Editorial

Já cheira a eleições!

PS e CDS já correm para as autárquicas. PSD, BE e PCP estão muito atrasados

Ainda falta mais de um ano, mas já há quem acerte agulhas para alcançar um resultado capaz de cumprir objectivos próprios nas próximas autárquicas. Sociais-democratas, bloquistas e comunistas estão mais atrasados, enquanto centristas e socialistas vão à frente. E percebe-se porquê. Para o PS, conseguir passar o Cabo das Tormentas que é o Orçamento de Estado para 2017 (antecipado da negociação do Pacto de Estabilidade e Crescimento, em Maio), é condição essencial para potenciar a vitória nas autárquicas, o que lhes dará a carta de alforria capaz de resgatar a fragilidade eleitoral e política que a derrota nas legislativas lhes colou. Além do mais, o partido ficaria em posição privilegiada para negociar à esquerda e passaria a dispor de maior margem de manobra no controlo da agenda política. Mas se a mobilização das hostes se iniciou com os congressos federativos deste fim-de- semana, é nos bastidores que se jogam cartadas mais decisivas, designadamente, nas negociações para estabilizar a banca, um dos sectores cuja turbulência mais tem contribuído para aumentar a factura fiscal paga pelos portugueses e para perturbar o funcionamento da economia. Ora a direcção do PS sabe que a sobrevivência do Governo depende em absoluto do crescimento da economia, que gera empregos e permite baixar impostos, o que ajuda a explicar diligências do primeiro-ministro junto de accionistas da banca privada, divulgadas pelo Expresso. Tudo fica mais fácil quando o próprio Presidente da República assume um papel decisivo na estabilização da banca, surgindo (involuntariamente?) como aliado valiosíssimo de Costa neste particular e tornando mais evidente o isolamento de Passos Coelho, a quem convém o quanto pior melhor em termos de dificuldades para o Governo.

A solidão do líder do PSD acentuou-se com a eleição de Assunção Cristas no CDS e a estratégia de correr em trilho próprio por ela definida, visível quer em matéria de contributos para o OE aprovado a semana passada, quer em relação à supervisão do sistema financeiro a propósito da qual propõe uma revisão cirúrgica da Constituição com vista a alterar o modelo de designação do governador do Banco de Portugal. Ou seja, tudo ao contrário do que faz o PSD. Apesar das dificuldades com que vai enfrentar as autárquicas de 2017, patentes na guerra aberta de concelhias e distritais do Norte e Centro contra a nova direcção, a vantagem de Cristas é ter a casa arrumada. Outras decorrem do facto de o CDS não ser um partido de forte tradição autárquica e do renovado compromisso com a candidatura de Rui Moreira, no Porto. Se Cristas se candidatar à câmara de Lisboa, como tudo indica, a visibilidade do partido está garantida nesta disputa.

Presa ao passado, a direcção do PSD tem tudo por definir e todo um partido por mobilizar. Veremos os sinais que saem do congresso de Abril. A estratégia dos bloquistas não é fácil. Perderam a única câmara que tinham em 2013, mas foram os grandes vencedores das legislativas de Outubro passado. Desvalorizar as autárquicas deve ser a grande tentação dos estrategas do BE. Só que, agora, o partido tem responsabilidades acrescidas. Já o PCP, ganhou mais cinco câmaras e é a terceira força autárquica. O congresso do fim do ano vai dizer se querem mais.