É aqui que primeiro se ouve o futuro do jazz português

A 16.ª Festa do Jazz arranca esta quinta-feira e invade o Teatro São Luiz, em Lisboa, até domingo. Ocasião para tomar o pulso ao meio e para descobrir dois talentos emergentes: João Barradas e Vasco Miranda.

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João Barradas DR
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Vasco Miranda BRUNO SAAVEDRA/RESTART

Em 2009, na 7.ª Festa do Jazz, João Barradas apresentou-se no programa dedicado às escolas actuando no combo da Escola JBJazz. O seu talento como intérprete de acordeão era já demasiado óbvio para que saísse de mãos a abanar e levou consigo uma menção honrosa como instrumentista/solista. Nessa altura, acumulava já primeiros prémios nas competições nacionais, ibéricas e mundiais de acordeão. Mas a música improvisada, que começara a praticar inocentemente num teclado ainda em criança, discorrendo sobre temas pré-programados, começava então a tomar-lhe conta da sua ambição musical. Passados quatro anos, ser-lhe-ia atribuído o primeiro prémio da Festa, em 2014 tocaria integrado no ensemble português de um dos nomes maiores da cena nova-iorquina, o pianista Jacob Sacks, e, daqui por uns dias, no domingo, tocará na sala principal com o seu próprio projecto, liderando uma banda em que se inclui o saxofonista Greg Osby. “O João é uma imagem viva da história da Festa do Jazz”, diz Carlos Martins, director artístico do certame que hoje tem a sua pré-festa e amanhã arranca em pleno, estendendo-se até domingo no Teatro São Luiz, em Lisboa.

O percurso de João Barradas é o exemplo perfeito dos vários contributos que a Festa do Jazz pretende dar à cena jazzística nacional desde a sua fundação: a oportunidade para os alunos das escolas se mostrarem num programa que tem como principais atractivos os mais relevantes grupos portugueses com edições discográficas recentes; a constituição de uma plataforma em que aos músicos locais seja permitida a experiência de partilhar um palco com algumas das maiores referências do jazz mundial; a integração num meio em que, juntando tempo, trabalho e talento, os promissores alunos possam, afinal, despontar e conquistar um lugar na primeira linha do jazz português.

Longe vão, portanto, os tempos em que, numa actividade do jardim-de-infância na localidade ribatejana de Porto Alto, João Barradas esbarrou “naquela caixa com botões” que vinha nas mãos de um dos tocadores de um rancho folclórico. A educadora quisera sensibilizar as crianças para as tradições locais e, afinal, deixou um miúdo a salivar não tanto pela música que então ouviu mas sobretudo pelo som daquele instrumento. “Ainda hoje”, diz João Barradas ao PÚBLICO, “quando vejo um acordeão há qualquer coisa que me chama de imediato”. O jazz não era sequer uma miragem quando iniciou os seus estudos após essa epifania de jardim-escola, e foi chegando lentamente ao mundo de Barradas, cortesia de uma invenção chamada Internet – ele, que nasceu em 1992, não tem como lembrar-se de como se fazia antes dessa invenção para inundar os ouvidos de música desconhecida.

Tendo investigado e estudado toda a “história basilar do acordeão, de Piazzolla e do novo tango, passando por toda a árvore etimológica dos acordeonistas americanos, a Johnny Meijer na Europa e todos os acordeonistas antigos, modernos e de música erudita”, João foi percebendo que a música que ouvia na sua cabeça não encontrava correspondência em todos esses exemplos e estava mais próxima de gente que descobrira no YouTube e que, na verdade, nada tinha que ver com o acordeão. Gente como Herbie Hancock, Lester Young, Brandford Marsalis, Ahmad Jamal, Steve Coleman ou Jack DeJohnette; gente nada condizente com a imagem do chapéu e do bigode que sabe associar-se de imediato ao instrumento em Portugal.

É também essa capacidade de superação dos estereótipos e até dos cânones que Carlos Martins vê em João Barradas. “É um daqueles indivíduos absolutamente brilhantes, capaz de inventar música e que trata o espaço de um compasso como uma paleta em que cabem 30 mil coisas sem que soe a exagero”, diz. Essa singularidade do jovem músico foi também evidente para Greg Osby, autêntica sumidade do jazz norte-americano, depois de um primeiro encontro entre ambos na Lisbon Jazz Summer School de 2009, em que o saxofonista orientou o Curso de Verão.

Depois de se ter encantado pela música de Osby nessa experiência, João Barradas valeu-se das redes sociais virtuais para criar uma relação real com o músico. “Em 2014”, confessa, “o Greg Osby tornou-se o meu mentor, deu-me várias aulas por Skype, criámos uma relação forte através da Internet e agora ele convidou-me a ingressar no grupo dele e a gravar para a sua editora, a Inner Circle.” É precisamente esse disco, Directions, actualmente a ser registado em Lisboa, que João Barradas apresentará no domingo no São Luiz, à frente de uma banda formada por muitos dos seus ex-professores: Osby, André Fernandes, João Paulo Esteves da Silva, André Rosinha e Bruno Pedroso.

Umas palavras com Mário Laginha

Abrindo um programa extenso que inclui concertos de Rodrigo Amado Motion Trio, Susana Santos Silva, André Fernandes, João Paulo Esteves da Silva, LUME ou TGB, a pré-festa desta quinta-feira, numa homenagem aos 50 anos do programa Cinco Minutos de Jazz, de José Duarte, terá actuações de Carlos Martins Quarteto, Mário Laginha Novo Trio, Rita Maria e Filipe Raposo  e do Ensemble Portugal em Jazz interpretando a música de Vasco Miranda, vencedor do primeiro Prémio de Composição Bernardo Sassetti.

As três autorias de Vasco Miranda – 5 Balas, Sea Life e Seven – foram escolhidas por unanimidade e aclamação pelo júri, constituído por Carlos Azevedo, Mário Laginha e Carlos Martins. A concluir o curso de composição e com formação na música erudita, Miranda, de 22 anos, confessa ao PÚBLICO que é no jazz e na música improvisada que imagina o seu futuro, tanto na pele de compositor quanto no posto de instrumentista. A composição, argumenta, não é mais do que “uma improvisação pensada com tempo”.

Natural de Oliveira do Bairro e estudante em Aveiro, concorreu ao prémio adaptando para a formação que hoje se apresenta três peças que tinha na gaveta, sem grande expectativa. Agora, diz Miranda, “é muito bom conhecer o Carlos Martins e toda esta gente que em Aveiro parece muito distante”. Tanto assim que, dizendo-se admirador de Sassetti, o músico agradece a distinção mas revela que o verdadeiro prémio será poder trocar umas palavras com Mário Laginha – “um dos maiores génios do mundo, adoro a obra dele”, confessa.

Mais uma vez, a Festa do Jazz promove a elevação de um jovem talento ao patamar dos maiores nomes da cena nacional. Nada faz crescer tanto quanto estar ao lado de gente crescida.