O amor segundo Charlie Hilton

Tinha os Blouse, banda pop indistinta no cenário global. Nos últimos três anos, ocupou-se de si mesma. Felizmente. Palana, estreia a solo de Charlie Hilton, tem a qualidade esfíngica de Nico, sem a tragédia. São canções de amor, senhores. Só isso. Que, aqui, é muito.

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“Temos esta ilusão de que somos sempre os mesmos, que temos uma unidade e uma consistência mas, na verdade, somos muito mais desarrumados. Isso faz com que estar vivo seja muito confuso mas, ao mesmo tempo, muito interessante”. Chegámos aqui, à reflexão de Charlie Hilton, ela da voz gélida como a de Nico, mas sem a perturbadora insularidade da actriz e cantora alemã, através de Herman Hesse, o escritor que Hilton vem citando em conversa sobre Palana, o seu discretamente surpreendente álbum a solo.

“Em O Lobo das Estepes Herman Hesse vive uma luta interior entre dois lados de si próprio, o das aspirações de alta-cultura e o lado animal, instintivo”, continua Charlie Hilton, vocalista dos Blouse que pôs a banda em pousio para, ao longo de três anos, gravar um álbum que deveria ser de folk confessional e que se transformou numa coisa completamente diferente. “Acho que é bom que coexistam em nós vários eus diferentes, mas, por alguma razão, deixa-nos desconfortáveis. Eu gosto dessa luta. O conflito torna-nos mais interessantes”, diz num discurso, entrecortado por curtos risos nervosos, que não parecem condizer com a qualidade esfíngica de Charlie Hilton, a cantora. Mas até faz sentido. Ser unidimensional é aborrecido. Palana diz-nos exactamente isso. A começar pelo título.

Charlie não nasceu Charlie. Palana foi o seu nome de baptismo, escolhido pelos pais que, na Califórnia dos anos 1970, frequentavam um culto vagamente krishna típico da época – o pai tinha até uma banda de funk espiritual, chamemos-lhe assim, os Jive, editados pela Dark Horse de George Harrison. Quando atingiu a maioridade, abandonou o nome de nascença, palavra em sânscrito que se traduz por “protecção”. Charlie Hilton, então. Com os Blouse, duo formado com Patrick Adams, um colego no curso de design gráfico na Universidade de Portland, editou dois álbuns, Blouse, em 2011, e Imperium, em 2013. O primeiro, synth-pop nas proximidades dos Ladytron, por exemplo, o segundo mantendo o travo pop, facção indie, mas relegando para segundo plano os sintetizadores e electrónicas. Banda simpática, os Blouse, mas indistinta no cenário actual. Uma entre muitas. “Palana” é de outra estirpe: um álbum de canções de amor, tão simples e tão complexo quanto isso. “We fall in love, but we keep falling down, don’t we?”, canta na despedida, 100 Million, belíssimo pedaço de folk-rock dividido com o amigo Mac DeMarco. “É tão doloroso e tão bonito ao mesmo tempo, não é? Não conseguimos agarrar-nos verdadeiramente a nada, mas continuamos”.

A constatação desta nossa tendência para repetir o mesmo “erro”, vezes e vezes sem conta, tristes criaturas felizes que somos, é o mote que dá a Palana a consistência que a sua diversidade de estéticas e de ambientes sonoros podiam fazer perigar. Mas, mais que isso, temos a voz de Charlie Hilton. Atravessa todas as canções entre o blasé e a fantasmagoria, no meio caminho entre a supracitada Nico e a Marianne Faithfull dos anos da inocência, e é essa voz, essa personalidade que nela se revela e o ambiente que evoca, que dá ao álbum a decisiva sensação de unidade. Com ela atravessamos sem sobressalto a delicadeza onírica do tema título, canção de embalar para coração adulto, a pop atmosférica de Pony, qual wall-of-sound sintética, a belíssima pop de câmara de Funny anyway (guitarra dedilhada, secção de cordas, sintetizador a cair nos sítios certos e doce melodia sussurrada) ou a festa em pista de dança que é Let’s go to a party, onde, em contraste com toda a efusividade em seu redor, Hilton canta sem exuberância e sem lascívia. “O meu objectivo é deixar que as letras façam o seu caminho e que as palavras falem por si próprias”, explica. “Não sinto que precise de ser muito emotiva. Uma canção pode ser pesada, pode tornar-se muito sério sem que seja necessário cair em exageros de interpretação. Gosto de pensar que consigo transportar o ouvinte para outro lugar, para um espaço etéreo. É isso que sinto quando trabalho em música”.

Charlie Hilton não vive à velocidade supersónica do seu tempo. “Gostava de poder passar dez anos a pensar num disco, mas não sei se a indústria musical o iria permitir – e também não penso que a minha vida seja longa o suficiente para isso”. Palana não foi preparado ao longo de uma década, mas Hilton teve todo o tempo para deixar a música maturar, para perceber o que pediam as canções, para baralhar, voltar atrás, deitar fora e reciclar. Começou um álbum com Mac DeMarco mas desse projecto sobreviveu apenas a canção de despedida de Palana. A ideia de que, ao contrário do que acontece Blouse, estava a trabalhar num espaço totalmente seu, conduziu-a a imaginar um disco “mais íntimo que anteriormente, mais acústico, mais despido”. Não seria assim. O trabalho no estúdio com Jacob Portrait, baixista dos Unknown Mortal Orchestra e colaborador habitual dos Blouse, criou novas camadas para esse álbum despojado que Charlie Hilton imaginara. “Sempre adorei estar em estúdio sem ter um plano completamente definido e ver o que daí resulta. Foi o aconteceu aqui. Começámos a experimentar sons e fizemos o que as canções pediam”.

Charlie Hilton deixou-se levar. Charlie Hilton descobriu que havia mais em si, e neste Palana, que canções intimistas em guitarra acústica. “Por um momento, depois de terminar o disco, fiquei a pensar como soaria para as outras pessoas. A diversidade é boa, mas mal doseada pode ser desconfortável. Só desejava que a voz conseguisse tecer tudo num só. Que se sentisse que as canções vêm todas do mesmo sítio”. Nada havia a temer. “We fall in love, but we keep falling down, don’t we?”. Tudo emana do mesmo lugar. Caímos. Tudo errado. Levantamo-nos. Tudo certo. Caímos.