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Luther Blissett: avançado, anarquista e escritor de “best sellers”

Ninguém sabe porquê, mas o nome do avançado britânico de origem jamaicana foi adoptado por um movimento artístico vanguardista italiano nos anos 1990.

Os melhores momentos de Blissett foram no Watford
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Os melhores momentos de Blissett foram no Watford DR

Luther Blissett era um avançado com calo nas divisões secundárias de Inglaterra, mas que nunca tinha jogado na primeira divisão. Nem o seu Watford, que, em 1982-83, fazia a sua estreia no topo do futebol inglês. A equipa dominante era o Liverpool de Kenny Dalglish, Ronnie Phelan e de um jovem Ian Rush, e, nessa época, iria ser, sem surpresa, o campeão. O que foi totalmente inesperado foi o segundo lugar do Watford (a melhor classificação da sua história) e Blissett como o melhor goleador do campeonato (27 golos) e um dos melhores da Europa (num ano em que o portista Fernando Gomes ganhou a bota de ouro). O AC Milan bateu-lhe à porta e Blisset foi para o “calcio”, onde foi bem mais que um jogador de futebol sem saber bem porquê.

Como o “Eu sou Spartacus” do filme de Stanley Kubrick ou a máscara de Guy Fawkes como rosto dos “Anonymous”, também muita gente foi Luther Blissett entre 1994 e 1999. O nome do avançado foi adoptado por um colectivo artístico-anarquista europeu, mas ninguém sabe quem foi o “paciente zero”. Ninguém sabe quem teve a ideia e nem quem fazia parte deste colectivo que assumiu, durante cinco anos, a autoria de várias demonstrações que entendia como artísticas. Mas a sua actividade fez-se notar, principalmente em Itália, pelas partidas elaboradas que tinham como alvo os media tradicionais, que, no entender do colectivo, beneficiavam o sensacionalismo.

Uma das intervenções mais documentadas aconteceu entre 1994 e 1995, e teve como alvo um programa de televisão italiano que se dedicava a procurar pessoas desaparecidas. O “Projecto Luther Blissett” fez chegar à ANSA, a agência de notícias italiana, um alerta para o desaparecimento de um artista inglês chamado Harry Kipper na fronteira italo-eslovena. A agência divulgou a informação, a produção do “Chi l’ha visto?”, da RAI (que ainda existe), pegou na história com a intenção de dedicar um episódio à reconstituição dos passos de Kipper, um performer que estava a fazer uma viagem de bicicleta pela Europa para desenhar, com o seu percurso, a palavra “ART”.

A “investigação” andou por Londres, cidade de origem de Kipper, por Bolonha, Udine e chegou a Friuli, uma cidade na fronteira com a Eslovénia, onde Kipper teria sido visto pela última vez. Em todas estas cidades havia um “Luther Blissett” preparado para corroborar a existência do britânico, apresentado como adepto de uma coisa chamada “turismo psicogeográfico”. O programa estava pronto para ir para o ar, mas foi retirado à última hora porque um dos produtores ouviu uma conversa no bar sobre o assunto a negar a existência de Kipper. O colectivo já tinha, entretanto, enviado para os jornais toda a informação sobre como eles tinham sido enganados.

Esta foi uma das muitas acções do “Projecto Luther Blissett”. Entre outras, o colectivo promoveu ainda uma exposição de obras de arte que terão sido feitas por um chimpanzé que tinha sido libertado de um cativeiro onde fora sujeito a experiências científicas. Também inventou uma guerra entre grupos rivais satânicos que envolvia sacrifícios rituais e práticas de pedofilia. A fechar o plano quinquenal do colectivo, foi lançado em 1999 um romance histórico com a acção a decorrer no século XVI, assinado por Luther Blissett, neste caso o pseudónimo de quatro escritores italianos de Bolonha que faziam parte do movimento. O romance foi um “best-seller” internacional, com tradução em 15 línguas – foi editado em Portugal com o título “O Espião do Vaticano” (Saída de Emergência, 2008).

O movimento acabou em 1999, substituído por outro de contornos semelhantes com um nome diferente. Luther Blissett já tinha, entretanto, deixado de jogar futebol, depois de uma longa carreira que incluiu vários clubes e 13 jogos pela selecção inglesa. Em Milão, o avançado deixou marca por falhar golos incríveis, marcando apenas cinco em 30 jogos da Série A e jogando os 90 minutos em quase todos. Um ano depois de ter pago um milhão de libras, o AC Milan revendeu Blissett ao Watford por metade do preço de custo. Diz a lenda que os “rossoneri” tinham contratado o jamaicano errado, já que naquele Watford vice-campeão também jogava outro craque caribenho, John Barnes, que haveria de se destacar, tanto no Liverpool, como na selecção inglesa.

De volta a casa, Blissett voltou a ser um goleador eficaz, mas não atingiu o brilhantismo de 1982-83, e os seus números foram decaindo e, em 1988, o Watford acabaria por regressar à segunda divisão. Blissett deixou de jogar em 1996 e passou a ser treinador, não passando de clubes amadores, mas rentabilizando a sua celebridade desportiva como comentador televisivo e participante em corridas de carros antigos. Sobre o colectivo anarco-artístico que lhe raptou o nome, Blissett nunca percebeu bem o que lhe aconteceu, mas tinha uma explicação bastante lógica, até porque o próprio jogador se via a ele próprio um pouco como um instrumento de contra-corrente.

Ou seja, Luther Blissett também era, à sua maneira e sem saber, Luther Blissett. “Este estranho grupo decidiu usar o meu nome para a sua identidade colectiva. Fazem todo o tipo de coisas e eu fico sempre com o crédito ou com a culpa”, dizia o avançado à BBC em 1999. “Quando eu jogava no Milan era um dos poucos jogadores negros no campeonato italiano. Acho que foi por isso que eles me escolheram.”

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos

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