Europa previu mas não conseguiu evitar um novo ataque no coração do continente

Secretas temem há meses um atentado coordenado em várias cidades. Europol calcula que 5000 europeus se juntaram às fileiras do Estado Islâmico e avisa para autonomia táctica das células activas no continente

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Por toda a Europa, a segurança foi reforçada mal foi conhecida a notícia dos atentados Lionel Bonaventure/AFP

A Europa sabia que iria acontecer de novo – desde os atentados de Paris que os governos, os serviços de informação, os especialistas avisavam que um novo ataque era apenas uma questão de tempo. O Estado Islâmico (EI) “demostra ter capacidade para atacar à sua vontade, em qualquer momento e contra quase qualquer alvo escolhido”, lê-se num relatório da Europol elaborado em Dezembro, em que se alerta para a grande liberdade de acção dos comandos que o grupo jihadista tem no continente.

“Os avisos estavam no vermelho antes de 13 de Novembro, já sabíamos desde o início de 2015 que a ameaça de atentados era séria. Mas hoje estamos no nível escarlate”, disse na semana passada à AFP Claude Moniquet, ex-agente das secretas francesas (DGSE) e especialista em contraterrorismo, depois de a polícia belga ter surpreendido dois dos implicados nos atentados de Novembro num apartamento da região de Bruxelas – Salah Abdeslam, o décimo atacante de Paris, fugiu mas foi preso três dias depois em Molenbeek.

Na entrevista, Moniquet, que dirige agora uma empresa de análise de informação sediada em Bruxelas, levantava o véu sobre aquele que é agora o cenário de pesadelo das secretas europeias – “uma vaga de atentados coordenados e simultâneos em várias cidades da Europa”. O EI “fala disso na sua propaganda, os serviços de informação dispõem de elementos nesse sentido”, explicou o analista, acrescentando que as secretas sabem que, entre o Verão e o Outono do ano passado, chegaram à Europa “20 a 30 activistas relativamente operacionais, experientes, treinados e com um perfil idêntico aos que operaram em Paris, o que quer dizer capazes de fazer grandes estragos”.

Confirmando o receio, nesta terça-feira, à medida que se ia percebendo o nível de coordenação dos atentados em Bruxelas, por toda a Europa a segurança foi sendo redobrada. Alemanha, França e Holanda repuseram os controlos fronteiriços – medida que se tornou padrão para detectar movimentos de eventuais cúmplices dos atacantes –, houve reforços policiais e militares nos aeroportos, nos transportes públicos e vários governos accionaram células de crise.

Mas na Europa das grandes cidades e da livre circulação não escasseiam alvos fáceis para o terrorismo – é virtualmente impossível blindar o metropolitano ou os autocarros com as mesmas protecções de um aeroporto –, pelo que “a segurança depende sobretudo da capacidade das autoridades para recolher informações capazes de prevenir os ataques antes que eles sejam lançados”, sublinhou a revista Economist. E é, por isso, que de novo se questiona a eficácia dos serviços de informação. Se a ameaça era tão evidente, porque não foi possível evitar este ataque?

Inúmeras dificuldades
Numa entrevista à Sky News, no início do mês, Rob Wainwright, o director da Europol, insistia que as secretas europeias tinham de começar a trabalhar como uma “verdadeira comunidade de contraterrorismo” para enfrentar aquela que “é sem dúvida a maior ameaça terrorista que a Europa enfrenta em mais de dez anos”. Depois de Paris, a UE comprometeu-se com novas medidas para reforçar o controlo das fronteiras externas e foi criado no seio da Europol um Centro Europeu de Contraterrorismo, que conta com dezenas de analistas. Mas Wainwright sublinhava a tarefa dantesca das agências de segurança perante as informações de que “pelo menos 5000 europeus foram radicalizados pelo EI e adquiriram experiência de combate na Síria ou no Iraque”. “Muitos regressaram entretanto.”

Para além do número elevado de pessoas sob suspeita – e da impossibilidade de distinguir os que foram radicalizados dos que estão prestes a passar ao ataque – os quatro meses de caça a Abdeslam mostram que as forças de segurança têm dificuldade em furar a barreira da desconfiança das comunidades de origem dos jihadistas, como é o caso de Molenbeek, o que complica a tarefa de identificar indivíduos radicalizados ou determinar o momento em que células adormecidas passam à acção.

Mas o relatório da Europol, resultado de um seminário que juntou especialistas dos 28 Estados-membros, acrescenta outras dificuldades. Sublinha que, ao contrário do que acontece com outras organizações, “os ataques incitados pelo EI não são necessariamente coordenados a partir da Síria”. Com Paris, a liderança do grupo confirmou a intenção de passar à acção a nível global, mas os comandos locais aparentam ter grande liberdade táctica. “Isto permite-lhes adoptar as acções às circunstâncias do local”, “escolhendo os alvos que melhor se adaptam às suas capacidades, dimensão e recursos, criando margem para acções espontâneas”, acrescenta o relatório, que aconselhava os países europeus a “esperarem o inesperado”.

As investigações aos atentados de Paris demonstraram uma outra dificuldade – a da proximidade de algumas células jihadistas ao submundo do crime, com os operacionais a valerem-se de contactos feitos nas prisões ou no seu passado de delinquência para obterem armas ou passaportes falsos. “Onde há dinheiro há sempre oportunidade de negócio para o crime organizado”, explicou à revista Time Yan St-Pierre, responsável de uma empresa de consultadoria de segurança em Berlim.

Nos próximos dias, tal como em Novembro, vai ser dado ênfase aos ataques evitados e às detenções efectuadas, mas Bruxelas, depois de Paris, põe mais a nu os fracassos do que as conquistas. “Os governos europeus estão a tomar medidas para evitar ataques terroristas”, lia-se no último alerta do Departamento de Estado aos cidadãos norte-americanos no estrangeiro. “No entanto, todos os países europeus continuam a ser potencialmente vulneráveis.”