Presidente da CIP prefere trabalho precário a desemprego

António Saraiva diz, em entrevista ao DE e à Antena 1, que se estivesse no lugar da ex-ministra das Finanças não aceitaria ir para a Arrow Global.

António Saraiva, presidente da CIP
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António Saraiva, presidente da CIP, quer recuperar debate sobre redução da TSU. Miguel Manso

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, reconhece que em Portugal há muito trabalho precário, mas não hesita em dizer que, na actual conjuntura, “mais vale ter trabalho precário do que desemprego”.

“Numa situação como aquela em que está a economia, prefiro ter um contrato a termo, com regras e respeito pelo ser humano, do que ter mais um desempregado”, disse numa entrevista ao Diário Económico (DE) e à Antena 1.

António Saraiva entra assim em rota de colisão com o Governo socialista que já se comprometeu a tomar medidas para limitar o trabalho precário e o uso de contratos a termo em Portugal. Na semana passada, durante uma conferência organizada pela Ahresp (Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), o presidente da CIP tinha defendido uma posição semelhante, quando propôs a flexibilização da contratação a termo e do trabalho temporário.

António Saraiva critica a forma com o Governo liderou o processo de aumento do salário mínimo e da reposição dos quatro feriados. E deixa claro que a definição do salário mínimo para 2017 tem de ter critérios de “racionalidade”.

“É bom que o valor que vier a ser negociado em sede de concertação para 2017, venha a ser definido com base na leitura conjugada dos três critérios [ganhos de produtividade, crescimento económico e inflação] e não por mera vontade política, uma vez que os salários são pagos pelos empresários e não por decisões políticas”, avisou.

O Governo decretou a subida do salário mínimo de 505 para 530 euros em Janeiro e em contrapartida, e para aliviar os encargos das empresas, reduziu a Taxa Social Única (TSU) de 23,75% para 23%.

Já sobre a redução generalizada da TSU paga pelos empregadores, uma medida que estava prevista no programa eleitoral do PS, mas que acabou por ser abandonada na sequência dos acordos assinados com o PCP, BE e PEV, o responsável garante que o tema continua actual, mas defende que a solução deve passar por uma redução selectiva, “mesmo que se continue a dizer que Bruxelas não permite”. “Estamos fartos de ver exemplos de outros países que têm arte e engenho para ultrapassar as impossibilidades de Bruxelas, por isso é mais uma questão de vontade do que de impossibilidade”.

A redução da TSU, sugere, deveria abranger as empresas produtoras de bens e serviços transaccionáveis que estão mais expostas à concorrência internacional. “continuaremos a lutar por esse objectivo, quer o Governo e outros parceiros sociais queiram ou não”, desafiou.

Sobre a polémica em torno do novo emprego da ex-ministra das Finanças (contratada pela britânica Arrow Global) António Saraiva deixou alguns reparos. Embora em termos legais admita que não haja problemas em Maria Luís Albuquerque aceitar trabalhar para uma empresa de gestão de créditos bancários, “em termos éticos se fosse eu não o faria, porque acho que é um mau sinal”.

O presidente da CIP e gestor defende que esta é a altura certa para a sociedade portuguesa debater os salários dos políticos que “ganham uns mal e outros muito mal”.