O Óscar de “Ex Machina” tem o dedo de um português

Ricardo Ferreira trabalhou nos efeitos visuais de "Ex Machina", filme que venceu o Óscar nesta categoria. No futuro, gostava de desenvolver esta indústria "de milhões" em Portugal

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Martin Henrik

Ele é compositor digital; o programa Nuke o seu instrumento. “Frame” a “frame”, “layer” a “layer”, Ricardo Ferreira trabalha cores, transparência, iluminação, texturização, vectorização, sobrepondo efeitos 3D feitos em computador sobre imagens filmadas. Não está sozinho, integra uma orquestra. No caso de “Ex Machina”, que este ano arrecadou o Óscar de Melhores Efeitos Visuais, uma equipa de 50 pessoas das empresas inglesas Double Negative e Milk passou largos meses a, entre outras coisas, tornar Ava, a sedutora andróide com inteligência artificial, “real”, mesmo num universo de ficção científica.

“É um trabalho muito minucioso”, conta Ricardo à mesa de um café no Porto, onde regressou para o nascimento da filha de sete meses. Temporariamente: está — estão — de partida para o Canadá, onde o matosinhense de 35 anos vai trabalhar no novo “X-Men” da Marvel com a MPC. Mas voltemos atrás, ao filme de Alex Garland e ao admirável mundo dos efeitos visuais. De que se trata, afinal? “Um exemplo: quando queremos retocar uma fotografia, utilizamos o Photoshop para criar efeitos que pretendemos alterar na fotografia, dar alguma criatividade. Eu faço o mesmo, mas para filme.” O que significa que artistas 2D como ele têm de intervir em milhares de fotogramas (“frames”), respeitando o movimento das personagens e da acção. Tudo isto fica em perspectiva se dissermos que um segundo de “Ex Machina” terá 24 fotogramas — imagine-se, ou faça-se as contas, para quase duas horas de filme. “Às vezes somos capazes de passar um dia inteiro à volta de dez segundos de filme. Até de menos, quando a dificuldade do ‘shot’ é grande.”

De "John Carter" a "Ex Machina"

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Este filme marcou a entrada de Ricardo na Double Negative, reputadíssima empresa na área dos efeitos especiais. No currículo, já tinha títulos como “John Carter”, de Andrew Stanton, “Frankenweenie”, de Tim Burton, “Dredd”, de Pete Travis, e “Gravity”, de Alfonso Cuarón, mas a sua experiência como compositor digital não bastava para o filme. O que significa que o português teve de começar do “zero” em “Ex Machina”, o que, nesta sua área, significa trabalhar em rotoscopia, técnica utilizada quando não existe “chroma-key” e é necessário recortar a personagem e colocá-la num outro cenário. Depois, passou para a fase de “prep” ou “clean up”, que passa por limpar as imagens de tudo o que é cabos, equipas técnicas na filmagem, sombras, reflexos. E, por fim, acabou na composição, que, como dissemos, harmoniza tudo.

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Para “Ex Machina”, Alicia Vikander, a actriz que interpreta Ava, foi filmada por inteiro. Coube mais tarde à equipa de efeitos especiais intervir e fazer dela o andróide que conhecemos. Entre outras coisas, apagaram áreas do corpo, por exemplo as pernas, os braços, o torso e parte da cabeça, que foram substituídas por outros elementos; reconstruíram fundos que não foram filmados para respeitar a transparência de partes do físico; integraram as animações 3D no seu corpo; mantiveram o seu rosto humano. E há que compor tudo isto — equilibrar a iluminação, as texturas, as cores, aumentar e diminuir efeitos, de acordo com o que os supervisores pretendem, neste caso Andrew Whiteburst e Paul Norris, com quem Ricardo trabalhou mais directamente, e que vimos no domingo no palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, ao lado de Mark Ardington e Sara Bennet.

Indústria de "milhões": mais-valia para Portugal

O Óscar, admite Ricardo, foi uma “surpresa”. Não é todos os dias que um filme com 15 milhões de dólares de orçamento vence outro com 200 milhões (“Star Wars: O Despertar da Força” era o grande favorito). “A sensação é de alegria e reconhecimento”, diz o português, que antes de chegar a Toronto ainda deverá conseguir parar em Londres e tirar uma fotografia com a estatueta dourada, que tem um bocadinho de si. O mundo dá muitas voltas, e o dele é prova disso: antes de ir parar aos efeitos visuais formou-se em arquitectura no Porto. Já na altura, o 3D dava-lhe um brilhozinho nos olhos. Acabou por aprofundar a área com dois cursos na escola inglesa Escape Studios na área de composição digital (onde também estudou Duarte Victorino, português que trabalhou nos efeitos visuais do oscarizado "Gravidade"). Daí resultou um “showreel”, o seu primeiro cartão de visita (à esquerda), que chamou a atenção da equipa de “John Carter”, em 2012. Por isso, conselho a quem se quiser aventurar na área: “Ter um ‘showreel’’ original, criativo, que mostre todas as técnicas que consegue dominar.” 

Ricardo Ferreira está há seis anos fora de Portugal. Não esconde que gostava de regressar. Para já, pode passar alguns meses por cá, a dar aulas por exemplo (leccionou Modelação 3D na Universidade Católica, no Porto, e deverá voltar a fazê-lo nos próximos anos lectivos), e outros lá fora, até para se manter “actualizado”, algo essencial numa área tão “competitiva”. Depois de uma passagem pela Industrial Light & Magic, de George Lucas, parte em breve para o Canadá, onde o sector do cinema e dos efeitos especiais está a “ficar muito forte”, graças, sublinha, “aos apoios do governo”.

Um potencial arquitecto que acaba nos filmes. Porquê o cinema?

Ainda gostava de trabalhar em Nova Iorque, um sonho de criança. Mas, um dia, voltará. “O meu objectivo é trazer esta indústria para cá. Gostava de criar uma empresa de ‘visual effects’ e publicidade e pôr o nome de Portugal no mundo do cinema.” Profissionalizar o sector, apontar a Hollywood, criar empregos, dar soluções aos estudantes “com talento” que, como ele, se sentem “obrigados” a emigrar, ao ver o marasmo da área dos efeitos especiais em Portugal, para além do pouco que existe em publicidade. “Isto é uma indústria de milhões, seria uma mais-valia para Portugal”, realça Ricardo, para quem é importante e, quiçá, urgente que o país “dê o salto” para esta outra vertente do cinema e dos jogos. “Temos todas as condições necessárias, menos o apoio do Governo para facilitar a entrada no mundo do cinema.”

Este é um trabalho que desgasta, diz Ricardo, recordando-se da sua primeira experiência no filme John Carter