Cavaco Silva

Ultrapassado pela obra

Arrebatou multidões, é campeão de vitórias eleitorais e de maiorias absolutas, mas sai debaixo de forte erosão de imagem. Perante o seu nome ninguém fica indiferente: Cavaco Silva termina quarta-feira o seu segundo mandato como Presidente.

O que faz uma pessoa determinar a vida política de um país durante quase quatro décadas, ser o único político a ganhar cinco eleições, quatro das quais com mais de 50% dos votos, desempenhar cargos decisivos como o de ministro das Finanças (1980-1981), primeiro-ministro (1985-1995) e Presidente da República (2006-2016), ter o seu nome associado a um período de transformação profunda do modelo social e económico de um país e terminar os seus mandatos de Presidente com uma erosão real da sua popularidade e com um desgaste da imagem que dá a sensação de que poucos com ele se identificam? O que provocou o divórcio entre Cavaco Silva e o país?

Aníbal Cavaco Silva não considera que haja afastamento entre ele e a população. Relativizando a importância do que sobre ele se diz, o Presidente da República declara ao PÚBLICO: “Sá Carneiro dizia que aqueles que estão investidos em funções políticas devem sempre guiar-se pelo superior interesse do país. E que, a cada momento, devem fazer a distinção entre o que é a opinião pública e o que é a opinião publicada. Revejo-me nessa afirmação de Sá Carneiro. Se cheguei aqui, devo-o a ele.”

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Pedro Adão e Silva: "Cavaco não foi capaz de se reconstruir como o país que reconstruiu, os tempos mudaram e ele não foi capaz de acompanhar" joão abreu miranda

Por mais que o próprio Presidente desvalorize a erosão da sua imagem, a questão permanece. “Se fizermos um ranking de melhores resultados eleitorais, eles são de Cavaco, tem quatro maiorias absolutas, teve bons resultados mesmo na derrota das presidenciais, num percurso glorioso”, mas enquanto Presidente, “paradoxalmente, delapidou o seu capital; em parte pela sua acção, a gestão política foi dramática”, afirma ao PÚBLICO o sociólogo Pedro Adão e Silva. Indo mais longe, o sociólogo considera que, durante anos, as suas “vitórias eleitorais são o resultado do seu alinhamento perfeito com o que pensam os portugueses”. Portugal era “a combinação de conservadorismo nos costumes, modernização económica, defesa do Estado social e vínculo europeu”. Ora “a interacção destes quatro princípios corresponde ao que é Cavaco Silva, isso deu-lhe as maiorias”.

Só que, sublinha o mesmo sociólogo, “Cavaco foi vítima de si próprio”. Ou seja, “modernizou e desenvolveu, mas não acompanhou essa modernização e desenvolvimento”. A sua década como primeiro-ministro “trouxe um país mais liberal, menos conservador, que já não se vê representado por um Presidente que é ainda de outro tempo”. Concretizando, Adão e Silva diz que “a modernização, a transformação do modelo de crescimento da economia produtiva, a liberalização da especialização económica, a consolidação do Estado social, na Saúde e na Segurança social, a abertura da comunicação social, a revisão constitucional de 1989, toda a estratégia modernizadora é dele”. E conclui: “Mas ele não acompanha, não foi capaz de se reconstruir como o país que reconstruiu, os tempos mudaram e ele não foi capaz de acompanhar. Nas décadas de 80 e 90 do século XX, Cavaco era espelho da maioria dos portugueses; no século XXI, não é. Isto é mais estrutural, ele próprio foi vítima do desenvolvimento. É alguém que não percebe o tempo, não está preparado.”

Perda de auctoritas

O aparente divórcio entre Cavaco Silva e o país e a baixa popularidade com que o Presidente termina o segundo mandato é explicado pelo catedrático de Ciência Política Nuno Severiano Teixeira com “a própria concepção e o exercício da função presidencial” por parte de Cavaco. “Os três anteriores presidentes, cada um à sua maneira, tiveram a preocupação de preencher, de construir a função presidencial”, já que “a Constituição traça competências, mas dá liberdade ao Presidente para exercer o cargo com a sua marca”.

Ora, “sobretudo a partir do final do primeiro mandato, Cavaco fez o contrário, esvaziou a função presidencial, é isso que está na origem da autolimitação que se impôs na relação que tem com o país”, diz Severiano Teixeira, para quem “a função do Presidente no regime semipresidencialista tem algumas analogias com a função do rei na monarquia constitucional, os reis reinam, não governam”, logo “o que lhe dá o prestígio e a autoridade é não se imiscuir na governação, é estar acima disso, é isso que lhe dá a auctoritas”.

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Nuno Severiano Teixeira: "Com a cooperação institucional, ele viu-se no meio do jogo político. Era um actor igual aos outros, tinha perdido o que o diferenciava enquanto Presidente, a autoritas" daniel rocha

Fazendo o paralelo, Severiano Teixeira sustenta que “o que era o poder moderador do rei tem similitudes com a magistratura de influência, que é a forma republicana do poder moderador”, e o Presidente ganha “respeito pelo lugar que tem acima de todos e que lhe permite ser árbitro”. Mas o próprio Cavaco “foi esvaziando essa função de magistratura de influência”, até porque a substituiu pelo conceito de “cooperação institucional”. Severiano Teixeira considera que o início dos seus mandatos “é de cooperação institucional com o Governo de Sócrates, acaba o primeiro mandato a fazer cooperação estratégica com a oposição e volta a fazer cooperação estratégica com o Governo de Passos”. Assim, remata Severiano Teixeira, “com a cooperação institucional, ele viu-se no meio do jogo político. Ele era um actor igual aos outros, tinha perdido o que o diferenciava enquanto Presidente, a auctoritas”. Ou seja, passou a ser terreno, “mesmo que quisesse, não podia ser árbitro porque ninguém lhe reconhece essa auctoritas”.

O momento dessa transformação é identificado pelo ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva e seu amigo pessoal, Eduardo Catroga, com dois casos concretos: o das “escutas”, em Agosto e Setembro de 2009, e o das pensões, a 20 de Janeiro de 2012. “São falhas de comunicação que condicionaram a evolução da imagem do Presidente. Perdeu-se o respeito à instituição por parte dos analistas e observadores, que eram muitos deles adversários” de Cavaco.

Polémica causou também o facto de o Presidente ter abdicado do salário inerente ao cargo e ter optado por receber as pensões que já auferia do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações. Em vez de se assumir como ocupante do primeiro órgão de soberania, optou por ser um reformado que desempenhava graciosamente o cargo para que foi eleito, abalando o simbolismo da instituição, do órgão de soberania Presidente da República. Nuno Severiano Teixeira considera, porém, que a declaração sobre pensões quebrou mais a imagem de Cavaco do que o ter prescindido do salário. “O Presidente é um símbolo, as pessoas precisam identificar-se com símbolos e a declaração das pensões quebrou esse simbolismo, é o momento do divórcio simbólico com as pessoas”, considera. “O ordenado rejeitado não é tão chocante para as pessoas comuns, é para a classe política e para os intelectuais, mas a população em geral não percebe essa subtileza”, afirma.

Ainda assim, o director da campanha eleitoral de 2011, Luís Palha da Silva, defende que “não há impopularidade de Cavaco”, referindo que ele “tinha índices de aceitação elevados”. Considera que uma coisa são as sondagens, outra a confiança dos eleitores e garante: “Se ele se candidatasse a um terceiro mandato, ganhava com folga. É alguém em quem se vê a seriedade. Hoje as pessoas falam, tentando distanciar-se por razões tácticas ou tentam criar um caso de demonização de alguém que sabem que não criou problema nenhum. Hoje ouço pessoas de mau carácter dizer que depois de Cavaco Silva tudo será melhor, é desonestidade intelectual.”

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“Preconceito classista”

Eduardo Catroga introduz à discussão um outro nível de análise que, na sua opinião, é responsável pela forma adversa como Cavaco Silva foi sempre visto pelas elites. “Há uma certa elite política que se considera com direito natural a indicar o Presidente e a ser Governo e que tratou sempre com preconceito classista Cavaco Silva”, afirma o antigo ministro das Finanças. Decompondo esta análise, diz que “há um certo preconceito de uma certa elite intelectual e social de esquerda que o critica por não ter uma cultura humanista”. Por outro lado, “há uma certa direita que também não viu bem um homem que era filho de um comerciante chegar a Presidente, ascender socialmente até ao mais alto cargo da nação”.

No mesmo sentido, o historiador Rui Ramos salienta que Cavaco “não foi um Presidente que tivesse o apoio das elites, isso com ele foi acintoso”. Além disso, “tem resistência à esquerda. A esquerda não o aceita e não é um líder popular no PSD”. A politóloga Marina Costa Lobo acrescenta que “a direita mais conservadora não gosta dele”, porque “ele não é elitista”. Mas Cavaco “proporcionou o acesso de muitas pessoas a um conjunto de bens que não existia”, trouxe o desenvolvimento do país que possibilitou a criação em Portugal “da sociedade de massas que vai de encontro à sociedade hierarquizada”. Assim, para Marina Costa Lobo, “ele muda a direita e o que significa ser do PSD”, Cavaco “não é uma direita de perfil social de elite, é um técnico com um doutoramento feito fora, não é da direita cultural” e a sua “visão da sociedade não é uma visão conservadora de direita”.

Manuela Ferreira Leite, também amiga pessoal de Cavaco Silva, além de ter sido sua ministra da Educação, ministra das Finanças com Durão Barroso e também líder do PSD, aduz uma outra linha de argumentação para justificar esta atitude de Cavaco Silva perante o exercício do poder presidencial e a sua opção pela convergência estratégica. “Diz-se que qualquer posição que ele tomava era previsível, que ninguém se surpreendia, o que significa que ele fez de acordo com o que tinha prometido, de acordo com a leitura que faz da Constituição, dos poderes do Presidente”, a leitura de que “o poder de governar está no Governo e não no Presidente”, afirma.

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Manuel Ferreira Leite: "Como Presidente e ainda que não tendo interferido na governação, Cavaco conhecia profundamente todos os dossiers" nuno ferreira santos

“Cavaco Silva foi vítima de um Presidente interventivo [Mário Soares] quando foi primeiro-ministro. A função que mais o marcou foi ter sido primeiro-ministro. Deu-lhe visão sobre o que é o Presidente e o seu relacionamento com o Governo. É próprio de uma pessoa que passou por isso do lado de lá e sabe os constrangimentos que teve”, justifica Manuela Ferreira Leite. Catroga concorda: “Cavaco chegou à presidência marcado pela oposição que viveu no segundo mandato de Mário Soares, viu o Presidente transformado em líder da oposição, daí ele ter falado em que o Presidente deve ter cooperação estratégica.”

Marina Costa Lobo considera que “a forma como Cavaco interpreta o papel e os poderes do Presidente é de um primeiro-ministro que teve um Presidente que funcionava como contrapoder”. Daí que “ele ache que o centro do sistema é o Governo, até pela integração europeia, o Presidente não tem de ter poder”. Para a politóloga, “o que está fora de controlo é a crise brutal, ele é vítima da enorme vaga de insatisfação com a crise”. Como “a eleição do Presidente é uninominal e directa — o que está desfasado dos poderes do Presidente, que são poucos —, as pessoas pensam que estão a eleger um líder e não estão”. Em suma, resume Marina Costa Lobo: “Os portugueses estão zangados, em choque com os últimos anos e Cavaco é o bode expiatório.”

Ferreira Leite sublinha que, “como Presidente e ainda que não tendo interferido na governação, Cavaco conhecia profundamente todos os dossiers e tinha uma visão, além de institucional do conteúdo, das causas e das consequências” e “cumpriu sempre o formalismo todo, cumpriu a Constituição”. Exemplificando, diz que após as legislativas Cavaco “deu posse a Passos Coelho e depois a António Costa e mesmo quando vetou diplomas, porque dizia não concordar, era essa a forma como mostrava a sua posição”. Pelo que “não é possível apontar um momento em que esteve contra a Constituição”.

Sem insinuar sequer que Cavaco pôs em causa a Constituição na interpretação dos seus poderes enquanto Presidente, o especialista em política internacional e defesa Bernardo Pires de Lima sustenta que em relação à política externa “Cavaco ficou refém de uma colagem ao Governo e não cultivou uma diplomacia presidencial nem aprofundou a agenda externa”, pelo que “não deixa legado”. Ou seja, “Soares teve compromissos internacionais como a entrada na União Europeia, Sampaio teve o Kosovo, Timor e Iraque, Cavaco não tem nada”. Apenas geriu o reconhecimento do Kosovo, uma actuação diplomática que coordenou com o ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado.

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Bernardo Pires de Lima: "Cavaco ficou refém de uma colagem ao Governo e não cultivou uma diplomacia presidencial nem aprofundou a agenda externa" daniel rocha

Reconhecendo que “a política externa é do Governo”, Pires de Lima lembra que “há uma constituição não escrita, um modus vivendi que dá protagonismo externo ao Presidente”. Para isso, “ele tem staff diplomático e acompanha os assuntos mais relevantes”, até porque “as informações diplomáticas são partilhadas pelo Governo e pelos Serviços de Informações com o Presidente”.

A opção do Presidente foi a de cumprir o conceito de “convergência estratégica” e não se individualizar no exercício do mandato. Este conceito foi levado ao ponto de ficar nos bastidores durante as negociações com os Estados Unidos para a manutenção da Base Militar em Oeiras, uma matéria que tratou pessoalmente com Barack Obama durante a visita deste a Portugal. Esta visão coordenada da actuação do país no exterior ficou consolidada na Lei de Defesa Nacional em 2009. A partir de então, as intervenções de tropas portuguesas no estrangeiro só poderão ocorrer depois de haver acordo entre Presidente e primeiro-ministro, e com conhecimento da oposição.

O especialista critica a “promoção da diáspora sofisticada através do Conselho da Diáspora”, até porque desta forma Cavaco apenas “olhou para a diáspora que vingou, a que não vingou e é alvo de violência na Venezuela e na África do Sul nunca teve uma palavra de solidariedade do Governo ou do Presidente”.

Pires de Lima explica que “o texto constitucional abre o perfil do Presidente, ele pode fazer o cargo e cada um vai até onde a sua vocação internacional lhe permite”, mas afirma que Cavaco não explorou esta vertente. “O discurso de Florença foi o único bom discurso de política externa”, considera, sobre a única vez que Cavaco fez críticas e apontou caminhos à União Europeia, mas acrescenta que, “se foi uma primeira tentativa de orientação, falhou”. Considera também “um erro o Presidente falar de política europeia ou internacional fora de Portugal”, defendendo que “o Presidente pode ter capacidade de introduzir temas para tornar o debate fluido, não tem poderes, mas pode levantar os temas”.

Já o empresário Alexandre Relvas, que foi director da campanha em 2006, considera que Cavaco teve uma visão equilibrada da política externa, mesmo na crítica à União Europeia, e salienta a forma como exerceu o seu papel enquanto chefe supremo das Forças Armadas: “Como Presidente, manteve a mesma visão estratégica de quem no Governo fez a reforma das Forças Armadas, extinguiu o Serviço Militar Obrigatório e deu prestígio às Forças Armadas quando havia uma consciência antiguerra colonial.”

Para além disso, o empresário refere: “Há um mundo que não conhecemos de intervenção dos presidentes que são as conversas com os políticos, as reuniões com outros chefes de Estado, a intervenção da Casa Civil com o Governo para a elaboração da legislação, as garantias que se dão no exterior, o reforço do Governo. Penso que a esse nível Cavaco Silva teve fortíssima intervenção.”

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O factor crise

Mas há uma dimensão a que Alexandre Relvas dá uma importância primordial. O facto de ter sido Presidente no momento em que Portugal viveu a que é considerada como a mais importante crise económica desde 1891/2. “O período do último mandato é talvez o mais difícil dos presidentes, apanha o final de José Sócrates, a negociação do memorando de intervenção externa, a radicalização política”, lembra, sublinhando o quadro constitucional concreto em que o Presidente tem legitimidade para intervir: “Qualquer acordo político é determinado pelo Parlamento, por muito que tenha legitimidade da sua eleição unipessoal, o Presidente não pode impor nada.”

A opinião das pessoas em relação ao Presidente tem que ver, assim, com a “expectativa do que ele pode fazer”, sublinha o empresário, lembrando que, “entre essa expectativa e a possibilidade real de interferir, há um fosso”. É “isso que faz com que a esquerda o cole à longevidade de Passos Coelho, à insensibilidade social”, quando essa mesma “esquerda precisava de contraponto forte para se afirmar e encontrou-o nos actores políticos relevantes do outro lado, quer o Governo quer o Presidente”, refere, frisando que “toda a afirmação de António Costa é feita contra Cavaco Silva”.

Alexandre Relvas lembra, porém, que a prova da “isenção” do equilíbrio da actuação de Cavaco é dada pelo facto de que, “se demitiu Sócrates a 9 de Março” com o discurso da sua posse para o segundo mandato, “fez o discurso da espiral recessiva contra Passos” na mensagem de Ano Novo de 2013. Acrescenta ainda que “o Tribunal Constitucional lhe deu razão em grande parte dos diplomas que para aí enviou”.

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Eduardo Catroga: "Cavaco foi vítima de um primeiro-ministro que se intitulou ‘animal feroz’ e que não quis desenvolver a cooperação estratégica no PEC IV" daniel rocha

Um exemplo corroborado por Eduardo Cartoga: “Mandou 25 diplomas para o Tribunal Constitucional, teve razão em 20. Doze desses diplomas foram nos últimos quatro anos, razão pela qual é mal visto pela direita, por quem também já era atacado por não ter demitido Sócrates. E foi atacado pela esquerda por aceitar a austeridade. Mas é uma evidência a imparcialidade de Cavaco Silva, independentemente do tipo de Governo. A sua interpretação dos poderes constitucionais foi sempre coerente.”

Invertendo os termos, Catroga considera que a vítima foi Cavaco: “Teve um segundo mandato num contexto de pré-bancarrota, em que o país foi obrigado a assumir o acordo de intervenção. Antes foi vítima de um primeiro-ministro que se intitulou ‘animal feroz’ e que não quis desenvolver a cooperação estratégica no PEC IV. E, fruto da crise, passa a ter muitas manifestações, nisso teve muita importância a substituição de Carvalho da Silva por Arménio Carlos à frente da CGTP.”

Também Pedro Adão e Silva refere a radicalização política trazida pela crise. “Uma consequência da crise na Europa do Sul foi a erosão do centro. Isso tem consequências nos actos eleitorais”, salienta o sociólogo: “Cavaco Silva foi mais um que não foi capaz de perceber a erosão do centro e foi-se encostando à direita.” E conclui que Cavaco “não é um radical, nunca foi, mas ficou isolado, houve uma degradação dos protagonistas que o apoiam, foi-se fechando, até não ter ninguém, sem contraditório”.

Contrariando a ideia feita de que Cavaco Silva foi um mau Presidente da República, Manuela Ferreira Leite garante que “a má disposição contra ele daqui a uns anos será outra conversa”. E defende a necessidade de “dar tempo ao tempo” para que se possa falar com distância sobre a forma como foram exercidos os mandatos presidenciais. “Há uma visão histórica que necessita de distanciamento, é preciso tempo para podermos comparar com outros mandatos”, já que “é diferente falar ao fim de 15 dias ou ao fim de 15 anos”, sublinha a antiga ministra. “A História há-de vir a contar outra história” que “não é susceptível de ser contada na data em que Cavaco Silva sai de Belém”, afirma.

Da mesma opinião é Catroga: “Após a espuma deste curto prazo difícil, ver-se-á que Cavaco Silva exerceu os dois mandatos com sentido nacional e chamando a atenção para que o país precisa de desenvolver o modelo político dentro da NATO e da União Europeia.” Não hesita em prever que “a História virá a concluir que Cavaco Silva foi um grande Presidente”, teve uma “equidistância em relação às forças partidárias inexistente em Ramalho Eanes, que fez um partido quando saiu de Belém, em Mário Soares, que foi líder da oposição, ou em Jorge Sampaio, que deu posse sob reserva mental a Santana Lopes, para logo a seguir dissolver o Parlamento, que era maioritário”.

Luís Palha sustenta que Cavaco “tem um enorme sentido de interesse público, pode não se gostar do estilo, mas a História vai fazer-lhe essa justiça. Quando for procurado um exemplo de político honesto em prol da causa pública, em primeiro virá sempre Cavaco Silva”. E insiste: “Se perguntarmos quem, nos últimos 50 anos, contribuiu para o sucesso do país, reconhecerão que o papel do Presidente é inigualável.”

Já Pires de Lima contrapõe: “É um Presidente que não passará à História com legado que as pessoas considerem que marca. Esvaziou o cargo por erros de dialéctica política e por gestão de silêncios excessiva, colado à agenda do Governo. Não fez debates alternativos. Foi elemento de crispação política e social. Foi saco de boxe da vox populis. Acho até que foram dez anos a mais na carreira dele.”

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enric vives-rubio

“Define uma época”

É uma evidência a importância de Cavaco Silva ao longo dos 36 anos de actividade política, em que ocupou cargos de Estado. Marina Costa Lobo salienta que “Cavaco Silva é, a par de Mário Soares, a principal figura política dos 40 anos de democracia”. O historiador Rui Ramos sublinha mesmo que “ele é o único político, depois de 1976, cujo ‘ismo’ define uma época”. E explica: “O soarismo define uma corrente, mas o seu nome evoca um momento da nossa História, o modelo cavaquista, a construção europeia e a adesão ao euro [Tratado de Maastricht, 1992].” Rui Ramos frisa ainda: “A adesão à CEE começou com Soares, mas a Cavaco devemos a adesão ao euro.”

Marina Costa Lobo destaca um aspecto pouco falado do legado de Cavaco. A sua acção sobre o sistema político. “Soares foi fundamental na definição do sistema partidário nos primeiros dez anos da democracia, mas Cavaco foi mais importante porque definiu a nova lógica do sistema político e partidário dos 30 anos seguintes”, afirma a politóloga.

“Ao obter a primeira maioria absoluta, ele transforma o sentido do sistema político”, já que “acabou com o Bloco Central, com um sistema em que o PS era o pivot, bipolarizando”, explica. As maiorias absolutas de Cavaco “promovem a bipolarização, que cria alternância entre dois partidos e cria também bipartidarismo tendencial”. É então que “se reduz muitíssimo” o peso eleitoral do CDS, bem como do PCP, embora neste caso” tenha influído a queda do Muro de Berlim”, afirma Marina Costa Lobo. O PSD tornou-se hegemónico e “criou uma dinâmica em que o PS, apesar de diminuído, é valorizado porque é alternativa”, sintetiza.

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Marina Costa Lobo: “Soares foi fundamental na definição do sistema partidário nos primeiros dez anos da democracia, mas Cavaco definiu a nova lógica do sistema político e partidário dos 30 anos seguintes" daniel rocha

Por outro lado, as suas maiorias absolutas, além de mostrarem que o PSD também era um partido estruturante na democracia, trouxeram “o fortalecimento do Governo e tornaram o primeiro-ministro o centro do sistema, ajudando a esvaziar o papel do Presidente, quando já tinha havido a revisão de 1982”.

Até 1987, houve dez governos, “era a instabilidade”, refere Marina Costa Lobo, lembrando que “até então havia a noção de todo o Governo; com Cavaco, o primeiro-ministro é o chefe”. Com essa dimensão de chefia, “em termos de organização de Governo, ele dá mais poder ao primeiro-ministro e torna mais eficiente o trabalho dos ministérios”, acrescenta a politóloga, precisando que “o primeiro-ministro tem o gabinete mais forte, com mais pessoas, que controla o Governo”, Cavaco “reconstitui o Ministério da Presidência do Conselho de Ministros”.

Tudo isto é permitido, sublinha, pela “capacidade de trabalhar a quatro anos, estabilidade governativa que o PS conseguiu em parte reproduzir até às legislativas de 2005” e que faz de Cavaco “a referência, em Portugal, para o desempenho do primeiro-ministro, cargo que hoje é o mais importante”, tal como “Soares definiu o que é o bom Presidente”.

É certo que o protagonismo do primeiro-ministro relativiza o peso no sistema do Parlamento e dos partidos. No caso concreto, levou à governamentalização do PSD. Marina Costa Lobo explica que “a consequência negativa é que ele transformou o PSD num partido governamentalizado, os técnicos do Governo vão para a direcção do PSD, ele controlava o Governo e punha pessoas de confiança na direcção do partido”, uma governamentalização do partido, que o PS adoptará.

“Os filhos do cavaquismo”

A transformação que se operou no PSD acabou por contribuir “para o desgaste de Cavaco Silva”, lembra Alexandre Relvas, para quem “a longevidade no PSD e os interesses que se instalaram foram muito marcantes”. Marina Costa Lobo concretiza: “Há uma classe política que nasce à sombra de Cavaco: Dias Loureiro, Fernando Nogueira, Paulo Teixeira Pinto.” Lembra que, quando fez entrevistas para o seu doutoramento, precisamente sobre o cargo de primeiro-ministro e a transformação que Cavaco operou, os cavaquistas “estavam todos em bancos”. Conclui que é com Cavaco que se criou “uma classe política que hoje está muito em causa, que gira entre negócios e bancos, que dependem do Estado, são os filhos do cavaquismo”.

Uma situação que “se torna visível” quando Cavaco já está em Belém e da qual “o próprio podia estar desligado”, reconhece Marina Costa Lobo. Mas não hesita em sustentar que o cavaquismo “cria a classe política que tem ligações a negócios pouco claros e a bancos com problemas”. Lembra o caso do “BPN, que tem ligação a Cavaco”.

Mas não é só no sistema político que Cavaco Silva deixa marca. A politóloga salienta que “Cavaco é o primeiro intérprete da forma como Portugal responde aos desafios da União Europeia” e, nesse plano, “uma referência”. Salienta que “é o primeiro-ministro que concretiza o europeísmo, que não é um europeísmo crítico, que não tenta mudar as regras do jogo, é um bom aluno que não faz muitas perguntas, não é crítico, mas tenta seguir os grandes países.”

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Alexandre Relvas: "Cavaco tem uma visão de Portugal competitivo, que deve ter um modelo económico próximo da Europa ocidental e fiel aos compromissos do país no quadro da NATO e do euro” miguel manso

Já Alexandre Relvas defende que “é injusto falar de Cavaco como Presidente sem ter em conta o que fez antes”. Aponta o Alqueva como “um exemplo da visão e de projectos estruturais”, já que “é uma obra de Cavaco Silva que ainda hoje está a mudar o Alentejo”. Acrescenta que “algumas decisões dos governos de Cavaco são adquiridos nacionais, como a revisão da Constituição de 1989, a possibilidade das privatizações, a lei da radiodifusão, a grande reforma fiscal das últimas décadas”.

Alexandre Relvas salienta mesmo que houve uma “alteração profunda no país que se deveu às reformas estruturais que ele fez”. E refere que “a forma como encarou as contas públicas e o seu equilíbrio é um paradigma que ainda é de hoje”. No mesmo sentido vai a caracterização de Eduardo Catroga, para quem o “keynesiano” Cavaco “é um reformista no quadro da uma economia de mercado com responsabilidade social no sentido de promover a inclusão social”. É detentor de uma “visão de Portugal competitivo, que deve aproximar-se da Europa desenvolvida, que deve ter um modelo económico próximo da Europa ocidental e fiel aos compromissos do país no quadro da NATO e do euro”.

Cultura do compromisso

Relativizando o tremendismo das avaliações imediatas, Rui Ramos considera que “o sucesso de Cavaco como governante não foi tão grande como se dizia, nem o desempenho como Presidente tão mau como se diz”. O historiador considera que Cavaco é “um Presidente de regime”, uma vez que “não é só um legalista, é alguém que dá importância à defesa da democracia, está consciente das dificuldades com que o regime foi instalado, pensa que o enquadramento europeu não pode ser posto em causa” e “continua a considerar-se o guardião do que considera ser o consenso nacional”.

Rui Ramos insiste mesmo em que Cavaco Silva ao longo da sua carreira “defendeu o equilíbrio dentro do sistema político” e “teve a função de moderador e árbitro”. A defesa do regime é o seu objectivo, explica, lembrando que o que “distingue Cavaco de Margaret Thatcher ou de Ronald Reagan é que Cavaco não acha viável para Portugal um modelo de reforma por ruptura política”.

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Rui Ramos: "A defesa do regime é o seu objectivo. Cavaco não acha viável para Portugal um modelo de reforma por ruptura política” rui gaudêncio

O historiador defende que “o consenso foi a grande preocupação de Cavaco até ao fim”. E garante: “Se há insucesso, é esse.” Acrescenta que “o mais notório esforço é em 2013, a proposta de entendimento com eleições antecipadas”. Mas lembra que, “em 1989, fez a revisão da Constituição porque julgava que era absolutamente essencial evitar rupturas políticas e sociais. Ele é da geração que viveu rupturas em Portugal no 25 de Abril. É esse o mundo de Cavaco Silva, o do consenso, não o da oposição”. No mesmo sentido vai Alexandre Relvas. Cavaco “é o primeiro a falar na cultura de compromisso”, salienta.

Luís Palha da Silva considera que a sua “preocupação em conseguir compromissos é um exemplo enorme do interesse pela causa pública”, mas admite que isso “não lhe dá simpatia”. Considera que esse “é um legado que ele deixou, ele não falhou, alguém tinha de chamar a atenção para a necessidade de compromissos”.

Marina Costa Lobo destaca que o fim dos mandatos de Cavaco coincidem com o início de “um novo quadro, uma nova mudança”. Para a politóloga, “António Costa introduziu a bipolarização que já não é bipartidária”, agora o PCP e o BE são parceiros à esquerda como o CDS era já à direita. Além disso, há “um novo Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, que antes não ganhou eleição nenhuma, perdeu a Câmara de Lisboa, em 1989, para Jorge Sampaio”. E conclui: “As pessoas sabiam quem Cavaco era. Há qualquer coisa que acaba aqui.”