Editorial

Lula já não é ministro outra vez?

A pergunta tem sentido dada a velocidade vertiginosa a que as coisas se têm passado no Brasil. Além das manifestações contra ou a favor da manutenção do PT no poder, a fórmula mais linear de traduzir a profunda divisão existente no país, cruzam-se na sociedade brasileira os sintomas de uma doença grave cuja cura não tem remédio à vista. Há um sistema político que precisa de ser drasticamente alterado, sobretudo a legislação sobre os partidos, mas não é credível que os próprios estejam disponíveis para introduzir regras que limitem a sua esfera de acção. E no entanto a excessiva permissividade quanto à formação de partidos e a falta de exigência sobre a representatividade necessária para o respectivo acesso ao Parlamento, facilitam uma pulverização partidária onde assenta muita troca de favores, muita compra de votos, muito alimento para clientelas cuja existência se limita a parasitar à volta do poder para sugar recursos públicos. Com um sistema político incapaz de gerar maiorias com uma base doutrinária coerente, muita da história mais recente da construção dos governos no Brasil é feita de episódios caricatos à volta de negociações, que acabam por compactuar com a avidez destas clientelas. Como sair disto? Ninguém sabe.

Outra situação preocupante exposta pela crise actual tem a ver com o conflito entre o Executivo e o Judicial, que juntamente com o Legislativo são os pilares sobre os quais assentam as democracias modernas. Quando um juiz expõe publicamente escutas telefónicas em que um dos interlocutores é a própria Presidente da República e quando esta, em resposta, sugere a prisão desse juiz é o sinal de que já não há limites de parte a parte. Como sair disto? Ninguém sabe.

E que dizer do facto de as principais figuras políticas do país estarem sob investigação judicial, desde Lula e Dilma, até Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados (Parlamento), além de ministros, deputados, etc.? Só para se ter uma ideia, um em cada três deputados que integra a comissão que analisa o impeachment de Dilma estão indiciados pela justiça, muitos deles por corrupção. É avassalador. Como se sai disto? Ninguém sabe. Mas se se juntar a este caldo de cultura uma crise económica que tem transformado em frustrações os sonhos de progresso imaginados por milhões de brasileiros, então tudo é muito mais inquietante.

Sugerir correcção