A soul de Marta Ren é suja, grande e gorda

A ex-vocalista dos Sloppy Joe estreia-se com um fenomenal álbum soul.

<i>Stop, Look, Listen</i> surge com mais de uma dezena de inspiradíssimas canções soul clássica e está muito para lá de ser um caso na música nacional – vai ser um caso na música ocidental
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Stop, Look, Listen surge com mais de uma dezena de inspiradíssimas canções soul clássica e está muito para lá de ser um caso na música nacional – vai ser um caso na música ocidental

Que música é esta, que vem com metais a disparar exclamações para o ar, uma batida infernal que impele o corpo à dança, que música é esta, às vezes suada e febril, outras feita de mel quente a derreter, de onde vem esta voz antiga e sabida que rosna e cicia e, quando é necessário, também grita? A resposta talvez esteja nas canções:

“I’m not your regular woman”, canta a moça da voz no tema apropriadamente chamado I’m not your regular woman, enquanto o entrelaçado das guitarras prepara o terreno para os espasmos dos saxofones. Pronto, isto já sabemos: ela não é uma mulher comum. E isto, se não estamos enganados, isto é soul da mais clássica.

Que coisa mais incomum: uma portuguesa que faz soul tão vintage que parece anterior aos antigos – e deixa americanos, ingleses, espanhóis, franceses e italianos doidos. Uma portuguesa que faz soul tão boa que pensamos tratar-se de uma quarentona vivida de Detroit, a prima de Sharon Jones, a sobrinha de Aretha.

Usando a habitual linguagem excessiva dos meios de comunicação, isto é, desde já, um dos casos do ano. Stop, Look, Listen, a estreia de Marta Ren & The Groovelvets, surge com mais de uma dezena de inspiradíssimas canções soul clássica e está muito para lá de ser um caso na música nacional – vai ser um caso na música ocidental.

É que Summer’s gone e 2 kinds of men, os singles, têm rodado com insistência em rádios como a Radio 1 da RAI, a Radio 3 espanhola, o Basic Soul Show de Simon Harris, ou no Craig Charles Funk and Soul Show, na BBC 6, entre outros exemplos. Para lá do éter o fascínio mantém-se e as críticas a Stop, Look, Listen vão enchendo de estrelas o papel – estrelas e comparações com a música da Daptone Records, um dos maiores elogios que se podem fazer no campeonato do revivalismo soul.

Se calhar já ouviram falar dela. O nome, Marta Ren, há-de dizer-vos qualquer coisinha. Vá, puxem pela memória: era a vocalista de uma banda do Porto, que deixou boa memória, os Sloppy Joe. Ali por 2003 tiveram um êxito, Six Little Monsters, cantiga de Flic Flac Circus. Uma voz quente, num disco muito ska, muito reggae.

Mas a paixão de Martinha, que nessa altura era uma garota, mas agora, em Stop, Look, Listen, está feita um mulherão com uma vozeirão, a paixão de Marta Ren pela soul vem de antanho – e percebe-se porque é que agora, quando ela abre a goela, acreditamos em cada uma daquelas palavras.

“Comecei a ouvir soul logo em criança”, diz, em conversa com o Ípsilon. “O meu pai foi músico amador – quer dizer, ele nunca viveu da música mas dava concertos. E na altura ele tinha vinis do Otis Redding e da Aretha, que eram dos meus preferidos”.

O que ela viu e ouviu em pequena ficou-lhe de tal maneira que aos 14 anos já era a vocalista dos Sloppy Joe. O que ela viu e ouviu era “algo mágico”: o pai “a ensaiar na cave lá de casa”, em Senhora da Hora (perto do Porto), “a montar os instrumentos, ensaiar as canções, repetir várias vezes”.

O senhor Ren (brincadeirinha, ele não se chama assim) “tocava guitarra e cantava” e “tinha bandas de covers de rock’n’roll”. A filha, quando chegou à adolescência cantava o ska e reggae como vocalista de uma banda de culto, na qual se destacou com naturalidade: uma presença incrível para uma garota, um à vontade danado e uma voz que sim senhora.

Em 1996 foi estudar para o Porto e nessa altura começou a ouvir nu-soul, Erikah Badu, D’Angelo, Jill Scott. “Depois fui à procura dos ídolos deles e vim dar aos clássicos da soul e do funk. Hoje em dia o nu-soul já não me diz tanto, mas as referências deles dizem-me muito.”

Olhando à distância ela nota que “já no fim dos Sloppy Joe havia soul, não tanto na parte instrumental, mas as melodias já puxavam para aí”. De modo que os próximos passos foram sempre na direcção dessa velha música que produz feromonas para matar as dores: vieram os Bombazines, vieram os Funkalicious (ela diz já não se lembrar qual a ordem)  que “também davam o seu cheirinho de soul”.

Eram duas máquinas de queimar gordura – em particular os Funkalicious. Qualquer ser humano que tenha tropeçado numa actuação ao vivo deles deu por si a perguntar: “Epá, quando é que vocês fazem um disco?”. Ao que Marta respondia “Mas qual disco?”. Por estranho que pareça, fazer discos nunca foi a coisa deles.

“Os Funkalicious eram uma banda de versões de soul e funk” que, pensando bem, se tornaram “a rampa que precisava para fazer originais deste género. Duraram uns três anos, no máximo – nunca me lembro de datas mas foi mais ou menos isto. Só que nunca nos assumimos como uma banda típica: tocávamos de vez em quando no Plano B, tivemos uma residência no Armazém do Chá e no Outside. Nunca nos levámos a sério, pelo menos no sentido de gravarmos um disco. Era uma diversão, uma desculpa para tocarmos canções que gostávamos e nos divertirmos”.

A diversão tem certas vantagens: pode aprender-se com mais prazer, por exemplo, sem se sentir que se está a cumprir uma tarefa aborrecida. E quando se toca pelo menos uma vez por mês clássicos soul durante três anos, chega um momento em que já se sabe como criar uma canção. Ou três – tantas quantas as que Marta compôs antes de arranjar uma banda.

“Antes de criar os Groovelvet compus três temas, entre eles o Summer’s gone e o 2 kinds of men [os dois primeiros singles], em versões à guitarra acústica. Num dos casos acho que já tinha os arranjos pensados”, recorda. Bastaram esses três temas à guitarra para ela sentir que “havia o suficiente para avançar para um disco a solo”. 

E que temas: Summer’s gone tem uma malha deliciosa de guitarra, coros e palminhas; a batida de 2 kinds of men lembra a de Just ain’t gonna work out, isto antes de uma luxuosa secção de metais conduzir a um arrepiante refrão em pura ascensão, com a voz de Marta a carburar como o motor de um BMW numa subida particularmente íngreme. Temaço, meus.

Entretanto, ela queria um certo som, com o qual sonhava desde miúda: “Um som cheio, clássico, soul. Sujo e grande e gordo”. E para isso eram precisos “muitos músicos. Não dá para fazer isto com 4 ou 5 pessoas”.

A sorte é que “Portugal é pequeno, o Porto ainda mais e os músicos conhecem-se todos”. De modo que o valente punhado de gente que compõe os Groovelvet já era conhecido entre si, de projectos que haviam tido no passado. “Éramos todos amigos há muito tempo.”

Tal como Marta, uma boa parte desta rapaziada passou tanto tempo a lidar com derivados do soul e do funnk que quando chegou o momento de se juntarem e formarem uma banda, estavam em ponto de rebuçado. São um exército implacável, prontos a dar chibatadas no lombo do ouvinte. Podem ser docinhos, mas quando aceleram aceleram mesmo.

Há coisa de três anos, quando as rodas começaram a ficar oleadas, Marta pegou em dois temas (os mesmos dois temas), fez um press-release, criou uma lista de 20 editoras e enviou mails para as ditas. “Tive três propostas e escolhi a que me dizia mais, a editora que gostava mais”.

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Ter uma boa editora por trás tem as suas vantagens: por exemplo, dentro da ainda razoavelmente escassa lista de eventos em que os Groovevelvet actuaram constam festivais como o Marés Vivas ou o Maré de Agosto (nos Açores), e casas como o Musicbox, ou a Casa da Música. Mas também houve “um concerto no 100 Club em Londres, que nos abriu as portas para outros mercados. E de repente os nossos singles estavam a passar nas rádios lá fora. É sinal de trabalho da editora– mas também é sinal de que as rádios gostaram”.

Trabalho é a palavra certa – e uma que Marta não hesita em usar. Isto não soa muito sexy mas o som sexy de Stop, Look, Listen vem de horas e horas de ensaios. “Desde a primeira hora que ensaiámos bastante, depois íamos tocar ao vivo e de seguida limávamos as coisas que não estavam tão bem. Porque havia a noção de que tínhamos em mãos canções muito, muito boas e não as podíamos desperdiçar”.

Anos a papar discos soul; anos a tocar. E de repente há as canções certas com as pessoas certas. Faltava um detalhe: o produtor certo com o som certo – porque o som do raio do álbum é uma maravilha.

“Nós só estivemos três dias no estúdio”, confessa a melhor amiga da igualmente soul-woman Selma Uamusse, “porque não havia dinheiro para mais. Houve uma sessão de ensaios intensivos e decidimos gravar as bases todas ao mesmo tempo: bateria, baixo e guitarra foram gravadas em simultâneo, uma coisa em registo mesmo old-school”.

Tudo por causa do som, aquele som bruto, em que se sente a baqueta a bater na tarola, em que os metais, quando atacam, nos dão cabo dos tímpanos. Faltava um detalhe – e esta é a parte que parece chata mas não é, a pequena química de laboratório que faz com que o rebuçado saiba a rebuçado: “Para ter aquele som. O New Max usou micros e compressores vintage. Depois os sons captados digitalmente passavam em tempo real para fita. Isto para todas as pistas de todos os instrumentos.”

Foi assim o parto de Stop, Look, Listen – um disco que podíamos jurar ter saído da linha de montagem da Stax, e aquela banda lembra Booker T & The MG’s, sempre a partir pedra, como It’s today e a pura festa de I’m coming home demonstram inequivocamente.

Agora – e com uma digressão europeia a ser marcada neste momento - o objectivo é ir para os EUA: “A partir do momento em que passamos em rádios americanas e temos boas críticas, é possível ir até lá”, diz Marta. Que, se for esperta, muda o nome para Martha e começa a dizer nas entrevistas que nasceu no Louisiana.