Crónica

O hamburguer não é sustentável

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Não sou um integrista que acha que os filmes de super-heróis são a pior coisa à face da terra, nem tenho nada contra a introdução do existencialismo sisudo no género a partir dos Batman de Tim Burton e dos X-Men de Bryan Singer. Diverti-me imenso com os Guardiões da Galáxia, acho que O Cavaleiro das Trevas é um filme extremamente interessante e não vejo forçosamente contradição em gostar dos dois e de Jean-Luc Godard.

Só que isto é como as dietas de que os médicos nutricionistas tanto falam na televisão: nada faz mal desde que comido em moderação e integrado numa dieta variada. Um hamburguer por semana, ou duas vezes ao mês, tudo bem; hamburguer ao almoço e ao jantar todos os dias não é uma boa ideia. Ora, esta semana chega às salas Batman v. Super-Homem: O Despertar da Justiça; daqui a um mês, Capitão América: Guerra Civil; em Maio, X-Men: Apocalipse; em Agosto, Esquadrão Suicida; em Novembro, Dr. Strange... Somemos a isto sequelas para séries como Divergente, Maze Runner, Star Trek, Tartarugas Ninja, O Dia da Independência ou Jason Bourne ou remakes de Os Caça-Fantasmas, Os Sete Magníficos e Ben-Hur – e percebe-se que o problema é que, neste momento, os grandes estúdios de Hollywood praticamente só investem em hamburguer, de acordo com uma lógica de “universos” e “séries” onde o marketing e o “produto” ganham preponderância sobre o próprio conceito de “filme”.

Tome-se o caso do universo Marvel: aquilo já não são filmes, antes um “plano quinquenal” em linha de montagem onde os títulos estão de tal modo interligados que falhar um equivale a perder o fio à meada, e a personalidade de quem os faz é absolutamente indiferente ao resultado final. A maioria dos filmes Marvel são dirigidos por cineastas sem especial currículo, confirmando a dimensão mercantilista de uma Marvel transformada em tentacular organização multimedia que já chegou inclusive à televisão (dos Agentes da SHIELD aos fenómenos Netflix Daredevil e Jessica Jones).

Nada disto tem a ver com as virtudes e defeitos individuais de cada filme; apenas com a sensação de que, de repente, o cinema americano está cada vez mais refém de uma monocultura que está a estrangular toda uma estrutura de produção. Podemos dizer que Hollywood sempre viveu de séries, e é verdade. Mas quando a MGM produzia os Tarzan ou os filmes de Andy Hardy (que até eram de pequeno orçamento), também produzia Grande Hotel, Um Americano em Paris ou Deus Sabe Quanto Amei. A United Artists tinha os filmes de James Bond, mas também produzia Woody Allen, Martin Scorsese ou François Truffaut.

Hoje, a economia do negócio é outra: garantir um mínimo denominador comum que seja vendável em todo o mundo e, sobretudo, possa arrastar às salas o público das novas economias até aqui fechadas a Hollywood e que representam uma oportunidade de lucros (sobretudo a China e a Rússia). Tudo em nome de um público que é o que supostamente alimenta as bilheteiras – os adolescentes criados na cultura nerd dos anos 1980 e 1990 entretanto globalizada – mas cuja atenção está hoje muito mais dividida por outro tipo de écrãs, dos telemóveis ao streaming online. A sensação é que Hollywood não está tanto a fazer filmes para os adolescentes de hoje como para os de há cinco ou dez anos (faz sentido, é o tempo que as coisas levam a pingar da vanguarda para o mainstream), deixando que o potencial de negócio de uma única linha de produção (ainda por cima bastante cara) eclipse a variedade de uma produção mais “sortida” dirigida a um público mais amplo.

Mas a galinha dos ovos de ouro não dura para sempre. O que vai acontecer quando a “bolha” dos super-heróis rebentar? O que sobrará quando uma Hollywood que se desinteressou de arriscar noutros filmes tiver de recuperar o público que deixou fugir porque não tinha interesse nestes títulos (para) adolescentes?