Murros e pontapés nos comícios podem ser apenas um bónus para Donald Trump

Cenas de pancadaria em Chicago entre apoiantes e manifestantes somam-se à campanha da ala tradicional do Partido Republicano para travar a nomeação do magnata. Mas o candidato tem sabido usar tudo a seu favor.

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Jedidiah Brown subiu ao palco enquanto decorriam pequenos confrontos no pavilhão. Tasos Katopodis/AFP
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Manifestantes são retirados do auditório onde iria decorrer o comício REUTERS/Kamil Krzaczynski
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Apoiante de Trump protesta contra adiamento do comício Scott Olson/Getty Images/AFP
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Manifestantes satisfeitos com o cancelamento do comício Scott Olson/Getty Images/AFP
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Manifestante retirado à força do pavilhão Scott Olson/Getty Images/AFP
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Num pavilhão onde o apoio devia ser para Trump, muitos protestaram contra o candidato Scott Olson/Getty Images/AFP
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Apoiantes de Trump protestam contra os que entraram no comício e não o apoiam Scott Olson/Getty Images/AFP
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Manifestantes contra Trump associam-no a Hitler Scott Olson/Getty Images/AFP

O magnata do imobiliário Donald Trump não é propriamente conhecido por repetir chavões da política, mas há um em particular que nunca lhe sairá com um pingo de autenticidade mesmo com uma elevada dose de contorcionismo verbal: se Donald Trump chegar à Casa Branca, é garantido que nunca será o Presidente de todos os americanos.

Depois de meses em que propostas como a construção de um muro para travar a entrada de "traficantes de droga e violadores" mexicanos e o fecho das portas a todos os muçulmanos terem sido recebidas com entusiasmo pelos seus apoiantes e por um misto de gargalhadas e de sobrancelhas levantadas pelos seus opositores, o fenómeno Donald Trump passou a ser visto com profundo receio tanto no Partido Democrata como numa grande parte do Partido Republicano.

As manifestações à entrada e no interior de cada comício de Donald Trump crescem de dia para dia, e na noite de sexta-feira explodiram em cenas de pancadaria num pavilhão da Universidade do Illinois, em Chicago. De um lado, quase dez mil apoiantes do magnata e da sua promessa de "tornar a América grande outra vez"; do outro, centenas de manifestantes, na sua maioria negros e de ascendência latino-americana, com cartazes com frases como "Não somos violadores".

O saldo dos confrontos no pavilhão, e lá fora, faz lembrar mais um jogo de futebol entre equipas britânicas na década de 1980 do que o comício de um candidato a Presidente da maior potência mundial: cinco detidos, dois polícias feridos – um deles com cortes na cabeça provocados por uma garrafa – e duas outras pessoas com ferimentos ligeiros, que ainda assim foram transportadas para dois hospitais da região.

A poucos minutos de subir ao palco, e ainda antes de a confusão se ter generalizado, Donald Trump mandou dizer que o comício na Universidade do Illinois ia ser adiado. Já este sábado, foi noticiado que o líder na luta pela nomeação no Partido Republicano cancelara o comício marcado para domingo à tarde no Centro de Convenções Duke Energy, em Cincinnati, no estado do Ohio, e também por razões de segurança – um responsável pela campanha de Trump naquela cidade, Eric Deters, disse ao site Cincinnati.com (do grupo USA Today) que os elementos dos serviços secretos norte-americanos "não conseguiram fazer o seu trabalho a tempo".

"Trump quer vir cá, e a campanha continua à procura de um local para domingo ou para segunda-feira", disse Eric Deters.

Mas, pouco depois, o próprio candidato garantia que "o comício em Cincinnati mantém-se", e acusou os jornalistas de terem publicado "notícias falsas sobre o seu cancelamento". "Vai ser maravilhoso – amo-te, Ohio!", escreveu Trump na sua conta no Twitter.

"País está muito dividido"
Depois das cenas de pancadaria em Chicago, na noite de sexta-feira, Donald Trump passou por vários canais televisivos, para responder a perguntas sobre a forma como tem sido recebido em várias cidades um pouco por todo o país nas últimas semanas, e para apresentar a sua versão sobre o que aconteceu.

Igual a si mesmo, o candidato que tem sido acusado por várias figuras do próprio Partido Republicano de estar a dividir o país, disse que a violência em Chicago é a prova de que o país está dividido.

"Penso que o país está muito dividido, e está dividido há muito tempo. É muito triste, está dividido em vários grupos diferentes. Há muitas pessoas que estão transtornadas porque não viram um aumento do seu salário nos últimos 12 anos. Estão a tirar-nos os nossos postos de trabalho, estão a ser enviados para o México e para outros países. As nossas fábricas estão a fechar, temos muitos problemas e a nossa taxa de desemprego real não é de 5%, mas está provavelmente muito próxima dos 25%", disse Trump ao canal CNN.

Confrontado com as acusações de que é o seu discurso que tem provocado essa divisão, o magnata não cede e mantém-se fiel à sua estratégia de campanha – a culpa é do discurso politicamente correcto, que tem limitado a liberdade de expressão no país, e a vítima disso é ele e são os seus apoiantes, que não puderam expressar-se livremente no comício em Chicago.

Com este argumento, Donald Trump reforça ainda mais a sua imagem perante os apoiantes e continua a beneficiar dos rios de tinta e de horas e horas nas televisões nacionais, sendo provável que esta nova polémica lhe abra ainda mais a porta para a nomeação num Partido Republicano profundamente dividido.

Como o Partido Republicano abriu a porta ao elefante que tem na sala

Numa breve declaração publicada no Facebook, o candidato fez saber que decidiu cancelar a acção de campanha na Universidade do Illinois "depois de ter falado com as forças de segurança", e para garantir "a segurança de todas as dezenas de milhares de pessoas que se juntaram na arena e nas suas proximidades".

STATEMENT REGARDING TRUMP CAMPAIGN CHICAGO RALLY POSTPONEMENTMr. Trump just arrived in Chicago and after meeting with...

Posted by Donald J. Trump on Friday, March 11, 2016

Mas o chefe da polícia Kevin Booker, responsável pela segurança no pavilhão da universidade, deu uma versão diferente: "A Universidade do Illinois em Chicago trabalhou em conjunto com todas as agências para acautelar quaisquer problemas associados a um evento desta natureza, incluindo os Serviços Secretos, o Departamento da Polícia de Chicago e a Polícia Estadual do Illinois. O abrupto anúncio de que o evento iria ser cancelado criou desafios na gestão de uma saída em segurança, o que, ainda assim, aconteceu sem ferimentos nem detenções."

Numa prova da divisão no Partido Republicano – e também numa tentativa de recolher votos –, os outros candidatos condenaram as cenas de violência em Chicago e apontaram o dedo a Donald Trump, embora Marco Rubio tenha salientado que ninguém tem "o direito de pertubar os seus comícios". O senador da Florida e o governador do Ohio, John Kasich, criticaram a retórica do magnata, mas foi o senador do Texas, Ted Cruz, quem proferiu as palavras mais duras, ao dizer que Trump "encoraja a violência".

"Uma campanha tem de ser responsabilizada quando cria um ambiente em que o candidato incita os seus apoiantes a envolverem-se em violência física", disse Ted Cruz, que é o único candidato com algumas hipóteses de travar a nomeação de Donald Trump.

Apesar destas manifestações e do tremendo esforço que a ala mais tradicional do Partido Republicano está a fazer para travar a nomeação de Donald Trump – com milhões de dólares gastos em anúncios contra o candidato e com críticas violentas de figuras como o candidato do partido em 2012, Mitt Romney –, a verdade é que o magnata tem o caminho aberto para enfrentar o nome que o Partido Democrata escolher para concorrer à Casa Branca.

Esta terça-feira, as primárias no Partido Republicano abrem-se a estados em que o candidato mais votado fica com todos os delegados, como a Florida e o Ohio – se ganhar na Florida, como indicam as sondagens, Trump não só ficará com mais 99 delegados, como afastará da corrida o senador Marco Rubio, da Florida, que perderá quaisquer hipóteses de prosseguir se nem sequer conseguir vencer no seu estado.