Crítica

Kendrick Lamar é capaz disto tudo

O rapper americano lançou um EP gratuito durante a noite. untitled unmastered demonstra que há muito talento ali.

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Paulo Pimenta

Veio do nada, durante a noite, sem aviso: enquanto dormíamos, Kendrick Lamar colocou gratuitamente na Internet untitled unmastered, o seu novo disco – ou meio disco: trata-se de um EP com oito faixas. untitled unmastered é composto por temas que Lamar apresentou ao vivo em alguns programas de televisão norte-americanos e, apesar de um certo som “inacabado”, está longe de ser uma amostra menor das capacidades do rapper.

Na realidade, até mostra que o seu talento tem uma amplitude larga – vai dos beats negros habituais a uma bossa-nova, tem abundância de metais e usa o velho som de um contrabaixo de forma primorosa nas oito faixas sem nome que o compõem. Destas, a quarta (pouco mais do que coros) será a menos apelativa, mas há muito em que pegar aqui.

A começar logo pela faixa de abertura, old-school, com o contrabaixo no centro do tema, um inteligente sample de piano lá no meio e rap agressivo por cima, a cair muito bem naquele beat seco, enquanto cordas cinemáticas povoam os céus; o pendor jazzy regressa no terceiro tema e no quinto, estupendo.

Neste, a dívida ao jazz é assumida integralmente, não apenas na bateria mas também no diálogo entre o piano e os metais luxuosos. À frente está uma voz feminina, antes de Lamar surgir a metralhar palavras, com a sua habitual assertividade. Se a música do americano seguir este caminho, então tem toda a nossa aprovação: haverá poucas faixas tão cool este ano.

Estas imersões na raiz não significam que o som minimal de Lamar não esteja presente – ouvimo-lo na segunda faixa (apesar dos sintetizadores e do saxofone) e na sétima, um tremendo tema composto de várias partes. De certa forma esse tema (cheio de música lá dentro) funciona como símbolo do talento de Lamar: pode dar para muita coisa e cada um escolhe o que prefere. (No nosso caso, a partezinha que começa aos dois minutos e 57 segundos.)

É preciso destacar a sexta faixa – a tal em que ele usa um beat bossa-nova e órgãozinhos vintage por entre uma série de contra-tempos, passe a expressão – mas é a última cantiga que nos deixa pensar o que será o futuro de Lamar: vai ao funk plástico, muito pista de dança, território de quem leu os manuais de Prince e os adaptou ao século XXI.

Há, portanto, de tudo: hip-hop seco e negro, que explora as raízes do hip-hop e que aposta num certo “psicadelismo” dançável. Não é um tour-de-force, mas uma carta de intenções. Como quem diz “Eu sou capaz disto tudo”.