Câmara da Guarda manda abater 40 árvores para requalificar avenida

O projecto de rearborização que a Câmara da Guarda tem para Avenida Cidade de Salamanca está a gerar contestação porque implica o abate de 40 árvores que, antes, a autarquia tinha mandado tratar.

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Tem havido muitas críticas aos cortes de árvores na cidade Nelson Garrido

Para requalificar a Avenida Cidade de Salamanca, a câmara da Guarda pretende mandar abater quase 100 árvores, uma iniciativa que está a ser muito criticada. O projecto para a requalificação daquela avenida foi lançado em 2014 e foi alvo de dois estudos: um orientado pelo docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Luís Martins e outro pelo gabinete de arquitectura paisagista ACB, de Lisboa, sob a orientação do arquitecto Carlos Ribas. A implementação do projecto já teve início, tendo começado esta semana a segunda fase, que implica o abate das árvores. Os ambientalistas já reagiram e a Quercus defende que o corte não deveria ser total nem feito de uma só vez, em poucos dias.

A primeira fase deste projecto consistiu na realização de um estudo intensivo sobre cada árvore existente na avenida e esteve a cargo de Luís Martins. Contactado pelo PÚBLICO, este defende que este abate “é inútil, gratuito e injustificado, porque nem sequer há razões estéticas que o justifiquem”. No estudo que este investigador fez, entre finais de 2014 e inícios de 2015, detectou apenas uma planta que, pelo seu mau estado, precisava de ser abatida, o que foi feito ainda durante o período do estudo. As restantes foram convenientemente tratadas e podadas, de maneira a que se mantivessem saudáveis, tal como era sugerido pelo docente. Na altura, o executivo municipal fez cumprir todas as recomendações dadas pela equipa de especialistas.

Quando se concluiu esta fase, o município da Guarda encomendou, entre Setembro e Outubro do ano passado, um novo estudo ao gabinete ACB, especializado em arquitectura paisagista, que decidiu que a melhor solução possível para a rearborização deste vasto espaço seria o abate de 40 árvores. Segundo disse ao PÚBLICO o arquitecto paisagista Carlos Ribas, responsável por esta segunda fase, “a decisão de realizar abates inscreve-se num projecto de intervenção que visa um conjunto de objectivos concretos”.

Destes objectivos, o arquitecto realça a renovação do parque arbóreo da cidade, substituindo diversos indivíduos, a recuperação de níveis aceitáveis de radiação directa recebida tanto nos espaços públicos exteriores como em habitações e espaços comerciais, contrariar a prevalência de uma só espécie, plantando várias diferentes e aumentar o potencial deste corredor verde em termos da qualidade do ar através da plantação de árvores de folha caduca (que têm maior superfície foliar e maior capacidade de absorver partículas poluentes).

Segundo este segundo estudo, o ensombramento actual proporcionado pelas árvores existentes é excessivo, sobretudo durante o período de Inverno, pois os cedros mantêm a copa composta durante todo o ano. A rearborização, segundo defende Carlos Ribas, traz uma melhoria das condições de ‘urbanidade’ da avenida pois, segundo este: “o parque arbóreo existente data de um tempo em que a via era uma estrada rural. A transformação entretanto ocorrida (e que fez com que a estrada passasse a chamar-se avenida) não foi acompanhada pela necessária evolução da arborização existente pelo que, agora, encontramos situações que não se adequam a uma vivência confortável e qualificada do espaço público de uma cidade”.

Porém, apesar da argumentação, muitos consideram o abate das árvores existentes desnecessário pois estas encontram-se em boas condições fitossanitárias. Segundo o orientador do primeiro estudo , com as condições agora existentes, não mais se conseguirão desenvolver árvores como as que agora estão a ser abatidas pois a urbanização que ao longo dos anos se desenvolveu em torno desta antiga estrada nacional impossibilita o desenvolvimento profícuo das espécies.

Através de comunicado, a autarquia fez saber que o projecto foi devidamente comunicado aos munícipes através do envio de cartas explicativas e afirma que todas as decisões tomadas são suportadas pelos estudos feitos. Mais adianta que a cidade ficará a ganhar com esta rearborização pois existe o compromisso de plantação de 2000 árvores e a requalificação de 30 espaços verdes da cidade.

Na sequência do início do abate das árvores, a Quercus interpôs uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal de Castelo Branco contra o Município da Guarda, argumentando neste a “ausência de informação esclarecedora e indisponibilidade do Município para suspender a acção do corte de árvores de grande porte”, segundo anunciam em comunicado.

Além da Quercus, está lançada uma Petição Pública levada a cabo por um movimento cívico que conta já com quase 700 assinaturas contra o abate das árvores.

Segundo o comunicado enviado, a associação ambientalista diz que “aguarda serenamente” a decisão do tribunal, e diz compreender a necessidade de abate de algumas plantas mas, contudo, não compreende o corte feito de uma só vez, acusando o município egitaniense de estar a fazer uma gestão danosa do património público arbóreo, da antiga N16 criado pelo Estado através da Junta Autónoma das Estradas em meados dos anos 30 do século passado.

Texto editado por Ana Fernandes

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