Os líderes também têm avós

Mal os 21 jovens de origem cabo-verdiana aterram no arquipélago africano, “o plano de formação para a cidadania” deixou de ser apenas isso. As coisas complicaram-se em termos emocionais. Em Cabo Verde, o país onde “as iás-iás” são a base da emigração, é por elas que muitos deles anseiam.

O programa que estão em Cabo Verde para cumprir tem nome institucional, Mais Líderes. A designação pretende inspirar a estes 21 jovens de origem cabo-verdiana a viver em Portugal responsabilidades, deveres a cumprir, rigidez de horários. Sabem que serão recebidos por figuras eminentes do país: o primeiro-ministro, deputados da Assembleia Nacional, ministros, académicos. Só no último dia está previsto haver descontracção e a recompensa: “Encontro com familiares.” E esse vai ser, desde o início, um problema. A viagem vai ser feita desta tensão, de uma espécie de barragem emocional que está sempre prestes a rebentar.

À chegada à cidade da Praia, Luísa Malhó, coordenadora do programa e representante do Alto-Comissariado para as Migrações, não se cansa de lhes lembrar: “Não nos podemos esquecer da missão que aqui nos trouxe.” A ela caberá nesta viagem manter o grupo nos eixos, lembrando a cada dia que o delinear de cada passo do programa resultou de aturadas negociações entre os governos de Portugal e Cabo Verde. E que eles são privilegiados.

É-lhes lembrado muitas vezes a sua responsabilidade. “Vocês foram escolhidos.” Eles são o primeiro grupo Mais Líderes, uma experiência-piloto do Alto-Comissariado para as Migrações, outros se seguirão. Foram seleccionados pelos currículos e cartas de motivação, quando ainda não se sabia que ia incluir uma viagem a Cabo Verde. O programa de formação começou seis meses antes da vinda, em Lisboa, e quer dar-lhes ferramentas, o termo técnico é capacitar, para que sejam mais interventivos em termos sociais e políticos. Receberam formação, dada pela associação Coolpolitics (algo como política fixe), em sistemas políticos, processos de decisão política, sistema jurídicos, o papel dos media, noções de liderança juvenil e de mobilização comunitária.

Espera-se ainda que eles sejam “exemplos” ali, como nos seus bairros – também estão sempre a dizer-lhes isso. Mas vai ser difícil manter tudo como programado, porque, mal aterraram no arquipélago africano, o plano de formação para a cidadania deixou de ser apenas isso. As coisas complicaram-se em termos emocionais.

O primeiro ponto do programa é institucional, mas não ajuda. Dizem-nos que é vulgar em Cabo Verde haver música em eventos protocolares. A anteceder a intervenção da ministra das Comunidades de Cabo Verde, Fernanda Fernandes, sobe ao palco do Mirex, Ministério das Relações Exteriores, o cantor Romeu di Lurdes, guitarra a tiracolo, e começa a entoar a morna Nha Terra (Sodade). É sobre emigração, sobre quem está fora e sofre das saudades de quem está longe, no caso do artista, do pai, da mãe, do irmão mais novo, da comida.

É uma canção recente que circula pela Internet e que, pelos vistos, é conhecida dos jovens que vivem em Portugal. Há duas jovens que a sabem de cor, entoam-na em surdina, cabeça inclinada – Sodade é nha terra/ Sodade. Carla Lopes e Edneia Mendes, além de cantarem, acabam o tema em lágrimas.

Terminada a canção, a ministra das Comunidades, Fernanda Fernandes, tailleur bem cortado, elegante e institucional, tem agora a palavra, sobe ao palco mas também chora. “A culpa é do músico”, desculpa-se. Conta que nasceu em Cabo Verde mas que cresceu em Portugal, “fui levada com dez anos”, tirou o curso superior lá e voltou definitivamente em 1998.

“Para amarmos um lar, não temos de preterir um lar. Tanto gosto de pastel de bacalhau como de cachupa, tanto me emociono com o fado como com a morna. Tanto me emociono a subir a Rua do Carmo como me emociono…” E agora interrompe mesmo. “Fico por aqui, sou um bocado chorona. Este é um programa político e emocional”, conclui.

Não tardará muito para que Luísa Malhó perceba o que isto significa, o que já desconfiava, que todos os dias haverá programas a pedir para serem mudados, pedidos para irem ver os familiares antes do agendado. Alguns nunca estiveram na terra dos pais, outros não vêm há muito tempo. A Luísa Malhó caberá por estes dias manter o ingrato papel de durona. Fazem-lho sentir, e ela relembra-lhes, mais uma vez, “a missão” que ali os trouxe, que tudo resultou de um protocolo assinado pelos dois governos.

Ao longo da viagem a sua resistência vai valer-lhe cognomes, num misto de brincadeira e crítica, como a Capitã, a Estaline, a Generala. É Jakilson Pereira quem se dá a essas liberdades, ele é uma espécie de líder informal do grupo. Mas não será ele quem dará oficialmente o mote para tentar deixar entrar a torrente de anseios que Luísa Malhó tentará manter contidos até ao último dia, até ao “encontro com familiares”. A interlocutora das emoções destes jovens parece improvável. 

Ângela Barbosa, a responsável de serviço dos assuntos da comunidade na embaixada de Cabo Verde, é um dos parceiros institucionais deste programa, um dos membros da comitiva. Tem um aspecto composto, formal, desloca-se sempre impecavelmente vestida, camisa de seda, imperturbável nos seus saltos altos a gerir o piso íngreme. À hora do jantar, apenas um dia depois da chegada do grupo à ilha de Santiago, a sessão musical no Ministério das Relações Exteriores foi nessa manhã, abeira-se de Luísa Malhó, à mesa: “Eles pediram para ir ver as avós. Usaram um argumento muito forte, esta pode ser a última vez que as verão.”

E está dada a deixa. Os “líderes” estão em Cabo Verde, os “líderes” comprometem-se a cumprir o programa, mas os “líderes” querem muito ir ver as suas avós antes do previsto. As suas “iás-iás”, termo porque são conhecidas em Cabo Verde, explicam.

Regressar de férias é um luxo

Porquê as avós? Para isso, é preciso perceber como funcionam muitos dos percursos de emigração de Cabo Verde, um país de meio milhão de habitantes mas em que se estima haver cerca de um milhão emigrado. Os principais destinos são Estados Unidos, Portugal, França e Holanda.

A norma é a emigração por etapas, transferências familiares ao sabor do possível. Muitas vezes, vai primeiro o pai, quando estabiliza a vida manda vir a mãe, que pode, ou não, conseguir levar os filhos, por vezes vão os mais novos, depois os mais velhos. Os que os pais não conseguem levar ficam à espera de ir, mais tarde ou mais cedo. Conseguir reunir a família pode levar anos e há famílias separadas para sempre. Nesta história, as avós funcionam como um pilar. São quem fica para trás a tomar conta de quem ainda não pode seguir.

PÚBLICO - Daniela Correia, 22 anos
Daniela Correia, 22 anos Rui Gaudêncio/Público
PÚBLICO - Vanessa Alvarenga, 20 anos
Vanessa Alvarenga, 20 anos Rui Gaudêncio/Público
PÚBLICO - Almerindo Fortes, 22 anos
Almerindo Fortes, 22 anos Rui Gaudêncio/Público
PÚBLICO - Jakilson Pereira e Emanuel Cabral, respectivamente 31 e 25 anos
Jakilson Pereira e Emanuel Cabral, respectivamente 31 e 25 anos Rui Gaudêncio/Público
PÚBLICO - Amadeu Monteiro, 22 anos
Amadeu Monteiro, 22 anos Rui Gaudêncio/Público
PÚBLICO - Vanessa Santos, 23 anos
Vanessa Santos, 23 anos Rui Gaudêncio/Público
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Regressar de férias, para muitos, é um luxo. É preciso ter documentos que permitam o retorno ao país de acolhimento, os salários são baixos, o preço das passagens aéreas ronda os 400 euros, as famílias são grandes.

Tomemos Carla Lopes, 23 anos, uma das mais comovidas a ouvir a canção Nha Terra (Sodade). O seu pai emigrou para Portugal quando a mãe estava grávida dela, é camionista internacional. Mais tarde, quando conseguiu documentos, a mãe foi juntar-se-lhe, quando Carla tinha 11 anos, em 2004. Mas só com 17 anos é que ela também foi, e em Portugal licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais.

Quem ficou a criá-la em Cabo Verde até aos 17 anos foi a avó, “a minha segunda mãe”, Damiana Lopes, 81 anos, insiste em ficar a viver sozinha numa casa no interior da ilha de Santiago, rodeada de galinhas e patos, apesar de a família fora ter conseguido pôr de pé uma moderna casa na capital cabo-verdiana – os locais conseguem reconhecer a olho uma “casa de emigrante” – onde ela poderia viver mais confortável, mas não quer.

Hoje em dia, a avó Damiana pode dar-se ao luxo de trabalhar na terra por querer, já não é para sobreviver. A sua subsistência está assegurada à distância por um filho na Suíça, um em França, um em Portugal. “Ela consegue enfiar a agulha, não é surda nem nada”, elogia a neta.

O “encontro com familiares” previsto para o último dia pressupõe que os familiares venham ter com eles à cidade da Praia. A avó Damiana não se desloca, tem de ser Carla a ir ter com ela. “Estou aqui, não faz sentido não ver a minha avó.”

Para que se perceba o que Edneia Lopes está a sentir, ela explica que não quer ir ver a sua avó, na verdade quer ir ver “a mãe”. “Eu chamo a minha avó de mãe, de mamã. Esse nome está tomado. A minha mãe eu trato por Ana.” Os pais de Edneia Lopes, 22 anos, emigraram quando tinha cinco anos, só foi para Portugal com 15 anos. Toda a infância foi passada com a avó, que diz que foi sua médica, sua amiga, sua professora.

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O grupo na Assembleia Nacional

Há no grupo quem conheça a avó apenas ao telefone. Para Vanessa Alvarenga, de 20 anos, nascida em Lisboa, “a iá-iá” é uma voz numa cabine telefónica de baixo custo da Western Union no Cacém, na linha de Sintra. Falam regularmente mas a mãe de Vanessa há muito que não consegue voltar a Cabo Verde para a voltar a ver. Impedem-na os três trabalhos de limpeza que acumula, sai de casa às 5h00 regressa às 22h00. Quando está de férias num trabalho, não está de férias no outro. E não há dinheiro para ir com as três filhas. Como é que ia escolher? “Como não podia levar todas, então não vem nenhuma. Não conheço a minha avó, não conheço a minha raiz.”

O que sabe dela? “Que está velhinha. Que é acolhedora, sei que é a pessoa mais querida..., bué da gente gosta dela. Ela tem saudades, não quer morrer sem nos ver outra vez.”

“A minha avó é especial. Só por falarmos ao telefone, criámos uma ligação. Ela pergunta ‘se estou bem’”, Vanessa pergunta se ela está bem. E a “iá-iá”:  “Quando é que vens?” E Vanessa: “Não sei, é quando puder.”

É como se conhecesse a avó há muito tempo, é como com Cabo Verde. “É como se eu tivesse estado cá, como se tivesse estado nestas ruas. Eu sou daqui.” Desde pequenina que ouve histórias de cá, como quando lhe contavam que em Cabo Verde andavam quilómetros para ir buscar água ao poço. Mas, nos primeiros tempos em Portugal, as coisas não lhe pareciam assim tão diferentes. Vanessa, que hoje é dinamizadora cultural em Mira-Sintra, viveu numa barraca até aos seis anos e iam buscar água ao chafariz de uma rotunda do Cacém ao pé de casa, a luz era de um candeeiro com uma botija de gás, como diziam que acontecia em Cabo Verde.

"Eu pertenço aqui"

Não é só o ter os familiares ali tão perto que mexe com eles, é tudo o que os rodeia, é uma visita existencial desde o início. A chegada ao aeroporto da cidade da Praia é uma pergunta. Estrangeiros? Nacionais? É hora de escolher em que fila se colocam para ter o passaporte controlado.

Vanessa Santos, 24 anos, nasceu em Tavira, tem passaporte português. Escolhe a fila dos estrangeiros mas ao longo dos dias o que sentirá é: “Eu pertenço aqui.”

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Na Rádio RCV Jovem, um programa do DJ Vává

A resposta de quem são não está afinal no azul do passaporte cabo-verdiano ou na cor de vinho do documento português, é mais complicado. Eles não têm de optar entre ser cabo-verdianos ou portugueses. Podem ser as duas coisas, dizem-lhe muitas vezes.

Durante a sua visita ouvirão a questão da dupla identidade colocada de forma mais elaborada – “querem às vezes impor-nos práticas auto-excludentes, a proposição disjuntiva ‘ou’ em vez da copulativa ‘e’”, diz-lhes Victor Borges, ex-ministro da Educação. “Somos um pouco de onde viemos e sobretudo de onde estamos.” Convida-os “a parar um momento para se poderem situar, para não caírem na armadilha da escolha. Gerir esta dupla pertença é salvaguardar paz e tranquilidade interiores para a vida de todos os dias”.

Foi um caminho que Vanessa Santos, 24 anos, teve de fazer sozinha, desde aquela primeira vez em que, na escola primária de Silves, a única negra na turma, respondeu em crioulo à professora e levou um raspanete: “Não devia falar em crioulo mas em português, estava em Portugal.”

A resposta deu direito a ter os pais chamados à escola e eles acataram o conselho dos professores: calaram o crioulo em casa. Por causa disso perdeu esta sua língua, não a ouviu falar dos 6 aos 19 anos. “Falo muito mal”, diz com sotaque algarvio.

Mãe de uma filha recém-nascida, licenciada em Educação Social na Escola Superior de Educação e de Comunicação da Universidade de Faro, diz que Kayla vai ouvir crioulo em casa. “Reintroduzi o crioulo. O tempo da censura acabou.”

Ali, o primeiro-ministro, José Maria Neves, fala-lhes do crioulo não como um dialecto, como em Portugal, mas como “a língua cabo-verdiana”. Ali irão ouvir contar desse primeiro-ministro, que os receberá no Palácio do Governo vestido com uma camisa de motivos cabo-verdianos, que, como muita gente no país, também foi criança a carregar à cabeça latas de água que foram aumentando à medida do seu tamanho. “Eu carreguei com lata de 10 litros, de 20 e depois de 25 quilos. Levantávamo-nos às 5 da manhã e íamos às aulas às 8h00.”

O primeiro-ministro contou-lhes ainda a lenda da criação de Cabo Verde: depois de, ao sétimo dia, Deus criar o mundo preparava-se para descansar. Nesse momento, esfregou as mãos e, com os restos da terra que caíram criou Cabo Verde, um conjunto de dez pedaços de terra. O assistente de Deus bem perguntou, “então deixas tanta riqueza em Angola, no Congo, petróleo na Nigéria. Nesses grãos de terra não vai deixar nada? Nem água, nem ouro, nem diamantes nem petróleo? O único remédio era colocar aqui um povo suficientemente heróico… Aqui não há nada, a não ser cabo-verdianos”, e ri-se em conjunto com eles. “Sabe dançar o funaná?”, pergunta a uma das jovens, numa espécie de teste rápido de cabo-verdianidade. Madalena Silva, muito atrapalhada, responde: “Sim, acho que sei.” E o primeiro-ministro sorri satisfeito.

“Em 1975, dos cinco PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] que ascenderam à independência, Cabo Verde era o único que tinha tudo para não dar certo. Não tínhamos nada na altura da independência, nem edifícios para pôr ministérios nem carros. A Praia era umas quatro ruas.” “Hoje somos o segundo país mais bem governado de África”, num índice em que é precedido apenas pelas ilhas Maurícias e seguido pelo Botswana.

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Com o primeiro-ministro, José Maria Neves (ao centro)

“Quem é que quer ir ver as avós?”

Esta é também uma viagem para lhes dar a conhecer “vejam de onde partimos e onde chegámos”, convida o deputado Sidónio Monteiro.

É o comandante Pedro Pires, histórico combatente pela independência do país, ex-primeiro ministro, quem conta que nas negociações para a independência havia quem, do lado português, lhes tivesse dito algo como depois não nos venham pedir ajuda se se arrependerem”, como se diz às crianças. Não mudaram de ideias e são o mais improvável caso de sucesso das ex-colónias portuguesas, um país quase sem recursos próprios que alcançou o estatuto de país de rendimento médio”. Como Cabo Verde conseguiu, também eles podem conseguir.

Pedro Pires convida-os a não se sentirem envergonhados das suas origens, que são o pequeno arquipélago no Atlântico e os seus próprios pais, uma primeira geração que em Portugal só encontrou muitas vezes lugar nas limpezas, no feminino, e construção civil no masculino. “A segunda geração tem a responsabilidade de puxar a primeira. Invistam na vossa educação, na educação dos vossos filhos. Nós não nascemos para ser pobres, nós também nascemos para ser ricos e ser patrões”, continua.

Na visita andaram sobretudo por zonas mais ricas da cidade da Praia, mas hoje é dia de visitarem um bairro pobre, o Safende, e percebe-se que a visita os incomoda. “Quando os nossos pais foram para Portugal, as barracas eram iguais a estas, há um sentimento de pertença”, continua Emanuel Cabral, 26 anos. Mas não é só isso. Ele nunca tinha estado em África. Olha em volta: “Nunca tinha visto tanta gente africana junta.” É o mundo virado ao contrário, aqui ele faz parte da maioria. É diferente de Portugal, é uma sensação boa esta de ser acolhido “sem olhares de desconfiança”.

É nos bastidores das palestras, em coffee breaks, que Luísa Malhó vai tomando o pulso aos jovens. A um deles, um dos mais calados, perguntou: “Então e tu, não tens cá família? Eu queria ir ver a minha avó.  Onde está? No cemitério.” Como resistir? Aos pedidos, aos sonoros e aos silenciosos.

Chega a altura em que Luísa Malhó soçobra e há um dia, antes do protocolado, que pergunta finalmente: “Quem é que quer ir ver as avós?”

Ali fica decidido que vai ser alugada uma carrinha para fazer o itinerário das avós. Paulo Vieira, 36 anos, está na comitiva na qualidade de elemento do ACM, é português de origem cabo-verdiana, e sorri. O seu percurso é parecido com o deles. Empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro, será pouco para definir o que está a experimentar. “Eu percebo tudo o que eles estão a sentir.”

“Eu não conheci os meus avós, não vim a tempo.” Lembra-se de crescer num bairro da Amadora e da debandada dos colegas nas férias de Verão. “Diziam que ‘iam para a terra’”, para o Norte e para o Sul. “Nós não íamos a lado nenhum.”

Os seus avós ficarão para sempre a ser pessoas que ele conhece da televisão. A sua tia Paula estava emigrada em França e, ao contrário da sua família, tinha dinheiro suficiente para uma câmara de vídeo e para ir a Cabo Verde passar férias. Era ela quem filmava os avós e os trazia de volta a Portugal, fazendo-os circular pela família através de cópias que ficavam gastas de tanto serem regravadas, com respostas que iam e voltavam.

“Era muito magrinha a minha avó, usava o típico lenço branco que faz triângulo na cabeça. Falava e olhava para a câmara como se estivesse a falar directamente com as pessoas”, lembra Paulo Vieira. Nas gravações dizia-se quase sempre o mesmo, mandava-se cumprimentos, falava-se sobre a saudade e a vontade do reencontro. A avó de Paulo permanecerá em cassetes VHS. Eles ainda vão a tempo.

“Não come nem banana”

Chegou finalmente o dia. Existe uma palavra em inglês, overdressed, algo como demasiado bem vestido para a ocasião, mas isso é para quem está de fora. Para ir à aldeia de Tomba Touro ver a avó que conhece de voz, Vanessa Alvarenga colocou hoje um vestido vermelho comprido sem costas, alças com aros dourados, um fio dourado, cabelo impecavelmente penteado num nó pendurado no topo da cabeça, olhos sombreados a branco, sapatos de verniz com um lacinho.

A viagem de uma hora a caminho do interior da ilha de Santiago, com outros jovens que também vão ver as avós, como Carla e Edneia, é feita de expectativa. Estão nervosos.

Quando Vanessa chega à frente de uma pequena casa térrea, a avó espera-a e parece que não sabem o que fazer uma à outra, Vanessa dá-lhe dois beijos, a avó abraça-a.

Quando se entra na casa azul-turquesa, a primeira coisa que se vê é uma estante repleta de fotos. Vanessa reconhece-se na prateleira de cima, com quatro anos, e de novo numa imagem ao lado da mãe e de uma irmã. São imagens que chegaram pelo correio.

É numa outra sala interior, resguardada dos olhares e que se vê ser pouco usada, que a avó de 78 anos guarda o grosso das fotos, dezenas. O compartimento é uma galeria dos ausentes, uma espécie de altar de filhos e netos. É através das fotografias que Maria Horta foi vendo os filhos passarem de jovens, que muitos eram quando saíram, a adultos de meia-idade, os netos de bebés a crianças, a adolescentes, a jovens e depois adultos, como Vanessa.

De todos os filhos, só três vivem em Cabo Verde, seis emigraram: a Cristina está em França, a Maria Eduarda na Suíça, o Dani em Espanha, a Laurinda em Espanha, o Agnelo e a Josemina, mãe de Vanessa, em Portugal. Já não sabe ao certo quantos netos tem, mais de 40. Consegue contá-los um a um até aos 29, com respectivos locais de residência, mas a certa altura desiste. A muitos dos membros desta segunda geração só conhece por fotografia, são membros da família tornados abstractos, netos de papel.

Vanessa foi, neste dia, uma atracção na aldeia de Tomba Touro. Afluíram tios, primos, conhecidos à casa da "iá-iá" e a portuguesa andou com as primas, que conhecia pelo Facebook, a descer e a subir a avenida principal, a ver e a ser vista, com o seu vestido comprido. Cruzou-se com burros a carregar milho e olhares curiosos de velhos e novos que assinalam o seu papel de forasteira, e que ela beijou e cumprimentou, muitas vezes sem reconhecer a pessoa, mas desconfiando que serão quase todos família. Eloísa Alvarenga, uma prima, reconhece Vanessa, “tem o rosto comprido como o nosso”.

A avó cozinhou de propósito um guisado de galinha do campo a lenha e oferece muitas vezes banana à neta. Vanessa recusa delicadamente, “não gosto, desde pequenina”. “Não cresceu em Cabo Cabo Verde, não gosta de banana”, conclui a avó, juntando os benefícios de a comer em jejum, antes do café. “Não come nem banana”, repete numa espécie de constatação do muito que separa quem fica de quem parte.

Ao final do dia em Tomba Touro, a avó tem pronto para a neta um embrulho de comida típica de Cabo Verde, com cuscuz  [bolo tradicional feito com farinha de milho], leite dormido [fermentado], mel e torresmos. “Não era preciso, avó.” Dão um beijo. “Que Deus te acompanhe. Boa viagem.” À última hora ainda há uma prima que lhe vem oferecer um saco de amendoins.

De regresso, na camioneta, há hoje um jovem líder comovido. Não vamos dizer o seu nome, é um deles, podia ser cada um deles. Ele não gostaria de ser retratado como agora o encontramos, a enxugar as lágrimas a um lenço de papel que, ainda por cima, calhou ser cor-de-rosa, e que lhe foi passado por uma das colegas. “Custa uma beca! É fodido”, diz em jeito de consolo um outro colega, troca de emoções no masculino. “Está rija, tem 70 e tal anos.” De Portugal trouxe-lhe medicamentos, a carrinha vai repleta de ofertas para levar para Portugal, bananas, cana de açúcar para chupar, doce de coco, grogue, feijão, papaia, bolacha de Cabo Verde.

A avó de Jakilson ficava fora de mão. Para que ele também a possa ir ver, estabeleceu-se um compromisso. É já de noite e Luísa Malhó aceita que a carrinha de jovens pare por um instante à sua porta. A avó Angelina, anda nos 80 e tal anos, não a vê há três anos, está à sua espera. A paragem não terá chegado a dez minutos.

Jakilson, o rei da festa, regressa à carrinha com um choro discreto e senta-se num lugar junto à janela, sem falar, põe os auscultadores, a tentar abafar a música que continua tão alta e estridente como durante toda a viagem.

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Jakilson Pereira com a avó Angelina, que não via há três anos

Nesse momento, começam todos a cantar em coro. Jakilson, sossegado no seu canto, não adere, mas minutos depois começa a fazer com a cabeça um movimento de tartaruga, a acompanhar a música como se estivesse a entrar e sair da carapaça, e acaba por se juntar ao refrão: “Vamos ser felizes/ Tenho fé/ O amor é um dado fundamental/ Para viver feliz.”

A música alegre que passava na rádio acabou, a seguinte é melancólica: “Essa é triste, passa à frente”, diz Euclides Rocha ao motorista Silvino, transformado em DJ da viagem. Jakilson ainda tenta que autorizem o tema, “deixa a canção triste”. Mas é a maioria quem manda e o DJ, que não vê a mãe que vive em Portugal há 30 anos, obedece e muda de frequência.

Em Portugal ficou famoso o clássico tema da mala de cartão da cantora emigrada em França, Linda de Suza, aqui o repertório em torno da emigração é muito variado e omnipresente. “Chora de dia, chora de noite, pela minha terra”, surge já outra canção na rádio. “Tira, tira.” “Salta.” “Muda isso.” “É triste, muda. Cadê o funaná?” Ganha a maioria, ganha o funaná.

O PÚBLICO viajou a convite do Alto-Comissariado para as Migrações

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"Selfie" de grupo: Paulo Vieira (ao centro) e Luísa Malhó (à esq. na foto), do Alto Comissariado para as Migrações
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