Terror matou quatro pessoas na avenida que é a montra de Istambul

Estado Islâmico e grupos curdos suspeitos da autoria do atentado suicida, o quarto na Turquia desde o início do ano. Entre os 36 feridos da explosão há um cidadão português

Não fosse o medo que tomou conta das cidades turcas desde que, no domingo passado, um carro armadilhado explodiu em Ancara, matando 37 pessoas, e poderia ter sido mais sangrento o balanço do ataque suicida deste sábado na Avenida Istiklal, a mais famosa artéria do centro de Istambul.

Além do suicida, três pessoas morreram naquele que é já o quarto atentado nas grandes cidades Turquia desde o início do ano. Entre os 36 feridos, há um cidadão português, atingido por estilhaços, mas cujo estado de saúde não é considerado grave.

PÚBLICO -
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BULENT KILIC/Reuters

“Ouvi uma explosão quando estava lá dentro. Quando saí à rua, havia gente a correr em todas as direcções”, contou à AFP um empregado de um café na grande avenida pedonal que atravessa o bairro de Beyoglu, na margem europeia de Istambul. “Corri em direcção ao local da explosão e vi corpos no chão, gente por todo o lado, uma verdadeira carnificina.”

Imagens captadas pouco depois da explosão, mostram turistas, comerciantes e residentes em pânico, uns tentando sair rapidamente da zona, outros procurando abrigo dentro de lojas. “Foi muito caótico, toda a gente estava a correr e a gritar”, explicou à televisão britânica BBC Uwes Shehaded, que estava a 500 metros do local onde o bombista se fez explodir, eram 11h (9h em Portugal Continental).

O atentado ainda não foi reivindicado e dois responsáveis turcos ouvidos pela Reuters, sob condição de anonimato, admitiam que esta tanto poderá ter sido uma acção dos jihadistas do Estado Islâmico, como do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – ambos reivindicaram nos últimos meses ataques suicidas no país. Vários jornais próximos do Governo apressaram-se, no entanto, a atribuir culpas aos extremistas islâmicos, identificando o autor dos atentados como sendo Savas Yildiz, um turco de 33 anos que é apresentado como jihadista – informação que não foi confirmada oficialmente.

Vídeos de segurança transmitidos pela televisão turca mostram um homem a dirigir-se para um pequeno grupo de pessoas que passavam junto a um edifício governamental, seguindo-se a explosão. A cadeia de televisão CNN-Turquia noticiou que a bomba terá sido detonada antes de tempo; as autoridades admitem que o alvo do bombista seria outro, mas terá sido dissuadido pela forte presença policial.

Israel confirmou que a explosão atingiu um grupo de 14 turistas nacionais: dois morreram, 11 foram hospitalizados e há uma pessoa por localizar, suspeitando-se que possa estar entre as vítimas mortais. A quarta vítima é um cidadão iraniano e entre os feridos há um punhado de cidadãos de outros países, incluindo um português, confirmou à agência Lusa o secretário de Estado das Comunidades. Segundo José Luís Carneiro estavam a ser feitas diligências para repatriar o ferido caso fosse necessário. Uma fonte da secretaria de Estado adiantou, no entanto, que o português, que se encontrava a trabalhar na Turquia, sofreu ferimentos no rosto, mas o seu estado não é considerado grave e poderá ter alta já este domingo.

Turquia em alerta máximo
Habitualmente apinhada de gente, a Istiklal estava menos cheia neste sábado, conta a Reuters – desde domingo que muitos turcos evitam locais de grande concentração. “É melhor não nos encontrarmos na rua”, é o conselho repetido por muitos habitantes de uma cidade conhecida pela animação das suas ruas e que atrai todos os anos milhões de turistas, conta o correspondente da BBC.

A Turquia está em alerta máximo desde Outubro, quando um atentado reivindicado pelo Estado Islâmico matou 103 pessoas em Ancara – o mais mortífero de uma vaga de ataques terroristas, cada vez menos espaçados, que colocam sob grande pressão o Governo do Presidente, Recep Tayyip Erdogan. Um surto de violência directamente ligado à guerra na vizinha Síria, na qual Ancara tomou partido desde início, e que foi aproveitada tanto pelas milícias curdas (que Ancara vê como um ramo do PKK) como pelo Estado Islâmico para se apoderarem de grandes faixas de território junto à fronteira.

Ancara declarou guerra a uns e outros, mas a ameaça terrorista não pára de aumentar. Em Janeiro, um atentado atribuído ao EI matou 12 turistas alemães junto à Mesquita Azul, uma das principais atracções turísticas de Istambul. Os Falcões da Libertação do Curdistão (TAK), um grupo dissidente do PKK, visaram Ancara – em Fevereiro atacaram uma coluna militar, matando 29 pessoas, há uma semana o alvo escolhido foi uma paragem de autocarro.

O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, insistiu neste sábado “que o Governo vai continuar a lutar com resolução e determinação para exterminar por completo o terrorismo”. Mas o ataque deste sábado confronta o Governo com questões embaraçosas: aconteceu na Istiklal, uma das zonas mais guardadas da Turquia, num momento em que as celebrações do Nowruz, o ano persa celebrado pela minoria curda, tinham já levado ao redobrar do policiamento e depois de a Alemanha ter encerrado as suas representações no país – o consulado em Istambul fica a poucos metros da Istiklal – com base em informações sobre planos de atentados, que as autoridades locais desvalorizaram.