“Amanhã volto ao metro. Se estiver fechado, vou de bicicleta”

Bruxelas viveu em sobressalto vários meses. Houve ameaças de bomba em estações de metro, rusgas policiais. Esta terça-feira o que temiam aconteceu. Agora, "o fundamental é não mudar radicalmente a vida".

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Reuters

Seria um óptimo dia para desfrutar de uns raios de sol — tão raros em Bruxelas. Mas não houve tempo para isso. “O que temíamos, aconteceu,” disse o primeiro ministro Belga, Charles Michel, na manhã desta terça-feira.

Os habitantes de Bruxelas acordaram com a notícia de duas explosões no aeroporto principal da capital belga. Eram oito da manhã. Cerca de uma hora depois, mais uma explosão. Desta vez numa das estações de metro mais movimentadas da cidade, Maelbeek, a escassos metros das instituições europeias.

“Ouvi um estrondo. O meu café verteu-se sobre a mesa. E perguntei aos meus colegas se se tratava de uma explosão,” diz Eduardo Oliveira, funcionário da Comissão Europeia, num dos edifícios que se encontra de frente para a estação onde ocorreu a explosão.

“Olhei pela janela do escritório e vi várias pessoas a saírem do metro. Cinco, seis delas com ferimentos mais graves. A maior parte estava coberta de sangue,” descreve Eduardo Oliveira que, quis o acaso, apanhara o metro mais cedo nesta terça-feira negra em Bruxelas.

Atentados em Bruxelas ao minuto

Ainda do escritório, viu funcionários do hotel Thon, que se encontra ao lado da estação de metro, chegar com toalhas e lençóis para ajudarem os feridos a limparem o sangue.

“A polícia chegou cerca de dez minutos depois da explosão. Vieram também militares, bombeiros e depois ambulâncias,” conta.

O edifício onde Eduardo Oliveira se encontrava foi evacuado e todos os funcionários das instituições europeias foram aconselhados a trabalhar a partir de casa ou a permanecer nas instalações que não foram fechadas.

As ruas do “zona europeia” estão quase tão vazias como em dias de cimeira. Mas muito mais agitadas, ainda que quem as percorre sejam sobretudo jornalistas e polícias.

Há uma aparente calma, que é várias vezes interrompida por sirenes de carros policiais.

“Nem sei o que diga. É um sentimento estranho. Só quero que tudo volte à normalidade,” disse Philippe, funcionário num café ao lado do edifício do Conselho Europeu — onde ainda na semana passada estiveram reunidos os 28 líderes da União.

Uns metros mais abaixo, à entrada para o hospital Parc Leopold, estão dois militares — algo que até então, nesta zona de Bruxelas, só se via à entrada para edifícios das instituições europeias. De cara tapada, vão avisando as pessoas que passam sobre o perímetro de segurança, dizem-lhes que mais à frente a rua está cortada.

Crónica: Nunca digas nunca

O hospital Parc Leopold é o que se encontra mais perto da estação de Maelbeek e prepara-se para receber dos hospitais de maiores dimensões vários pacientes, principalmente para cirurgias.

Michel Libert, director do hospital, disse ao PÚBLICO que pelas 8h45 da manhã foi activado o plano M.A.S.H., que serve de alerta para todos os serviços hospitalares quando há emergências que trarão um maior número de doentes.

“Até agora recebemos seis pessoas, vindas tanto da explosão de Maelbeek como das do aeroporto. Estavam principalmente em estado de choque e tinham pequenos ferimentos”, diz Michel ao início da tarde.

Até ao final da tarde apenas um deles se encontrava no hospital - um cidadão americano que estava no aeroporto no momento das explosões e sofreu ferimentos numa das mãos. A maior parte dos feridos foi levada para hospitais com equipas maiores, como o de Saint Pierre.

“Sabemos que provavelmente vamos receber muitas pessoas dos grandes hospitais, como o de Saint Pierre, porque estes estão a receber demasiadas pessoas,” explica o director do hospital, adiantando que todas as consultas e operações marcadas para esta terça-feira foram canceladas, deixando o pessoal médico livre para responder às emergências.

Desde os atentados terroristas em Paris, a 13 de Novembro, Bruxelas tem registado vários sobressaltos, incluindo ameaças de bomba em estações de metro e rusgas policiais. Esteve vários dias em alerta máximo de segurança, com escolas e superfícies comerciais fechadas. Tornou-se hábito ver militares em zonas chave da cidade, mas os habitantes da cidade conseguiam esquecer-se que eles lá estavam. As rotinas continuaram.

E irão continuar. “Amanhã o plano é voltar a apanhar o metro. Se estiver fechado, vou de bicicleta,” disse Eduardo. “O fundamental é não mudar radicalmente a nossa vida... pois é isso mesmo que o terrorismo quer.”