Crítica

Heavy Metal

Como espectáculo espalha-brasas, francamente, já vimos bem pior do que Batman V Superman: o Despertar da Justiça

Com um bocadinho mais de profundidade do que é habitual evoca-se a tentação do fascismo subjacente aos super-heróis
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Com um bocadinho mais de profundidade do que é habitual evoca-se a tentação do fascismo subjacente aos super-heróis

E aí está a obra-prima das obras primas... Não, brincamos, claro, mas a estreia deste mastodonte de 400 milhões de dólares (entre produção e promoção, contas encontradas na internet) é uma boa ocasião para reconhecer méritos – à cabeça, o mérito da indústria americana (e se quisermos particularizar: da Warner, da DC Comics, de Christopher Nolan, produtor executivo, de Zack Snyder, realizador) de andar há década e meia a fazer essencialmente o mesmo filme e a contar essencialmente a mesma história, sempre de maneira mais cara e mais espectacularmente, digamos, heavy metal, sem ter ainda esgotado o filão.

Este encontro de Batman com Superman, que parece daquelas receitas da série B mais descabelada de outras décadas capaz de fazer os pares mais improváveis (Sherlock Holmes contra Tarzan e coisas do género), é previsivelmente mais do mesmo, nova declinação do super-heroísmo sofrido e messiânico que Nolan inaugurou com os seus Batmen e a que Snyder deu sequência, mudando a agulha para o Super-Homem, com o seu Man of Steel. O filme, de resto, vem em linha directa de Man of Steel, mantendo as personagens e os actores que as interpretavam: Henry Cavill como Clark Kent, Amy Adams como Lois Lane, Kevin Costner e Diane Lane como pais, etc. Talvez, por nesta perspectiva, ser o Batman o “intruso”, e sem deixar de trazer o pathos sisudo e cinzentão dos filmes de Nolan, o elenco é renovado: o rosto de Batman é agora Ben Affleck, e o Alfred mantém a pronúncia britânica mas agora é a vez de Jeremy Irons no lugar de Michael Caine.

O elenco é, de facto, divertido e variado, e ainda não falámos do melhor, o Lex Luthor de Jesse Eisenberg, a personagem mais inesperada na maneira como converte o vilão num wonderkid psicótico, metade cómico de “stand up”, metade “grunge”. Uma das coisas que tornam o filme razoavelmente divertido, pelo menos a espaços, é esta abundância de actores interessantes e pouco vistos em andanças deste género, o que tem ainda a vantagem de não obrigar ninguém a ficar o tempo todo concentrado nas personagens mais aborrecidas, justamente o Batman e o Superman. Snyder é um realizador mais leve e mais pragmático do que Nolan, e apesar de o mundo deste estar cá todo isso faz alguma diferença: embora rapidamente se torne descabelado, com um argumento cheio de buracos e articulações mal explicadas, o filme tem um ritmo vivo, perde pouco tempo em filosofices, e nos intervalos das explosões, sessões de pancadaria e espectáculos de special effects, vai dando aqui e ali algum gozo. Pela enésima vez passa-se em revista o momento fundador desta vaga de filmes de super-herois – o 11 de Setembro, glosado com torres a cair e poeira a invadir as ruas – e com um bocadinho mais de profundidade do que é habitual evoca-se a tentação do fascismo subjacente ao universo dos super~heróis, com alusões (mais do que discussões, felizmente) à necessidade de pensar os limites do poder (físico ou económico) e aceitar os limites da lei e da ética.

No final, superados todos os mal entendidos, acaba, claro, a fazer-se ao episódio seguinte, à chegada da Liga da Justiça, já prenunciada pela entrada em cena da Wonder Woman (a cargo da muito airosa israelita Gal Gadot). Enfim, como espectáculo espalha-brasas, francamente, já vimos bem pior.