Opinião

O presidente de tooooodos os portugueses

O discurso de Marcelo foi um discurso de não-escolhas, quando fazer política é o contrário disso.

Quanto ao discurso de Marcelo, sejamos claros: não teve interesse nenhum. Foi redondinho como uma bola de bilhar e com duas caras como Janus. Prometeu justiça social e apoio à iniciativa privada. Um poder económico subordinado ao poder político mas não um Estado dirigista. Disse que iria “apoiar aqueles que a mão invisível apagou” sem descurar as “finanças sãs”. Elogiou o Estado social de direito e a reforma das instituições desajustadas e ineficientes. Distribuiu cartas à esquerda e à direita. Manteve-se fiel ao centro. Foi um discurso para todos os portugueses. E quando digo todos, é mesmo toooodos.

Em resumo, foi uma chatice. Paulo Portas elogiou a qualidade literária do discurso de Marcelo. Mentiu. Marcelo sempre foi infinitamente melhor a falar do que a escrever – é o típico professor de Direito. Nem sequer faltou a habitual citação foleira de Miguel Torga, que passou incessantemente nos rodapés das televisões: “Valemos muito mais do que pensamos ou dizemos.” A sério? Valemos? Mais do que pensamos e mais do que dizemos? Pelo amor da santa. Nada tenho contra discursos de miss Universo, mas tenho alguma coisa contra os discursos que insistem em sublinhar a singularidade portuguesa e a sua “vocação ecuménica”, como lhe chamou Marcelo. É mais uma derivação do Quinto Império e desta mania do povo eleito, que apenas serve para promover uma vida com a cabeça em nuvens sebásticas. Se nos julgássemos menos singulares, mais iguais a toda a gente, e arregaçássemos as mangas para trabalhar com os outros, era tão, mas tão mais útil. Aguardo ansiosamente por um Presidente da República que troque as citações de António Lobo Antunes e Miguel Torga pelas de Adília Lopes e Luiz Pacheco. Este país tem fragas a mais e atrevimento a menos.

Mas esqueçamos tudo isso, porque o Marcelo que importa não é aquele que discursou no Parlamento sem dizer coisa alguma, mas aquele que decidiu vir a pé desde sua casa até à tomada de posse cumprimentando toda a gente pelo caminho. Não é por acaso que Tino de Rans pediu ao novo Presidente para não se esquecer das pessoas que estavam na sétima fila – a fila que o protocolo lhe reservou para assistir à tomada de posse. Tino, homem eleito pelo povo, não apreciou que estivessem tantos não-eleitos (seis filas deles) à sua frente, mas não culpou Marcelo por isso: “O candidato mais parecido comigo é Marcelo Rebelo de Sousa.”

Em verdade vos digo: foi o maior elogio que o novo presidente escutou durante todo o dia. Ali estava a representação do verdadeiro homem do povo a considerar como sendo dos seus, do povo-povo, um senhor-bem da elite lisboeta. Tino tem toda a razão. Nesse aspecto, Marcelo faz milagres, e nos dias de hoje ele é o único político português que consegue relacionar-se com as pessoas que estão na primeira fila, na sétima fila e na septuagésima fila. Esse é, sem dúvida alguma, o mais precioso capital simbólico que transporta consigo para o Palácio de Belém.

O seu discurso foi um discurso de não-escolhas, quando fazer política é o contrário disso – é escolher, e escolher dolorosamente. Mas se Marcelo tiver conseguido, ao fim de cinco anos de mandato, encurtar as distâncias entre o “nós” (o povo) e o “eles” (os políticos), e envolver a sociedade portuguesa na política, então a sua eleição já terá valido a pena. Consiga ele isso e eu perdoo-lhe tudo. E até pode voltar a citar Miguel Torga em 2021.

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