“Portas e Passos nunca andaram de mão dada”

Ao fim de quatro anos juntos, os dois ex-governantes correm agora em pistas próprias. O PÚBLICO ouviu especialistas

A coligação Portugal à Frente de Passos e Portas lidera nas projecções
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Ao contrário do CDS, o PSD é um partido com dinâmica de poder e sendo um partido de poder, a questão que se coloca é saber se o líder aguenta estar muito tempo sem poder PÚBLICO

Ao fim de quatro anos juntos no Governo, Paulo Portas e Pedro Passos Coelho seguem em direcções diferentes. O primeiro decidiu entregar a liderança do CDS-PP a Assunção Cristas e promete abandonar o Parlamento. Já Passos Coelho quer continuar ao leme do PSD e no sábado foi novamente eleito presidente do partido nas eleições directas. O ex-primeiro-ministro “não está” ansioso por ir a eleições, mas mostra-se preparado para voltar a ocupar a residência oficial de primeiro-ministro em São Bento. Só não sabe é quando.

Os dois ex-parceiros estratégicos de Governo, que têm colado à pele a austeridade das políticas da sua governação, seguem agora rumos diferentes. A solução encontrada por António Costa para formar Governo atirou os dois partidos para a oposição, mas as estratégias dos dois ex-governantes passam por palcos diferentes.

O ainda líder do CDS, um partido que se confunde com ele próprio, pode vir a protagonizar uma candidatura presidencial. Assunção Cristas aprova a saída de cena do antigo jornalista, embora considere que é muito novo. “Acho que é bom para ele e é bom para o CDS que o Paulo Portas saia do Parlamento. Por uma razão muito simples, as razões que invocou para sair da liderança do CDS foi querer encetar um novo ciclo de vida”, afirmou ontem ao Diário de Notícias, a futura líder, que no próximo domingo será eleita presidente do partido no Congresso do CDS, em Gondomar. Cristas espera que Portas possa voltar um dia à política activa, quem sabe como candidato à Presidência da República.

Eleito pela quarta vez líder do PSD, Passos muda a agulha e puxa agora pela bandeira da social-democracia para acalmar alguns sectores do partido ao mesmo tempo que tenta descolar da imagem ligada à austeridade. Ao contrário do CDS, o PSD é um partido com dinâmica de poder e sendo um partido de poder, a questão que se coloca é saber se o líder aguenta estar muito tempo sem poder.

O PÚBLICO foi ouvir um conjunto de especialistas na área da Ciência Politica para tentar perceber como avaliam as estratégias dos dois ex-parceiros de Governo.

O professor de Ciência Político da Universidade de Aveiro, Carlos Jalali, não se mostra surpreendido com o facto de Portas e Passos terem seguido caminhos diferentes, uma vez que os seus percursos políticos são também distintos. O professor diz que os dois ex-governantes “estão em fases diferentes das suas carreiras políticas e dos seus percursos “ e acredita que desta vez Portas “sai com o intuito de não regressar”.

“Ambos estão perante um jogo de espera”, declara, considerando que Portas estará a pensar “noutros voos” como a Presidência da República. Relativamente ao ex-primeiro-ministro, considera que a decisão de se recandidatar à liderança do PSD faz sentido, porque se não o fizesse “dava a ideia de que tinha sofrido uma derrota nas eleições legislativas” de 4 de Outubro. “Passos não perdeu as eleições, por isso ele está a ser coerente com a narrativa que o PSD adoptou depois das legislativas”, defende Jalali, notando que a estratégia de Portas “é ganhar uma certa liberdade fora do Parlamento para refazer a sua imagem política num registo mais senatorial”.

Autárquicas são o primeiro teste a Passos
A investigadora Felisbela Lopes, da Universidade do Minho, faz uma abordagem ligeiramente diferente. Refere que “Portas e Passos foram parceiros estratégicos de Governo, mas nunca andaram de mãos dadas, nem se juntaram em torno de um programa uno”. Relativamente ao ainda líder do CDS, declara que ele “sai para depois regressar” - enquanto isso “os seus fiéis seguidores ficam lá”. “Paulo Portas retirou-se para criar um palco paralelo que é o palco dos media que é fortíssimo e que lhe dá muita popularidade”, afirma, numa alusão a uma possível participação na TVI de Paulo Portas como comentador político.

A professora universitária considera que Portas percebeu que com o “Governo ainda em estado de graça e com Passos na primeira linha da oposição, o seu espaço político para fazer oposição seria muito marginal”. Quanto ao ex-primeiro-ministro, afirma que fez o que devia fazer, porque - nota - se abandonasse o partido perdia o seu lugar dentro do PSD. Todavia, avisa que o primeiro grande teste à sua liderança é em 2017 com as autárquicas, eleições que perdeu para o PS em 2013. A investigadora  deixa uma provocação: “Onde é que estão os ex-ministros do anterior Governo Aguiar-Branco, Maria Luís Albuquerque, Paulo Macedo?”

António Costa Pinto acredita que Passos Coelho pode voltar a ser eleito primeiro-ministro. “O desafio de Passos Coelho são os quatro anos” do Governo do PS, admite. Ao PÚBLICO, o comentador político refere que as intenções de voto dos portugueses de há uma semana davam aos dois partidos da direita cerca de 39%. Este resultada revela que nos quatro meses depois das eleições legislativas a direita manteve a mesma votação. No entanto, António Costa Pinto reconhece que “esta tendência pode alterar-se à medida que esta solução governativa se consolida no poder”. “O desafio de Passos Coelho é manter-se enquanto líder da oposição numa conjuntura de estabilidade interna, eventualmente, com resultados favoráveis nas autárquicas”, defende.

O professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Bacelar Gouveia, aplaude o “regresso” do PSD à social-democracia, em alternativa à “deriva neoliberal” que Passos seguiu enquanto primeiro-ministro. “Fico satisfeito por Passos Coelho ter escolhido para lema do Congresso do PSD [marcado para 1,2 e 3 de Abril] a Social-Democracia Sempre”, partilha o professor, revelando que o “problema de Passos Coelho foi ter-se afastado de uma forma trágica da linha programática da social-democracia”. Quanto a Portas e a Passos, acha “natural” que os dois políticos que governaram durante quatro anos o país corram agora em pistas próprias.