Opinião

O Twitter e a busca pelo amor no lugar errado

Ao décimo ano de vida, o Twitter é desprezado pelos investidores mas não pelos utilizadores. E são estes que a empresa deve escutar em primeiro lugar.

Encontrar um artigo catastrofista sobre o futuro do Twitter é uma tarefa simples nesta segunda-feira, dia do décimo aniversário da rede social. Afinal, e numa indústria em que resultados e negócios multimilionários são anunciados todos os meses, uma empresa que em menos de dois anos perde metade do seu valor em bolsa e que assiste a um êxodo de altos quadros é uma história esquisita. Pior ainda, o Twitter é a única rede social relevante que neste momento não consegue ganhar novos utilizadores – desde meados de 2015 que encalhou nos 320 milhões de utilizadores activos, ultrapassado agora pelo Instagram (mais de 400 milhões) e já muito longe do colossal Facebook (acima dos mil milhões).

Mas também não é difícil encontrar loas a esta rede social minimalista, que parece tão estranha e pouco amiga aos olhos do vulgar utilizador do Facebook. Ao contrário da rede de Mark Zuckerberg, o Twitter é o verdadeiro minuto-a-minuto do planeta. É ali que a informação circula em tempo real e de uma maneira ainda relativamente livre dos algoritmos que tentam dizer-nos o que devemos ver. Foi no Twitter que pudemos seguir em directo a promessa e a desilusão da Primavera Árabe. Foi ali que soubemos em primeira mão da operação contra Osama Bin Laden ou da queda de um avião no Rio Hudson, em Nova Iorque, e que nos apercebemos da trágica dimensão do massacre em Paris muito antes de as televisões acordarem. É ali que fala Edward Snowden, a partir do seu esconderijo moscovita, e que muitos jornalistas rompem bloqueios estatais. E é também ali que vale a pena seguir uma noite eleitoral, uma cerimónia dos Óscares ou um jogo de futebol – não no Facebook, no Instagram ou no infante Snapchat.

O ambiente é o de um café cheio de amigos e conhecidos, entre anónimos e figuras públicas, ainda que não conheçamos realmente muitos deles. Esse café é uma inestimável base de dados e uma lista de contactos inacessível de outra forma. E dá-se espaço à serendipidade, ao encontro feliz e fortuito de pessoas unidas por um interesse, ainda que afastadas por geografias ou fidelidades conflituantes (que enriquecem o debate). E isso, mais uma vez, não acontece tão facilmente noutra rede fechada sobre os nossos contactos familiares e profissionais.

Há um lado negro, claro. Uma quase completa ausência de moderação de conteúdos permitiu que o Twitter se transformasse a dado momento num espaço de propaganda e recrutamento para extremistas de todos os quadrantes, e uma vítima de assédio ou de difamação continua a dispor de poucas ferramentas para se defender – aqui, o problema não é muito diferente do que se passa noutras redes. Há também um lado fútil, pois, mas isso faz parte da vida.

No fundo, o Twitter vive o mesmo dilema de muitas empresas de comunicação social: presta um serviço valioso, por muito sedutor que seja ridicularizá-lo, mas isso não basta para pagar as contas, quanto mais para distribuir dividendos. A entrada em bolsa em 2013, porém, comprometeu a empresa com a busca por receitas, e isso tem conduzido a experiências que para muitos utilizadores vêm pôr em causa a essência da plataforma. Por exemplo, a substituição (opcional) do feed cronológico de mensagens por outro em que algumas mensagens aparecem ordenadas por um obscuro critério de relevância. Ou a sugerida – e posteriormente desmentida – expansão do limite de caracteres por mensagem dos actuais 140 para uns hipotéticos 10.000.

O que se ensaia é uma aproximação do Twitter aos seus concorrentes, que oferecem uma melhor plataforma para a difusão de conteúdos publicitários. Mas no dia em que o Twitter se tornar no Facebook, que argumento poderá demover os seus utilizadores de migrarem para a rede rival?

Há outra hipótese. A moderação de expectativas. A aceitação do facto de que o Twitter nunca irá gerar multimilionários à escala dos fundadores e investidores do Facebook ou do Google. A preservação de uma rede social que provou várias vezes ao longo da última década que, mais do que um negócio rentável, é um serviço de utilidade pública de impacto global. Para tal, o Twitter terá de prestar mais atenção aos seus utilizadores e menos a analistas de mercados.