Dois filhotes da mãe

Um é inquieto e urbano, ruidoso, o outro é belo, telúrico e melancólico. Gostamos de ambos. O guitarrista Rui Carvalho, Filho da Mãe, regressa com Tormenta e Mergulho.

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FOTO: Renato Cruz Santos

Esteve em silêncio durante muito tempo – três anos, para sermos exactos – mas agora Filho da Mãe tem duas línguas – e cada uma canta uma canção diferente e cada canção é belíssima. Esclareçamos o que se entende por canção neste caso, visto que quando se entra no universo de Filho da Mãe não se encontra o que é comum na pop. Entre outras coisas não há: vídeos com raparigas a dançar, ou gente a tirar a roupa em concertos, ou a abanar o esqueleto ou a berrar no fim de uma canção. Em boa verdade, nem sequer há canções, apenas uma guitarra que procura a beleza em seis cordas, braço acima, braço abaixo.

Pelo menos era assim em Palácio, o disco com que, em 2011, o guitarrista Rui Carvalho se estreou sob a denominação Filho da Mãe e também era assim aquando do retorno, em 2013, com Castelo. E se dizemos que era assim é porque agora, em Tormenta, há uma guitarra eléctrica repleta de espasmos ampliados por uma bateria que dispara as sinapses que se ligam aos músculos das pernas, da anca, dos ombros. Como é que o rapaz da beleza plácida e acústica se meteu nestas empreitadas?

Tormenta é uma faixa de mais de sete minutos, criada por Filho da Mãe e Ricardo Martins (baterista dos Lobster, entre outros) e é, igualmente, o nome que os dois deram ao álbum conjunto que lançaram há um par de semanas. Um disco no qual os ritmos são bem mais variados – e, já agora, agitados – que nos discos a solo de Filho da Mãe. Caso queiram tirar teimas por vós próprios nem sequer precisam de ouvir os discos antigos de Filho da Mãe – podem escutar Mergulho, acabado de lançar, duas semanas depois de Tormenta.

“O plano não era bem este. A ideia se calhar não era saírem os dois ao mesmo tempo”, dizia-nos há dias Rui Carvalho, que no dia 18 de Março sobe ao palco do teatro Maria Matos, em Lisboa para apresentar o disco a solo. “Mas nós não fazemos muitos planos e por causa das datas das editoras acabaram por sair ambos ao mesmo tempo”, continua o homem que se vê a publicitar dois discos novos após três anos arredado das edições, concluindo: “São dois universos tão diferentes que não há problema de sair ao mesmo tempo”.

Mas são assim tão diferentes, esses universos? Bem, justapor Tormenta e Mergulho provoca sentimentos paradoxais.

O homem que com electricidade e uma bateria por trás consegue ser, a espaços, abrasivo, rítmico, tempestuoso, abstracto e ruidoso torna-se, a solo, num delicado amplificador da beleza telúrica do mundo.

“Conhecemo-nos desde a altura de If Lucy Fell”, reporta Ricardo Martins, o Ricardo-baterista, “e depois tocámos juntos em I Had Plans, uma banda que tivemos juntos em 2007”. Ricardo, o homem que injecta, através de um par de baquetas, ritmo na guitarra de Filho da Mãe, diz ser “muito mau a descrever géneros musicais” mas a música que então faziam “era pós-hardcore”. Seja lá o que isso for, faz barulho.

Martins e Carvalho são ambos da zona de Lisboa – o baterista de Santarém e o guitarrista da linha de Sintra. Há uns anos Martins foi “viver três anos para Barcelona, primeiro estudar design e depois trabalhar lá”, mas há coisa de dois anos voltou. “E quando voltei, estávamos a conversar que gostávamos de fazer qualquer coisa juntos. Pareceu-nos que tocar era uma óptima desculpa para conversarmos e jantarmos.”

Não era um encontro completamente inocente: “Havia logo a ideia de tocar e gravar, mas sem pressão e com tempo”. Os planos, no entanto, eram diferentes do que veio a ser o resultado final: “A primeira ideia era até fazer uma coisa mais acústica mas fomos ensaiando e veio dar aqui”.

Quando Martins e Carvalho – um nome que tão apropriado para escritório de advogados como para uma loja de tapetes – entraram pela primeira vez na sala de ensaios, ainda não havia nenhum dos temas de Mergulho. (Primeiro veio a Tormenta, só depois o Mergulho.)

Um. inquieto, outro, melancólico
“O Mergulho “, conta o homem das seis cordas, “gravei-o em Novembro [do ano passado], um mês depois de ter gravado o Tormenta”. Tal como o álbum a meias, Mergulho, cujo nome é apropriado, dado que sentimos a cada instante estar a submergir num universo de sombras e cores refractadas, é praticamente feito de improviso, um testemunho à maturidade de Carvalho enquanto criador no absoluto domínio do seu instrumento.

“Não venho do mundo da improvisação”, explica. “Até venho do mundo das bandas de rock, em que por definição as coisas têm de estar mais pensadas”. Isto é uma forma de dizer que improvisar, no seu caso, não é um discurso. Mas “compor demasiado, estruturar demasiado fazia-me perder alguma coisa mais espontânea. A certa altura comecei a achar que tocar sozinho tem uma vantagem: se o que fizer tiver coerência emocional então a canção resulta, aguenta só comigo”.

A primeira vez que ouvimos isto desconfiámos – por mais improvisado que seja, Mergulho tem demasiada coerência para ter saído num só sopro. Depois ponderámos sobre o nervo que é preciso ter para criar assim. Como raio se consegue de uma só vez criar tanta beleza e unidade? Uma progressão como a Júpiter, que vai parar a um dedilhado lindíssimo depois de um tremendo ataque às cordas – uma coisa destas aparece espontaneamente?

Ele diz, a dada altura, sentir que “é como se toda [a sua música] estivesse desde o início a caminhar para aqui” e aí lembramo-nos das sessões com Ricardo Martins. Talvez tenha razão – talvez, sem se ter apercebido disso, ele tenha chegado à sua idade maior, em que tudo o que antes experimentou se expresse agora sem limites de género e com a espontaneidade da improvisação.

A amplitude do talento de Filho da Mãe é dada pela distância entre os dois discos. O Ricardo-baterista, que diz não ter talento para descrever música, fá-lo muito bem quando assinala que Tormenta “acabou por ganhar uma toada com algum balanço. Tem uma dança, de facto. A primeira música que fizemos, a Tormenta, tinha logo esse cariz. E o que veio a seguir acabou por seguir esse rumo. Mas queríamos que tivesse essa energia”.

Tormenta é o som de dois instrumentos soltos a divertirem-se – o que seria dos Rolling Stones se não houvesse vocalista nem baixista nem obrigação de endoidecer as garotas? Seria dinâmica, dinâmica, dinâmica: “Queríamos que tivesse muitas diferenças de intensidade, que quando fosse acima fosse mesmo acima e quando fosse suave fosse mesmo suave”, recorda o Ricardo-baterista, que para quem não tem jeito para descrever música revela um jeito danado a descrever música.

E no entanto, isto não devia ser surpreendente: ao fim e ao cabo, como diz o baterista, “o Rui já teve coisas que puxavam esta parte mais dançável, mais de concerto, mais mexido. Aliás, quando conheci o Rui em If Lucy Fell, o que faziam eram esse tipo de coisas”.

A verdade é que Carvalho admite isso mesmo, que andava “com vontade de voltar a fazer um som mais mexido”. Pelo menos até entrar num convento particularmente bonito em Amares, em Novembro do ano passado, voltar a pegar na guitarra acústica e entrar no transe de dedilhado que dá origem a essa faixa estupenda que se chama A terra não come o pó.

É difícil admitir que lhe tenha surgido tudo de uma penada e, na realidade, não foi assim. “Não posso dizer que não tivesse nada para o disco ao solo”, explica. “Vou fazendo uns improvisos, gravando umas coisas nos concertos. E quando fui gravar tinha uma melodias, uns bocadinhos aqui e ali e limitei-me a pegar nisso e deixar seguir”.

Ele tem plena consciência de que o seu discurso “parece romântico”. Sabe disso, mas acrescenta que é verdade, que quando se pensa demasiado não se consegue o melhor resultado. “Pode soar estranho”, diz, “mas quando tens um microfone à frente há partes de ti que surgem do nada”.

Agora temos duas partes de Filho da Mãe – dois filhotes da Mãe – que surgiram do nada. Um é inquieto, urbano e ruidoso, o outro é belo, telúrico e melancólico. E gostamos de ambos.