Morreu Raymond Tomlinson, o criador do e-mail

O engenheiro informático norte-americano desenvolveu as bases do actual sistema de correio electrónico em 1971. A sua revolução tem um símbolo: @.

Raymond Tomlinson numa conferência em Oviedo, em 2009
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Raymond Tomlinson numa conferência em Oviedo, em 2009 Felix Ordonez/REUTERS

Raymond Tomlinson era uma lenda da Internet. Em 1971, desviou-se uns milímetros do que deveria ser o seu trabalho e deu um passo de gigante em direcção à rede de comunicação global que se viria a criar duas décadas mais tarde – inventou o e-mail. Neste sábado, aos 74 anos, morreu do que se suspeita ter sido um ataque do miocárdio.

A notícia "muito triste" foi dada no Twitter por Vinton Cerf, evangelista-chefe do Google para a Internet e outro dos pioneiros da rede (criador do protocolo TCP/IP). Foram ambos indicados para o Internet Hall of Fame no mesmo ano, em 2012, e já tinham sido distinguidos com o prémio Príncipe das Astúrias para a Investigação Científica e Técnica (Cerf em 2002, Tomlinson em 2009).

Nascido na pequeníssima cidade de Amsterdam, no estado de Nova Iorque, Raymond Tomlinson começou por estudar engenharia electrónica perto de casa, no Instituto Politécnico Rensselaer, onde chegou a colaborar com a IBM. Licenciou-se e seguiu caminho para o MIT, onde tirou um mestrado na mesma área. Em 1967, entrou na Bolt, Beranek and Newman (BBN) para trabalhar no desenvolvimento de um sistema operativo para a ARPAnet.

Esta rede – que é a precursora da Internet – era um projecto financiado pelo Departamento de Defesa norte-americano com o objectivo de interligar computadores e servidores em diferentes locais, possivelmente para prevenir um ataque nuclear aos EUA. Era um contributo de monta o que se pedia a programadores como Tomlinson. Mas o momento crucial da sua carreira aconteceu quando decidiu trabalhar em segredo num projecto paralelo.

Tomlinson estava também ligado a um projecto de envio de mensagens e ficheiros na BBN. Tinha em mãos um programa designado SNDMSG, que permitia trocar informação entre utilizadores do mesmo computador. A sua função – que era apenas melhorar o programa – evoluiu à revelia das chefias para o que viria a resultar nas bases do sistema de e-mail que se continuou a usar até aos nossos dias (e não se suspeita que isso vá mudar em breve).

Corria o mês de Outubro de 1971 quando Raymond Tomlinson fez História, enviando um e-mail para si próprio – mas de um computador para outro. Para o conseguir, teve de separar o nome do destinatário do servidor de correio electrónico. Considerou vários símbolos para fazer essa separação, até perceber que a arroba (@) não era usada em qualquer nome. Ficou.

Tomlinson revelou a sua invenção a um colega, Jerry Burchfiel, que em 1998 recordou o momento em declarações à Forbes: “Quando ele me mostrou, disse: ‘Não digas a ninguém! Não é nisto que é suposto estarmos a trabalhar!’” Dois anos depois, em 1973, a troca de e-mails constituía 75% do tráfico da ARPAnet. Hoje, é uma prática banal, tanto para uso pessoal como profissional, e ocorre sem o deslumbre nem espírito transgressor.

Ray – o diminutivo por que era tratado – continuou a trabalhar na BBN. Em 1987, chegou a engenheiro principal. Os protocolos NVT e TCP/IP têm contributos seus. Num entrevista ao The Verge, em 2012, falou sobre a sua icónica invenção para dizer que a via a ser utilizada, “em geral, exactamente da maneira que imaginava”.