Herberto Helder: um poeta que só guardava o essencial

O arquivo de Herberto Helder foi integralmente digitalizado e vai poder ser consultado na Faculdade de Letras do Porto, que espera poder vir a acolher também a biblioteca do poeta.

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A ideia é que o arquivo de Herberto Helder possa ser consultado o mais brevemente possível DR
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Herberto Helder não era de guardar rascunhos ou de manter arquivos de correspondência, mas deixou, ainda assim, entre outros papéis, vários cadernos com inéditos, um livro de poemas em prosa que nunca foi publicado e uma antologia de quadras populares.

Todo este acervo acabou agora de ser digitalizado por iniciativa do ensaísta Arnaldo Saraiva, que conseguiu o apoio da Gulbenkian para custear a digitalização e intermediou o depósito deste arquivo digital na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), da qual é hoje professor jubilado e emérito.

Saraiva espera ainda que a própria biblioteca de Herberto Helder possa vir a ser depositada na FLUP, que recuperou recentemente um seu antigo edifício na Rua do Campo Alegre para acolher duas importantes bibliotecas, a do historiador da literatura e linguista Óscar Lopes (1917-2013) e a do escritor Vasco Graça Moura (1942-2014). Já no próximo dia 1 de Abril, a FLUP e a família de Graça Moura assinarão, numa cerimónia pública, o contrato de depósito do arquivo e das dezenas de milhares de livros da biblioteca do escritor.

Amigo de Herberto Helder e da sua viúva, Olga Lima, Arnaldo Saraiva diz que o seu primeiro objectivo foi garantir que ficava salvaguardada uma versão digital de todos os papéis do poeta tal como este os deixou. “Podia haver um acidente, podiam desaparecer coisas, ou serem mudadas de sítio, como aconteceu com o espólio de Fernando Pessoa”, diz o ensaísta. 

O presidente da Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, “mostrou-se logo disponível”, conta Arnaldo Saraiva, para apoiar este projecto, que incluiu também a digitalização das muitas correcções e apontamentos que Herberto Helder deixou nos exemplares que guardava dos seus próprios livros. 

Tal como Pessoa, Herberto também tinha uma arca, em sentido literal, onde ia guardando o que queria conservar, mas não deixou 27 mil documentos, como o poeta dos heterónimos, nem incontáveis versões dos mesmos textos. “Ele não guardava muita coisa: recebia muitas cartas entusiásticas desde que publicou O Amor em Visita [em 1958], mas não conservou quase nada, explica Saraiva, que crê que o poeta terá mesmo destruído “alguma correspondência importante com grandes poetas estrangeiros”.

E se não seguiu o exemplo do seu amigo Carlos de Oliveira, o outro grande reescritor da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, que deixou instruções explícitas para que nada fosse publicado postumamente, Herberto Helder também não parece ter querido legar à posteridade o acesso aos meandros da sua oficina poética. “Com a excepção destes últimos livros, costumava destruir as versões anteriores do que publicava, e o que conservava nos seus caderninhos eram coisas que tencionava eventualmente refazer ou usar mais tarde, e não registos de uma determinada fase de escrita”, defende Arnaldo Saraiva.

O ensaísta não pode precisar o número exacto de documentos digitalizados, mas pensa que o arquivo agora depositado na FLUP constará de “duas mil e tal imagens”, incluindo reproduções de fotografias e alguns artigos de jornais que Herberto recortou, e que nem sempre dizem respeito à sua obra.

Duro duro duro

Mas se o arquivo é pequeno, basta ler o livro que a Porto Editora lançou esta quarta-feira para assinalar o primeiro aniversário da morte do poeta, Letra Aberta, reunião de um conjunto de inéditos que Olga Lima seleccionou a partir dos cadernos de Herberto Helder, para não restarem dúvidas da sua importância. Se Poemas Canhotos, que o poeta teria deixado pronto a publicar, e que foi lançado logo após a sua morte, incluía alguns poemas fulgurantes, dificilmente este Letra Aberta poderá ser considerado inferior, quer na qualidade dos seus melhores poemas, quer mesmo enquanto conjunto.

“A sequência funciona, tem uma coesão surpreendente, e há neste livro pontos muito altos, poemas muito fortes”, diz o poeta Gastão Cruz, admirando a capacidade que Herberto Helder teve até ao fim de renovar a sua poesia. 

Também a ensaísta Rosa Maria Martelo, de quem a editora Documenta publicará em Abril Os Nomes da Obra — Herberto Helder ou O Poema Contínuo, acha que “este é, sem dúvida, mais um livro notável, uma excelente selecção de poemas”, na qual “reconhecemos os temas de Herberto Helder, a energia fulgurante a que nos habituou e também aquela frontalidade que, devido ao envelhecimento e à proximidade da morte, exigia agora uma coragem rara”.

E sabendo que Herberto “foi sempre um reescritor” e que “pensou a sua poesia como um livro único, um poema contínuo que se ia ampliando e cortando, deslocando e refazendo”, Martelo confessa que até “receava os efeitos da publicação” deste volume de inéditos. “Mas a qualidade dos poemas é inquestionável, bem como a sua força e, talvez acima de tudo isto, a sua verdade”, argumenta. 

Não parecem também restar dúvidas de que a generalidade dos poemas escolhidos por Olga Lima, se não todos, são bastante recentes. Em alguns pressentem-se reacções ao que se escreveu nos jornais a propósito de A Morte Sem Mestre em 2014: “eu cá acho que sim,/ acho que apesar de tudo escrevi um poema aceitável,/ um poema que amadurou em mim ao longo de oitenta anos (…) ah, aceitem lá a pequenez geral da minha vida/ e do meu nome obscuro,/ e o quão honesto sou odiando tudo isso”.

E no poema que fecha o volume, refere expressamente os seus 84 anos: “(…) a verdade é que eu estou melhor agora/ com 84 anos:/ primeiro, como me acham muito velho, pensam que sou inofensivo, e não me chateiam,/ segundo, deduzido do anterior, não posso ser um rival perigoso,/ terceiro, estou à partida fora de combate,/ quarto, já não fodo,/ quinto, em linha recta, nem é preciso perder tempo comigo, sou doce, sweet, frágil, etéreo, gasoso/ e é esse exactamente o erro deles/ - duro duro duro/ quanto mais velho mais duro é o corno — disse o papa Malaquias e que por isso foi morto (…)”.

O volume reproduz alguns dos manuscritos a partir dos quais os poemas foram fixados, que permitem ver que a caligrafia de Herberto Helder é geralmente muito legível. A organizadora, que indica no livro as poucas situações em que o poeta não chegou a decidir-se entre duas palavras, só assinala um caso de “leitura problemática”.

O que parece é ter havido uma falha de transcrição no primeiro verso do poema cujo manuscrito aqui transcrevemos. As palavras “esta noite” passaram correctamente para o início, de acordo com o sinal usado por Herberto, mas este não abrange a sequência “diz o jornal”, que deveria ter permanecido no final do verso.

Um livro inédito

Arnaldo Saraiva diz que há outros poemas inéditos em condições de serem publicados além dos que foram agora reunidos em Letra Aberta, e encontrou ainda no espólio “um livro de prosa poética” inédito. Constava há muito que Herberto Helder tinha um livro que nunca quisera publicar, mas que teria chegado a mostrar a um par de amigos, e o aparecimento deste original parece confirmar que a dita obra de facto existia e que o poeta, se nunca a editou, também não a destruiu. “Tem muitas rasuras e intromissões depois da primeira escrita, e vê-se que há ali trabalho de várias fases”, diz Arnaldo Saraiva. “É um livro que tem de ser editado, mas é preciso que isso seja feito com critério, porque há ali saltos, intromissões e uma ou outra coisa que o Herberto deixou indecidida, e que não podemos decidir por ele”. 

Descontado este achado, Saraiva não encontrou no espólio “surpresas de maior”, mas refere ainda uma antologia de quadras populares que o poeta deixou organizada. “Na última conversa que tivemos, falou-me desse romanceiro”, conta o ensaísta, que dado o seu reconhecido interesse pelo campo das literaturas orais e populares, deverá assumir ele próprio a edição deste trabalho. “Só será publicado quando tudo aquilo estiver bem estudado, até porque é preciso ver se ele não inventou algumas das quadras”.

Ainda não há data para a disponibilização do arquivo agora digitalizado, mas Saraiva espera que possa ser consultado em breve. Mais complexo é o que fazer deste material. “Há poemas inéditos que têm de ser publicados com rigor, é preciso ponderar uma possível edição crítica, e novas edições de qualquer livro terão de passar por este material”, diz Saraiva.

O facto de Herberto Helder ter desmantelado vários dos seus livros, distribuindo parte deles por outros títulos, como aconteceu com Apresentação do Rosto (1968), Vocação Animal (1971) ou Cobra (1977), mas também suprimindo definitivamente vários poemas de edição para edição do seu “poema contínuo”, e reescrevendo outros, torna a tarefa dos futuros responsáveis por uma qualquer edição crítica — para a qual, além do mais, parece não existir muito material — particularmente espinhosa.

E parece evidente que as futuras edições de Herberto não poderão deixar de ter em conta a sua condição de reescritor forte, ou seja, alguém para quem a obra é, em cada momento, um todo orgânico. Rosa Maria Martelo lembra um texto publicado na revista brasileira Cult, no qual “Herberto Helder fala do modo como os poemas a mais, mesmo quando suprimidos, e ele suprimiu, reviu ou deslocou muitos, ‘projectam a sua mácula nos poemas legítimos’”.  

Mesmo sem conhecer os manuscritos agora digitalizados, Martelo acha que “seria desejável manter a autonomia do que o poeta concebeu como ‘poema contínuo’, dado que o pensou como um texto único, um livro de livros”. E a ensaísta questiona-se se “haveria da parte de Herberto Helder a percepção de que os poemas de A Morte Sem Mestre, e por extensão, os que depois foram publicados em Poemas Canhotos, funcionavam como uma espécie de post-scriptum”.

Enquanto não houver respostas para esta e outras perguntas — e talvez o arquivo forneça pistas para se chegar a algumas —, seria talvez prudente assumir a edição dos seus Poemas Completos, que o poeta ainda viu sair em 2015, como último estado desse seu “poema contínuo”, tornado definitivo pela sua morte, e publicar tudo o resto, por muito bom que seja (e frequentemente é), com um estatuto diferenciado.