Uma viagem musical em torno de Cristina da Suécia

O universo musical da enigmática rainha Cristina da Suécia, que foi próxima do Pe. António Vieira em Roma, serve de mote aos concertos do Ludovice Ensemble e do violinista Enrico Onofri no Centro Cultural de Belém.

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A rainha Cristina da Suécia exilou-se em Roma depois de se converter ao catolicismo
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O violinista Enrico Onofri
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Ludovice Ensemble

O Ludovice Ensemble e o notável violinista italiano Enrico Onofri apresentam sexta-feira e sábado, às 21h, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, um fascinante programa musical que nos irá transportar para o universo da enigmática Rainha Cristina da Suécia (1626-1689), incansável e brilhante promotora da literatura e das artes na segunda metade do século XVII. Filha e herdeira do Rei Gustavo Adolfo o Grande, que transformou a Suécia num poderoso império, Cristina viria a converter-se ao catolicismo, tendo abdicado do trono em 1654. Exilou-se em Roma, onde manteve uma faustosa corte e onde viria a ter contacto com o Padre António Vieira (1608-1697), que chegou a ser seu confessor e a pregar na sua Capela, para além de lhe dedicar sermões e de integrar o seu círculo literário. A música de compositores como Corelli, Pasquini, Alessandro Scarlatti, Stradella, Albrici, Lonati, Capellini e Lourenço Rebelo irá evocar através de pequenos blocos temáticos as principais etapas da vida de Cristina da Suécia, os seus contactos culturais e as manifestações artísticas que a envolveram.

“Há muito tempo que tenho um grande fascínio pela figura de Cristina da Suécia, uma mulher apaixonada e controversa, que soube garantir a imortalidade não através das suas polémicas decisões políticas mas através do seu amor pela arte e pelo conhecimento”, diz ao PÚBLICO Miguel Jalôto, cravista e director artístico do Ludovice Ensemble. “O público em geral recorda-a talvez pelo famoso filme [de Rouben Mamoulian] protagonizado por Greta Garbo, mas o facto de a sua conversão ao Catolicismo estar ligada à  intervenção de um jesuíta português, o Padre António de Macedo, secretário do embaixador de D. João IV na Suécia após a Restauração, é bem menos conhecido”, refere Miguel Jalôto. “O Pe. Macedo fez chegar a Roma uma carta da rainha pedindo o envio dos dois missionários que depois completaram a sua conversão em Estocolmo.”

Outro aspecto que relaciona Cristina da Suécia com Portugal é a sua relação com o Padre António Vieira, com quem conviveu em Roma entre 1669 e 1675. Na sequência do sucesso da edição em italiano dos seus sermões, Cristina convidou Vieira a pregar na sua Capela e a participar no seu círculo literário, que dará origem, após a sua morte e em sua memória, à influente Accademia dell'Arcadia.

Conforme Miguel Jalôto escreve nas notas de programa do concerto, Cristina distinguiu-se inicialmente como protectora e correspondente de artistas e filósofos como Grotius, Pascal e Descartes (a quem chamou para a sua corte) e como coleccionadora de pintura, escultura, medalhas e naturalia. Falava e escrevia em sueco, alemão, neerlandês, dinamarquês, francês e italiano, e tinha conhecimentos de latim, árabe e hebreu. A sua decisão de não contrair casamento foi muito controversa, levando a várias especulações sobre a sua identidade de género, orientação sexual e vida amorosa. Após abdicar do trono em 1654, empreendeu uma longa viagem pela Europa e acabou por se exilar em Roma, onde foi recebida como uma heroína da Contra-Reforma católica. Na Cidade Eterna continuou a patrocinar intensamente a literatura, a música e as artes, rivalizando com o esplendor cultural de outros famosos mecenas como as famílias Pamphili e Ottononi. Apesar da sua conversão ao catolicismo, mantinha grande independência de espírito, desafiando abertamente as autoridades eclesiásticas quando tinha opiniões contrárias.

“Construir um programa em torno de Cristina da Suécia, incluindo o seu cruzamento com o Pe. António Vieira e a herança da Arcádia Romana, era uma ideia que alimentava há bastante tempo, mas a oportunidade para este concerto veio do próprio CCB por sugestão do André Cunha Leal [assessor para a programação musical]”, refere Miguel Jalôto. “Surge na sequência de um projecto anterior em torno do Pe. António Vieira, ainda planeado na época de Vasco Graça Moura. Não se chegou a concretizar, mas recupera-se de alguma forma com este concerto onde temos o privilégio de colaborar com o violinista Enrico Onofri.”

O programa apresenta uma série de obras instrumentais que “não só procuram ilustrar musicalmente a vida de Cristina e a sua actividade mecenática em Roma, mas também o ambiente cultural em que se inseriu o Pe. António Vieira”. O director artístico do Ludovice Ensemble recorda que em Roma Cristina protegeu alguns dos mais importantes compositores italianos, para além de ser uma eminente promotora de oratórias, óperas, serenatas e grandes concertos instrumentais. “Giacomo Carissimi, Carl'Ambrogio Lonati e Alessandro Scarlatti foram seus Mestres de Capela; Lelio Colista e Marco Marazzoli foram seus músicos de câmara; Alessandro Stradella e Bernardo Pasquini escreveram várias obras para ela”, enumera Jalôto. “O mais famoso de todos, Arcangelo Corelli, recebeu grande apoio de Cristina no início da sua meteórica carreira em Roma e dedicou-lhe a sua  Opera Prima em 1681. Como responsável pela música nas suas academias literárias, Corelli chegou a dirigir uma orquestra de 150 músicos acompanhando cerca de cem cantores!”

Além das obras de Corelli, incluindo algumas das suas primeiras sonatas em trio em versões orquestrais, “uma prática que se pode depreender de várias descrições da época”, o programa dará a ouvir música do romano Vicenzo Albrici (que pertencia a uma família de músicos italianos contratados por Cristina para a sua corte de Estocolmo) e de vários compositores já mencionados, como Pasquini, Stradella, A. Scarlatti e Carl'Ambrogio Lonati. Deste último subsistem algumas obras em Lisboa e na Biblioteca da Universidade de Coimbra preserva-se uma sonata para violino, sem correspondência noutras fontes, que também fará parte do programa. No mesmo manuscrito conserva-se outra raríssima sonata para violino atribuída a Pietro Paolo Capellini, compositor activo em Roma no mesmo período, e na mesma biblioteca subsistem várias obras de Alessandro Scarlatti. “A presença destas obras contribui para destruir o mito de que o nosso país desconhecia absolutamente as inovações musicais transalpinas antes do reinado de D. João V.”

Destaca-se ainda a interpretação de uma das composições de João Lourenço Rebelo impressas em Roma em 1657 a expensas de D. João IV, como forma de ilustrar a música escutada na corte portuguesa pelo Pe. António Vieira. Nesta versão instrumental do excerto do Salmo 90 usado no Ofício de Completas, os quatro violinos substituem as quatro vozes agudas originais, evidenciando “a modernidade e a audácia da escrita de Rebelo”.