Organizações humanitárias boicotam centros de detenção para refugiados na Grécia

Cumprindo o acordo promovido pela União Europeia, centenas de pessoas foram detidas desde domingo passado e vão ser enviadas para a Turquia.

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Cerca de 12 mil estão em Idomeni, num acampamento na fronteira da Grécia com a Macedónia ANDREJ ISAKOVIC/AFP

Cada vez mais organizações de ajuda a refugiados e migrantes que chegam à Grécia estão a juntar-se a um boicote aos centros de detenção, numa resposta ao acordo promovido pela União Europeia (UE), que dizem pôr em causa os direitos humanos.

Estas organizações rejeitam o pacto assinado entre a UE e a Turquia para acelerar o registo e os pedidos de asilo, ao abrigo do qual centenas de pessoas foram detidas desde domingo passado. Refugiados e migrantes cujos pedidos sejam recusados são enviados de volta para a Turquia.

Várias agências de defesa dos direitos humanos consideram que ao colaborarem com os centros de detenção na Grécia estão, na prática, a ser cúmplices de uma prática “injusta e desumana”.

Duas organizações anunciaram esta quarta-feira que vão juntar-se à Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e aos Médicos Sem Fronteiras – que contribuem de forma decisiva para os esforços humanitários –, na decisão de deixar de prestar grande parte da assistência.

“O International Rescue Committee alertou a guarda costeira na segunda-feira que não iria transportar as pessoas mais vulneráveis do mundo para um lugar onde a sua liberdade de movimentos é dificultada”, disse Lucy Carrigan, uma porta-voz da organização. Apesar desta decisão, a mesma organização continuará a prestar ajuda a migrantes e refugiados num outro campo improvisado.

Também o Conselho Norueguês para os Refugiados, uma importante organização não-governamental, anunciou que vai suspender a maioria das suas actividades num campo de detenção na ilha grega de Chios.

“Estamos extremamente perto de uma situação de sobrelotação neste campo. Temos um grande número de refugiados, incluindo mulheres grávidas e crianças, no chão do corredor na recepção”, disse Dan Tyler, um dos conselheiros da organização, citado pela agência Reuters. A tensão neste campo tem aumentado e já se registaram manifestações.

Milhares de pessoas estão na Grécia sem terem para onde ir, visto que em Fevereiro vários países na rota dos Balcãs encerraram as suas fronteiras.

Ao todo, são quase 50 mil refugiados e migrantes, sendo que a maioria delas não está em campos de detenção porque chegaram antes de o acordo da União Europeia ter entrado em vigor, no domingo passado. Cerca de 12 mil estão em Idomeni, num acampamento na fronteira da Grécia com a Macedónia.

Desde terça-feira, o pessoal médico da organização Médicos Sem Fronteiras tem estado ausente desse campo, devido a receios com a segurança, depois de duas pessoas terem tentado imolar-se pelo fogo.

Os refugiados e migrantes que estão a viver em Idomeni bloquearam uma estrada e um posto de controlo esta quarta-feira, exigindo a abertura da fronteira. As autoridades da Grécia anunciaram que precisam de ajuda.

“Precisamos destas organizações internacionais, em particular a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que é uma grande ajuda para nós. Como é óbvio, queremos que eles fiquem, mas de acordo com certas regras, como é natural”, disse o ministro grego para a Protecção dos Cidadãos, Nikos Toskas.

Uma fonte do governo da Grécia, citada pela Reuters sob anonimato, disse que o ministro das Migrações, Yannis Mouzalas, está a tentar convencer as organizações humanitárias a retomar os trabalhos. “Ele é a pessoa mais indicada para mediar as conversações com estes grupos”, disse.

Yannis Mouzalas, um médico, tem um passado de trabalho humanitário em várias agências, e participou em muitas missões em todo o mundo antes de ter sido nomeado ministro pelo governo liderado pelo Syriza.

Quase 150 mil pessoas, muitas delas em fuga de conflitos no Médio Oriente e na Ásia, chegaram à Grécia por mar desde o início do ano. Quase um milhão chegaram à Europa através da Grécia em 2015.