Dylan Martinez/Reuters
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A estupidez da “maldição de Ramsey“

A maldição de Ramsey postula que sempre que Ramsey marca um golo, uma figura pública morre. Como testar esta hipótese, esta teoria?

De cada vez que o jogador de futebol Aaron Ramsey, do clube londrino “Arsenal”, marca um golo, morrer alguém famoso. Eis uma maldição!

A esta brilhante conclusão chegaram muitos órgãos de comunicação social, por terem reparado na coincidência de que quando Ramsey marca um golo, morre alguém famoso, num curto espaço de tempo a seguir ao golo marcado.

Assim, a cada golo que o desgraçado do jogador marca, lá aparecem os abutres mediáticos à cata da figura pública que morreu, para continuarem a alimentar a maldição (será que ainda ninguém reparou que todos os dias morre alguém famoso?).

Mas a verdade é esta: quem inventou a maldição foi a comunicação social. Quem a alimenta é a comunicação social (e o bando de carneiros que acreditam na treta e ficam fascinados com a “notícia”). Na realidade, ela não existe.

É nestes momentos que se vê o quão iletrada é a população. Ou melhor, o quão pouco percebe de números, neste caso de estatística, probabilidades, correlações e causalidade.

Já sei que me vão dizer que isto é apenas uma espécie de anedota noticiosa, um entretenimento, uma brincadeira. Mas o fundo da questão é perigoso: as pessoas deixam-se fascinar muito facilmente pela ideia de coincidência, transformando-a em correlação e causalidade (é essa a base de todas as crendices e ciências do oculto).

Esse passo de gigante, da coincidência para a corelação e causalidade, só é possível graças à falta de rigor da análise.

Vejamos o caso em apreço: a maldição de Ramsey postula que sempre que Ramsey marca um golo, uma figura pública morre. Como testar esta hipótese, esta teoria?

Precisamos de dados, e de, no mínimo, definir o que é uma figura pública e qual o quadro temporal admissível para o nexo de causalidade entre o golo marcado e a ocorrência da morte. O que se considera uma figura pública? É alguém que alguma vez tenha aparecida na televisão? Contam os chineses famosos que cá, no Ocidente, ninguém conhece? Ou a maldição tem um raio geográfico de acção? Consegue matar para oeste (matando americanos famosos) mas não para o extremo este (poupando os tailandeses famosos)?

Quanto tempo, depois do golo marcado por Ramsey, é legítimo esperar para que a morte da figura pública ocorra? Serão 24, 48, 72 horas? Porque não uma semana ou um mês? Porque não 75 horas? Enfim, o que os meios de comunicação social fazem, neste caso, é recolher evidência empírica de péssima qualidade e extrapolar, sem mais, a mais difícil das questões da ciência empírica: o problema da causalidade.

Em todas as ciências, determinar em que media uma variável causa outra é muito complexo. Exige-se a recolha abundante e rigorosa de dados, a construção de modelos teóricos e a inferência estatística. Depois, ser modesto nas conclusões de causalidade. Este tipo de construção noticiosa dá um pontapé em toda essa lógica.

Sei bem que os meios de comunicação social não fazem ciência. Mas tinham a obrigação de não alimentar dislates. É que a impreparação do cidadão comum, relativamente a estes problemas é tal que, bem podem vender jornais e conseguir muitas visualizações no Facebook, que o que verdadeiramente estão a fazer é, apenas, alimentar a estupidez e a alimentarem-se dela.