A solidão perante o horror

Há na obra de Kertész um sentimento de cansaço que a perpassa, sem que nos apercebamos bem porquê.

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Até à atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 2002, o húngaro Imre Kortész continuava a ser um quase desconhecido no seu país, apesar de as suas obras se encontrarem traduzidas (sobretudo para alemão e com reconhecimento da crítica e do público). Por circunstâncias políticas a sua voz fora abafada no seu país durante décadas, e os seus livros não tinham passado de umas exíguas primeiras edições; os “secretários kafkianos” do regime estalinista – que no entanto se ocupavam em vigiá-lo) – dedicavam-lhe um mal disfarçado desdém e aparente indiferença. Como diz uma das suas personagens: “Para que liquidá-lo? Ele vai sucumbir sozinho.”

A estreia de Kertész na literatura aconteceu com o romance Sem Destino, em que o autor, através dos olhos de um adolescente, lança um olhar sobre o acontecimento que marca o século XX: o Holocausto. É um olhar marcado pela solidão perante o horror. Os romances que se seguiram foram construindo uma obra que à primeira vista parece toda erigida sobre a memória da passagem do autor por dois campos de concentração, o que pode levar (e isso aconteceu entre alguma crítica que o ensombrou) a que a sua obra seja reduzida a de um “autor do Holocausto”. Ora, os livros de Kertész são muito mais do que isso, pois o Holocausto surge apenas como um lado do questionamento das ideologias, questionamento esse que o ajuda a formular uma interpretação do mundo. Esse mesmo mundo onde, e ele nunca se cansou de o mostrar, com uma lucidez assombrosa, o horror é sempre possível. Para sublinhar esta ideia, Kertész chegou a dizer sobre Sem Destino, que aquele era também um romance sobre a ditadura estalinista húngara, apesar de ser um dos relatos mais pungentes escritos sobre o Holocausto (muito fixado na chegada do jovem ao campo, onde tudo se parecia decidir nos primeiros vinte minutos). A querer resumir-se de uma forma muito redutora a obra do escritor húngaro, poder-se-ia antes dizer que ela é uma testemunha da capacidade de sobrevivência do ser humano em situações extremas debaixo de regimes ditatoriais.

Em Imre Kertész, que segue a tradição de muitos autores da Europa Central ao longo do século XX (são bastante visíveis as influências de Canetti, Schnitzler, Hofmannsthal, entre outros), o pensamento domina a narração, seguindo uma espécie de modelo literário da Mitteleuropa em que a acção existe apenas para suportar o que é pensado, para lhe dar consistência e para promover uma progressão. Daí, talvez, que muitos dos romances de Kertész não se afastem de uma narrativa em registo autobiográfico (com factos que muitas vezes poderão ser ficcionados, à maneira do que fez também o austríaco Thomas Bernhard), notando-se o abismo entre a escrita e a realidade vivida. Os romances de Imre Kertész são sobretudo reflexões, e ele uma das vozes mais angustiadas da literatura da Europa Central.

Com a queda do Muro de Berlim, a ele, que se considerava “filho incorrigível das ditaduras”, é dada a possibilidade de deixar a Hungria, e vai viver para Berlim: “Abriu-se, assim, a porta da cela em que me fecharam durante quarenta anos, e pode dar-se que seja bastante para me perturbar”, escreve em Um Outro – crónica de uma metamorfose, “não se pode viver a liberdade onde se viveu o cativeiro”. Esta nova e estranha “leveza do ser” traz-lhe uma inesperada nostalgia do passado, os novos tempos começam a parecer-lhe uma traição ao seu antigo modo de vida, esse que lhe conferira uma identidade de escrita. Este processo de construção de identidade, que já se encontra em alguns romances anteriores mas muito pouco consciente, passa a ocupar-lhe as reflexões. É assim que em Um Outro – crónica de uma metamorfose ele se interroga: “Porque me sinto assim tão perdido? Manifestamente, porque estou perdido?” Kertész sente que perdeu a sua identidade anterior, que se metamorfoseou, e as reflexões apresentadas neste livro como ficção (sobre a vida de um escritor chamado I. K.) são uma tentativa de se reinventar como um “outro”. A sua identidade é apenas a da escrita: “Confesso-vos, pois: tenho uma só identidade, a identidade da escrita.” É uma identidade que a si mesma se escreve.

Há na obra de Kertész um sentimento de cansaço que a perpassa, sem que nos apercebamos bem porquê: são as memorias do campo de concentração confrontando-o com o passado, provocando momentos reflexivos sobre o que é a existência num mundo depois de Auschwitz, sobre o totalitarismo, o terror, a identidade judaica, a inutilidade da lucidez, a vergonha de ter sobrevivido, mas recusando sempre o papel de vítima, e prescindindo, de maneira implacável, de arranjar qualquer tipo de consolo.

Uma das suas obras magistrais, A Recusa, é uma reflexão perturbadora sobre o abismo da alma humana, ou de como os papéis de vítima e de verdugo (apresentados em forma de jogo de espelhos) podem ser ditados pelo acaso.