Dilma e Lula tentaram interferir nas investigações da Lava Jato, acusa senador do PT

Uma das ocasiões em que Dilma procurou interceder nos destinos da Lava Jato foi num encontro no Porto com o presidente do Supremo Tribunal Federal, disse delator.

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Presidente Dilma Rousseff e o seu mentor e antecessor no cargo, Lula da Silva, acusados de interferência na investigação anti-corrupção REUTERS/Ueslei Marcelino
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Senador do PT Delcídio Amaral é um dos delatores da operação Lava Jato AFP/Evaristo Sá

Um senador do Partido dos Trabalhadores (PT) acusa a Presidente brasileira Dilma Rousseff e o ex-Presidente Lula da Silva de interferência na Lava Jato – a operação do Ministério Público e da Polícia Federal que expôs o esquema de corrupção na petrolífera estatal Petrobras – para atrapalhar as investigações e comprar o silêncio de testemunhas.

A revista semanal Isto É revelou na quinta-feira que Delcídio Amaral, o representante do Governo no Senado e no Congresso, detido em Novembro quando foi surpreendido a tentar planear a fuga para o exterior do ex-director da Petrobras, Nestor Cerveró, fez um acordo de delação premiada – isto é, aceitou colaborar com a investigação e denunciar terceiros, em troca da libertação ou redução de pena – e que o seu depoimento à equipa de investigadores da Lava Jato têm o potencial para alimentar o processo de destituição (impeachment) de Dilma no Congresso e fragilizam ainda mais a reputação política de Lula, presumível candidato presidencial em 2018, já acossado por várias suspeitas de corrupção com grande repercussão na imprensa e opinião pública brasileiras.

Segundo Delcídio do Amaral, foi Lula quem ordenou o pagamento de um suborno a Cerveró para evitar que o ex-director da Petrobras chegasse a um acordo de delação premiada. Foi por intermediar esse alegado pagamento que Delcídio acabou por ser preso.

O senador também afirma que Dilma tentou por três ocasiões interferir na Lava Jato, a primeira das quais em Portugal, num encontro no Porto, a 7 de Julho de 2015, entre a Presidente brasileira, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e o ministro da Justiça que deixou o cargo no início desta semana,  José Eduardo Cardozo. A reunião foi apresentada à imprensa como tendo na agenda a discussão do aumento de verbas para a Justiça quando, na verdade, conta Delcídio, a intenção seria persuadir o presidente do Supremo a interceder na Lava Jato para facilitar a libertação de alguns arguidos detidos na operação. Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, CEOs das construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez respectivamente, tinham sido presos 18 dias antes do encontro. Lewandowski terá recusado envolver-se.

Se até ao momento os investigadores da Lava Jato não conseguiram provar o envolvimento de Dilma (que fez parte do conselho de administração da Petrobras) nem de Lula no esquema de corrupção e desvio de fundos que vigorou na maior empresa estatal brasileira, as revelações de Delcídio são devastadoras, segundo a revista Isto é, por se tratar de uma figura da confiança dos dois – ele é representante do Governo de Dilma no Senado e no Congresso e era próximo de Lula – e por ter participado activamente das ilegalidades que alega terem acontecido. Delcídio do Amaral foi o primeiro senador na história da democracia brasileira a ser detido em exercício de funções. Ele foi libertado no último dia 19 em função do acordo de delação premiada, e autorizado a regressar ao Senado, embora tenha optado por apresentar uma baixa médica.

As suas revelações, que ocupam cerca de 400 páginas, ocuparam as manchetes da imprensa brasileira, à mesma hora que Dilma discursava na tomada de posse do seu novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, garantindo que “a corrupção está a ser investigada e sem pressões” da parte do seu Governo.