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“Ó Paulo, não pode ser”

É conhecida por ser “desconcertamentemente directa” e pragmática. Assunção Cristas, 41 anos, assume que está na política por ser católica. Tem quatro filhos e nem a Paulo Portas atende o telefone quando está a deitar as crianças

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Assunção Cristas será eleita este domingo Enric Vives-Rubio

Ainda fresca como deputada do CDS-PP, Assunção Cristas foi incumbida de preparar um discurso sobre o centenário da República. Escreveu-o com antecedência, as palavras medidas, como gosta de fazer na preparação das suas intervenções públicas. Sucessivos desencontros levaram a que o líder do partido, Paulo Portas, só o conseguisse ler dez minutos antes da hora marcada para o discurso. O seu lado monárquico temperou o texto. A republicana convicta não gostou e disse-lhe: “Ó Paulo, não pode ser…, ‘renhónhó, renhónhó, renhónhó [sic]”. Contra-argumentou. Aceitou incorporar alguns comentários, outros não. A própria recorda este episódio como o único em que se irritou com alguém do partido. E logo com o líder, pouco habituado a ser desafiado nas suas opiniões.

A frontalidade é uma das características apontadas a Assunção Cristas, 41 anos, que se prepara para ser a próxima presidente do CDS, depois de 16 anos de reinado de Paulo Portas. Até na sucessão, quando o tema era tabu no partido, a futura líder foi desafiadora. Há perto de um ano disse, numa entrevista ao jornal online Observador, que estaria disponível para se candidatar à liderança “se fosse necessário”.

Os colegas de partido não gostaram. Acharam que era atrevimento. Agora renderam-se àquela que é a única candidata à liderança do CDS. “Ela é desconcertantemente directa”, atesta Diogo Feio, um dos centristas mais próximos de Assunção e que tem estado a trabalhar com ela nesta fase de preparação da candidata.

Mariana França Gouveia, amiga de Assunção há 20 anos, corrobora: “É uma pessoa muito frontal e transparente”. Conheceram-se na faculdade, na Clássica, no curso de Direito, mas foi o doutoramento na Universidade Nova que as aproximou. Durante três meses partilharam um quarto num apartamento em Hamburgo, com outros dois colegas, para fazer investigação no Instituto Max-Planck. A rotina era a típica de um estudante: horas a fio numa biblioteca, almoçar na cantina. Só restava aproveitar a vida cultural de Hamburgo e Assunção não a desperdiçou.

“Ela arrastava-nos para bailados e ópera. Puxava por nós para ouvirmos música clássica”, conta Tiago Duarte, um dos colegas que partilharam o apartamento e que hoje é constitucionalista e advogado na PLMJ. Mariana França Gouveia revela uma outra imagem de Assunção, bem longe da que pode ser ter sido construída pela ligação ao mundo rural. “Ela é cosmopolita e culta. E vai trazer a valorização da cultura que não é tradicional no CDS. Não será o partido da lavoura. Neste campo marcará bem a diferença”, afiança a professora da Universidade Nova, que pela mão da amiga irá entrar no CDS, depois de há duas décadas ter integrado listas para a associação de estudantes ligadas ao PS.

Ser católica na política
Nascida em Angola em Setembro de 1974, Maria da Assunção Oliveira Cristas Machado Graça veio para Lisboa ainda em bebé com os pais, depois do 25 de Abril. Teve formação católica, andou num colégio católico em Lisboa e assume que são esses os valores que transmite aos (quatro) filhos. Causou espanto, mesmo entre os crentes, quando há meses assumiu publicamente que a decisão de ir para a política foi inspirada em Jesus que “se meteu com gente pouco recomendável”.

Quando começou a ter notoriedade pública pediram-lhe para escrever um texto como é ser católica na política. “E eu não sabia como responder a isso. O que eu fiz foi um texto a dizer ‘eu não sei o que é ser católica na política mas sei que estou na política porque sou católica’. É como ser católica em todas as outras dimensões da minha vida, na universidade, como mãe, é viver todos os dias e momentos com determinada inspiração e fé. Como é que isso se reflecte, era o que eu gostaria de dizer, porque isso significa que seria uma boa católica”, diz.

O certo é que a fé acabou por influenciar a disponibilidade de Assunção Cristas ir para o CDS convidada pelo próprio líder em 2007, depois de a ver no programa da RTP1 Prós e Contras a defender o "não" à legalização do aborto. Assunção teve que meditar sobre se valia a pena deixar a cómoda vida de professora universitária e de advogada para mergulhar num mundo de gente que achava ser “um bocado estranha e que só diziam mal uns dos outros”. Até ali o único ponto de contacto com a política tinha sido o trabalho como adjunta da ministra da Justiça, Celeste Cardona (CDS), em 2002.

Entrou directamente para a Comissão Política Nacional do CDS em Janeiro de 2007. Dois anos depois, no congresso de 2009, Portas puxou-a para vice-presidente. Nas legislativas desse ano tornou-se cabeça de lista por Leiria, um distrito que não conhecia nem com o qual tinha qualquer ligação. A estreante viria a revelar-se uma veloz aprendiz. Ao terceiro dia de campanha eleitoral foi convidada para uma entrevista numa rádio local e aceitou, deixando preocupados os dirigentes locais. Antes de a candidata entrar na estação explicaram-lhe os problemas da região. Deixaram-na à porta das instalações da rádio e foram ouvir o programa para dentro do carro. “Passados cinco minutos de ela estar falar, olhámos uns para os outros e dissemos ‘temos deputada’. Ela respondia como se conhecesse o distrito há muito tempo”, recorda Manuel Isaac, líder da distrital do CDS de Leiria.

No Parlamento, entre 2009 e 2011, Assunção foi uma das apostas de Portas para dar a cara pela bancada. Coube-lhe o dossier das Finanças que ganhava protagonismo na fase final do Governo de José Sócrates. A 19 de Março de 2011, dias antes da demissão do primeiro-ministro socialista, a vice-presidente subia ao palco do congresso de Viseu para apresentar a sua própria moção.

A gravidez da ministra
Com a vitória do PSD e a formação de uma coligação de Governo com o CDS, em Junho de 2011, Portas convida-a para a pasta que tinha sido a estrela na campanha eleitoral do partido – a Agricultura. Era, aliás, um super-ministério que integrava também Ambiente, Ordenamento do Território e Mar. Áreas com as quais a governante de 36 anos não tinha qualquer ligação.

Naquela altura, Teresa Anjinho, uma das pessoas que Assunção trouxe do mundo académico para o CDS, recorda que a nomeação lhe suscitou interrogações: “Como é que ela vai fazer a pasta da Agricultura?” A ex-deputada e membro da Comissão Política Nacional elogia as capacidades da mulher que conheceu como professora na faculdade: “É trabalhadora, rodeia-se de quem sabe e vai ouvir. Eu ficava pasmada como é que ela, vinda da academia, conseguiu mudar o discurso.”

Não foi um cargo isento de contestação – bem pelo contrário. Logo a começar pela Lei das Rendas que foi polémica. Mas Assunção viria também a ser notícia por razões pessoais: engravidou. A inédita gravidez de uma ministra fez as delícias da imprensa cor-de-rosa, onde não é raro encontrar fotografias suas. A bebé nasceu em Julho de 2013, e é o quarto filho depois de Maria do Mar (13 anos), José Maria (11) e Vicente (sete). Maria da Luz nasceu em plena crise do irrevogável que resultaria numa remodelação governamental e a divisão do ministério em dois. A ministra fica só com as pastas da Agricultura e do Mar, e não deixa de esconder o seu desagrado aos mais próximos.

Durante os dois meses de licença de maternidade delegou as competências nos secretários de Estado. Partilhou a licença com o marido, Tiago Machado Graça, com quem namora desde os tempos do final da escola secundária. “Ele tem uma admiração enorme por ela. Uma relação sólida tranquiliza muito”, diz Mariana França Gouveia.

A família é a sua âncora. Os pais e irmãs moram por perto, o que ajuda a conciliar vida pessoal com a profissional. “Há uma divisão de tarefas com o meu marido. Ora está ele primeiro ou estou eu, ora leva ele as crianças à escola, ora levo eu”, revela a deputada, reconhecendo que tem a “sorte” de ter uma empregada em casa que “ajuda a preparar as coisas”. Assunção não gosta de cozinhar, mas vai para o fogão se for preciso: “A família não fica sem comer. Mas o meu marido fica na parte da cozinha, eu fico com a parte das lavagens, não me importo de lavar loiça - até gosto muito.” Não prescinde do jantar com a família e depois de deitar as crianças. Durante essas duas horas nem Paulo Portas consegue que ela lhe atenda o telefone.

Nas últimas semanas de preparação da campanha interna as reuniões têm sido marcadas para depois das 22h, na própria casa de Assunção. Um exemplo de como conseguir gerir a vida pessoal com a profissional.

Os mais próximos apontam-lhe a organização como qualidade. A própria diz que não o é excessivamente. Só na medida do que precisa de ser. Uma das decisões que tomou quando era ministra foi a de levar apenas uma mala de cabine em viagens oficiais ao estrangeiro por receio de perder a bagagem. “Não me queria ver do outro lado do mundo a ter que comprar roupa, com pressa, por ter reuniões marcadas. Sou capaz de fazer uma mala para uma semana com roupa mais formal, menos formal. E funciona impecavelmente.”

Dentro e fora da vida política, os que a rodeiam asseguram que é muito segura de si. “É firme mas não confrontacional”, aponta um alto dirigente do CDS. Durante a campanha das legislativas de Outubro do ano passado, Paulo Portas, já com a sucessão no horizonte, fez um elogio a possíveis candidatos. A Assunção Cristas atribuiu a qualidade do “bom senso”.