Yusra quer mostrar ao mundo o que um refugiado pode fazer

Aos 17 anos, Yusra Mardini é uma refugiada síria e também candidata a qualificar-se para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. No mar, Ysura e a irmã salvaram 20 pessoas. Na piscina, a nadadora quer provar que “na água não faz diferença se és refugiado, sírio ou alemão".

Há uma fotografia de Yusra no meio de um campo de milho. Está agachada, tem uma mochila às costas. “Acho que aqui é na fronteira da Sérvia com a Hungria. Era um caminho para fugir à polícia. Se o percorressemos a pé, fazia-se em dez minutos. Mas nós ficámos lá desde as 10h até às 16h ou 17h. Dávamos um, dois, três passos e [alguém gritava]: ‘baixem-se!’” Yusra Mardini conta a história como quem descreve uma aventura. Ela foi o centro das atenções numa conferência de imprensa que aconteceu no final da semana passada em Berlim no Wasserfreunde Spandau 04, um clube que fica perto do centro de refugiados onde Yusra e a irmã Sarah, de 20 anos, vivem. É lá que a nadadora tenta agora a qualificação olímpica, numa piscina construída para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim.

Yusra faz parte do grupo de 43 atletas que o Comité Olímpico Internacional (COI) identificou como tendo hipóteses de se qualificar para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Atletas que neste momento não têm país, nem hino, nem bandeira, e que vão poder formar uma equipa para participar nos Jogos Olímpicos, desfilando atrás da bandeira olímpica na cerimónia de abertura do Rio2016. Um fundo especial de 2 milhões de euros foi criado pelo Comité para financiar a preparação dos atletas. Em Dezembro de 2015, o COI anunciou a descoberta de três atletas que fugiram dos seus países no quadro da crise de migrantes e que poderiam aspirar à qualificação para os Jogos. Entre eles estava Yusra, mas também um judoca da República Democrática do Congo refugiado no Brasil, e uma iraniana praticante de taekwondo que vive na Bélgica. Quando Yusra e a irmã Sarah chegaram a Berlim, há sete meses, contaram a um tradutor egípcio que eram nadadoras e que queriam continuar a sê-lo. Um clube alemão aceitou-as. Em Damasco, onde viviam, o treino tinha de competir com a guerra: “Às vezes estávamos a treinar e havia um bombardeamento na piscina. Podíamos ver três ou quatro buracos no telhado quando olhávamos para trás”, conta Yusra.

O dia-a-dia é agora bem diferente: “Acordo às 7h, tomo o pequeno-almoço, tenho aulas, logo a seguir o primeiro treino”, conta a adolescente aos jornalistas. O inglês não é perfeito, mas é ainda assim melhor do que o alemão, língua que começa agora a aprender, depois de ter ingressado na escola em Fevereiro. No encontro com os jornalistas, organizado para gerir as centenas de pedidos de entrevista que têm recebido nos últimos meses, alguém pergunta: “Que percurso fez até aqui?” Yusra debita, sem pestanejar, cidades e países: “Damasco – Beirute – Turquia – Grécia – Macedónia – Sérvia – Hungria – Viena – Munique – Berlim”. Foi durante esta viagem que alguns jornalistas se foram cruzando com Yusra e a irmã, e ainda outras pessoas do grupo que as acompanhavam (os pais não viajaram com elas nessa altura, mas já se encontram em Berlim). Há imagens desses momentos, em vídeo e fotografia. Yusra olha para mais uma fotografia, projectada na parede da sala onde se realizou a conferência de imprensa. Reconhece um primo do pai e a irmã. Tinham sido apanhados pela polícia. “Nós estávamos a rir. E o polícia perguntou: ‘Porque é que estão a rir?’ E eu disse: ‘Porque sim! Nós íamos morrer este ano. Acha que agora íamos ter medo de si?” Numa sala cheia de jornalistas, Yusra volta a rir. Levaram-nos para um campo de refugiados na Hungria e disseram-lhes que teriam de ficar lá dois ou três dias. “Fugimos, claro”. 

Mas há uma imagem que está apenas na cabeça de Yusra e que lhe pedem invariavelmente para reviver. Em Agosto de 2015, as duas irmãs entraram num barco insuflável em Esmirna, na Turquia, em direcção a Lesbos, Grécia. Ao todo, seguiam a bordo 20 pessoas. Quando o motor deixou de trabalhar, pensaram que iam naufragar. “Das 20, só três pessoas sabiam nadar”, conta Yusra. As irmãs saltaram para a água. Eram nadadoras na Síria, representavam o país em competições a nível internacional. Sarah, a irmã mais velha, chegou a trabalhar como nadadora-salvadora numa piscina no país de origem. Sentiam que se falhassem, seria uma vergonha. Três horas e meia depois chegaram a terra, após terem puxado a embarcação. Salvos mas sem nada: sem a pouca roupa que traziam, sem colete. Yusra descreve o episódio como sendo “muito duro”, “traumatizante”, mas não deixa cair o sorriso decidido. Um dia quer ser piloto de aviões. Agora, só pensa nos Jogos Olímpicos. “Se eu falhar vou tentar de novo. Posso ficar triste, mas não vou dizer. Vou treinar uma e outra vez, e vou conseguir”. O sonho pode estar perto. O treinador, o alemão Sven Spannekrebs, elogia-lhe a técnica, mas é preciso melhorar a força. Acredita que ela terá hipóteses na prova dos 200m livres. O tempo actual de Yusra é de 2m15. Se chegar aos 2m03 qualifica-se para os Jogos Olímpicos. Há entre cinco a dez lugares para preencher na equipa de atletas olímpicos refugiados. Yusra quer lá estar. “Na água não faz diferença se és refugiado, sírio ou alemão”, diz Yusra. “Quando a minha irmã quer encorajar-me diz: ‘Mostra-lhes o que um refugiado pode fazer.”