O tempo não passará pela Iphigénie de C. W. Gluck

Iphigénie en Tauride é a nova produção da temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos. Uma tragédia grega, uma ópera oitocentista, um renovado sinal de modernidade, dizem o encenador James Darrah e o director musical David Peter Bates. Estreia este sábado.

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MIGUEL MANSO
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David Peter Bates abre a partitura, aponta algumas passagens, canta um par de trechos. Explica como ele e o encenador James Darrah decidiram alterar as notações de sforzato que Christoph Willibald Gluck deixara por todo o lado. “Temos de moldar a partitura de forma a que faça sentido dramático para nós, hoje”, explica.

David já largou a partitura posta sobre a mesa do camarim e, de pé junto ao piano, toca excertos da música que nas duas horas anteriores ouvíramos no palco do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, durante o ensaio geral de Iphigénie en Tauride, a tragédia em quatro actos, com libreto de Nicolas-François Guillard, que o alemão C.W. Gluck estreou em Paris, em 1779. É a nova produção do São Carlos para sua temporada lírica de 2015-2016 – e um regresso: passou pelo São Carlos em 1955 e em 1961, com Monserrat Caballé como protagonista. A estreia é este sábado, dia 5, às 20h (repete a 7, 9 e 11, à mesma hora, e dia 13, às 16h). Do elenco fazem parte Alexandra Deshorties (Ifigénia), William Berger (Orestes), Colin Ainsworth (Pílades) ou John Moore (Thoas). O coro é do São Carlos; a orquestra, a Sinfónica Portuguesa.  

O inglês David Peter Bates, o jovem director artístico que vem chamando a atenção através do La Nuova Musica, ensemble celebrizado pela abordagem ao repertório renascentista e, principalmente, ao barroco, continua a tocar Gluck nos bastidores. “Gosto particularmente do facto de ter qualquer coisa de subversivo. O que se vê e o que se ouve nem sempre correspondem ao mesmo”, diz com entusiasmo. “É incrivelmente fascinante”, continua, menos atento ao jornalista que o ouve do que à música em viveu mergulhado nos últimos tempos.

Iphigénie en Tauride, inspirado na tragédia homónima de Eurípides escrita entre 414 a.C. e 412 a.C., conta a história de Ifigénia, filha de Agamémnon e Clitemnestra, irmã de Orestes e Electra. Para ganhar os favores dos deuses na batalha que os gregos iriam travar com os troianos, Agamémnon viu-se obrigado a sacrificar a própria filha. No último momento, porém, a deusa Diana trocará Ifigénia por um cervo. A acção da ópera de Gluck tem início muitos anos depois.

O suposto sacrifício de Ifigénia provocara uma macabra sequência de acontecimentos: Clitemnestra mata o marido, Agamémnon, para vingar a morte da filha. Orestes, irmão de Ifigénia, mata a mãe para vingar o pai. Quanto a Ifigénia, tudo desconhece. Transportada por Diana, com um grupo de servas gregas, para Táurida, tornar-se-á sacerdotisa do reino do cruel Thoas, sanguinário monarca dos cítios que exige o sacrifício de todos os forasteiros que acostarem na ilha, única forma, acredita, de aplacar os demónios que lhe atormentam a existência. Cabe a Ifigénia, punhal erguido, punhal enterrado na carne, levar a cabo os sacrifícios.

Chegam à ilha dois gregos, Orestes e Pílades – o irmão de Ifigénia e o seu mais fiel amigo. Thoas e os cítios querem-nos sacrificados. Ifigénia não reconhece Orestes. Este não reconhece a irmã.

Um thriller absolutamente moderno
Vinte e quatro séculos passaram desde que Eurípides apresentou Ifigénia em Táurida em Atenas. Três séculos voaram desde que Gluck mostrou a sua Iphigénie en Tauride em Paris. Olhamo-la agora. É um drama espoletado e insuflado de mitologia antiga, certamente. Mas isso é ver apressadamente. Na produção liderada por James Darrah e David Peter Bates, com figurinos de Chrisi Karvonides e um admirável trabalho de iluminação da dupla Emily MacDonald e Cameron Mock (acreditamos convictamente naquela luz solar que brilha de fora do templo, dentro do São Carlos), vemos um curioso agrupar de anacronismos: o templo onde toda a acção decorre, com as marcas de armazém industrial decadente; o guarda-roupa de aventureiro, à Indiana Jones, de Orestes, contrastando com o negro de grande inquisidor dos cítios ou com as vestes de cores desmaiadas, gregas clássicas ainda assim, do coro. Enquanto reparamos nisso, enquanto olhamos aquele astro em forma de circunferência irregular que assoma sobre a parede recortada do templo – “evoca os deuses, a lua, o sol, qualquer coisa maior do que todos os elementos em palco”, explica James Darrah –, enquanto seguimos esta narrativa marcada pelo “desejo de sangue e pelas relações familiares complexas”, damos por nós a identificar a tensão que nos invade em thriller de mistérios, revelações e final incerto.

“Os gregos eram muito bons na justaposição de elementos díspares”, destaca o encenador. “Fizeram comédias e fizeram tragédias, mas há leveza em determinados momentos da tragédia e há escuridão tremenda na comédia. Hoje em dia estamos habituados a essa mistura. É-nos absolutamente moderna."

Iphigénie en Tauride é considerado o ponto conclusivo do ímpeto reformista de Gluck no meio operático, iniciado em obras como Iphigénie en Aulide e Orpheo et Euridice. As novas ideias de Gluck provocaram à época acesa polémica entre os seus apoiantes e os que alinhavam com Niccolò Piccinni, representante da velha escola italiana. “Numa ópera de Handel [compositor barroco de origem alemã], terás cantores superestrelas a interpretarem peças de uma forma hiper-virtuosa. Gluck pega no virtuosismo e no sentido de espectáculo e derrama-os sobre todo o arco narrativo da ópera." Enquanto uma trompa no fosso de orquestra prossegue os seus exercícios de afinação e o elenco abandona o palco, o americano James Darrah, criador multi-disciplicinar que vem sendo elogiado pelo à vontade com que se move entre tempos e estéticas – trabalha Handel e Frank Zappa, Schoenberg e Beethoven, Bernstein, Bizet ou o cantor pop Klaus Nomi –, contextualiza aquela que vê como marca distintiva da Iphigénie de Gluck. “O virtuosismo revela-se na forma como tudo se combina. Sinto a ópera como muito moderna, tanto pela música, como pela forma como a história se esculpe nela."

Caminhando entre o piano e a partitura, um entusiasmado David Peter Bates defende que foi “o incrível sentido de simetria” que permitiu à ópera de Gluck perdurar no tempo, ao contrário de outras de neoclássicos apaixonados pela antiguidade grega. “A acção nunca se afasta da partitura. A música conduz-nos, impulsiona a acção. Qualquer boa peça dramática tem De ser íntegra para com a história, sem falhas por onde o sentido dramático se possa esvair." Iphigénie en Tauride tem essa integridade.

Nesta produção para o São Carlos que é uma estreia para ambos, James Darrah e David Peter Bates quiseram inscrever-se eles mesmo nesta antiquíssima tradição de modernidade. Não concebem que seja de outra forma. “Tem havido uma tradição de o intérprete não se envolver demasiado e deixar a música falar por si mesmo. Discordo de forma veemente, acho-o um absurdo. Tenho de dizer o que acho desta obra e o James tem de o dizer também”, argumenta David. “Felizmente, nisso estamos totalmente de acordo”, remata. “Temos de tomar novas decisões técnicas e musicais. Temos de sentir que estamos intimamente ligados à obra. Que a estamos a viver." Da Atenas clássica, para a Paris setecentista, para a Lisboa de 2016.