibilizaram-se, recentemente, nove peças emblemáticas em alta resolução na modalidade de domínio público através do portal de conteúdos patrimoniais financiado pela União Europeia — Europeana Collections. Este é um grande passo, pois disponibiliza obras de relevo como os Painéis de S. Vicente de Fora de Nuno Gonçalves e a Natureza Morta com Doces e Barros de Josefa de Óbidos, entre outras. No entanto, para assegurar a sustentabilidade e o acesso às mesmas, é importante que as peças se tornem também disponíveis no site dos museus, seus fiéis depositários.

A era digital e a Internet criaram uma plataforma global para a projeção dos nossos bens museológicos. Como tal, não podemos perder esta oportunidade e facilitar a acessibilidade do mundo aos seus conteúdos patrimoniais. Um pequeno grande passo seria obedecer à lei de propriedade intelectual. Segundo a lei portuguesa, a obra do artista entra no domínio público 70 anos depois da morte do autor. Porém, poucas peças de museu estão assinaladas como tal. Deve-se procurar incentivar um maior debate sobre a questão do domínio público no meio museológico, dado que na era de informação o reconhecimento do mesmo está a tornar-se cada vez mais uma boa prática museológica.

Investigador, formado em História de Arte, Gestão de Artes e Ciências Políticas (@lrpnto)