Entrevista

Assunção Cristas admite Governo com PSD e PS sem Costa

A candidata à liderança do CDS quer afirmar o partido com um discurso e estratégia próprios. Não hesita em defender a necessidade da continuação da reforma do Estado. Garante que é preciso “carreiras mais bem remuneradas no topo” para “captar e manter dirigentes” na administração pública.

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Cristas ao PÚBLICO: “Certamente não serei” o seguro de vida do PS de António Costa Enric Vives-Rubio

Aos 41 anos, Assunção Cristas prepara-se para ser eleita presidente do CDS no Congresso que decorre em Gondomar a 12 e 13 de Março. Tem pela frente a tarefa de afirmar-se como líder, depois de Paulo Portas ter determinado as últimas duas décadas da vida do partido. E também de afirmar o CDS como partido autonomia do PSD depois de quatro anos de Governo, no qual foi ministra da Agricultura

Disse que o CDS é o partido mais bem posicionado para cimentar o crescimento do centro-direita. Não é muito ambicioso querer colocar-se à frente do PSD?
Devermos ter a ambição de oferecer o melhor para o nosso país. Estou convicta de que o CDS pode ter as melhores ideias e os melhores protagonistas, sendo meu dever ter forte ambição.

Essa ambição passa por um crescimento isolado? O CDS tenciona ir sozinho às legislativas?
É importante para o centro-direita em Portugal que o CDS vá sozinho às legislativas. Creio que é importante para nós e também é importante para o PSD. Os dois partidos precisam de se sedimentar, precisam de crescer para que possamos ter um bloco forte, para ter um maior nível de deputados no Parlamento.

Não foi precipitado fazer esse anúncio agora quando não se sabe quando irá haver eleições?
Penso que temos de distinguir cenários. Há um cenário que é haver uma outra qualquer solução política dentro do actual quadro parlamentar que passa pelo PSD e pelo CDS que foram a votos em conjunto. Isso é uma hipótese. Outra hipótese é novas eleições. Quando me perguntam se o CDS deve ir sozinho, a resposta é bastante inequívoca. Não quer dizer que que numa hipotética hipótese no actual quadro parlamentar poder haver um governo PSD e CDS, como seria expectável no início e depois não aconteceu, pelas razões que todos conhecemos, aí obviamente que o CDS cumprirá aquilo que foi um trabalho conjunto com o PSD. Espero nessa matéria não estar a ser equívoca.

O CDS vai sozinho às eleições autárquicas?
Em relação às autárquicas é diferente. Aquilo que eu planeio deixar escrito na moção é que o objectivo do CDS deve ser reforçar a sua presença no território. Saber se vamos sozinhos, em conjunto, ou com quem é que vamos é uma matéria que deve nascer de um diálogo intenso com as estruturas do partido, porque as situações são muito diferentes. Temos situações em que governamos sozinhos – são poucas mas são cinco – temos situações em que governamos fazendo parte de uma coligação com o PSD, em que governamos em coligação com um independente, caso do Porto, por exemplo. Haverá certamente uma grande de diversidade de soluções.

O que pode ser a solução de Governo com o PSD no quadro parlamentar. Em que situação é que isso pode acontecer?
Ninguém pode afastar a hipótese de este governo, em dado momento, não correr bem e, se isso vier a acontecer, António Costa sair da liderança do PS. Não acho provável, acho até muito improvável porque quem chega ao poder desta maneira também facilmente não sairá. Em todo o caso, a acontecer, porque não o PSD e o CDS serem de novo chamados a formar um Governo que certamente teria de contar com algum apoio de um novo PS, mas com uma nova liderança. Acho que isso não se pode excluir à partida.

Quando a ouve falar agora não vê grandes expectativas de que este Governo cumpra a legislatura.
Não tenho nenhuma certeza sobre essa matéria e também não tenho nenhuma expectativa. Quando me perguntam digo sempre que temos de estar preparados para tudo. Pode durar seis meses ou quatro anos e eu não sei, nem sequer tenho um palpite firme. Falo com muita e a opinião mais consistente é que ninguém sabe e ninguém arrisca. Num quadro destes, o CDS tem de estar sempre preparado para qualquer cenário. E estar preparado é fazer o trabalho de casa, ter bons protagonistas e saber que podemos ter eleições ou fazer parte de um Governo.

Essas suas hipóteses não incluem possibilidades de consensos com o PS? O primeiro-ministro tem feito apelo aos partidos à direita.
Eu não reconheço ao primeiro-ministro sequer autoridade moral e política para apelar a consensos. Eu estive nas reuniões depois das eleições em que o primeiro-ministro tinha perdido as eleições redondamente com 32%, o mesmo valor com que tinha corrido com o seu antecessor que, na altura tinha ganho as eleições, as anteriores. Uma pessoa que quando está na situação de poder gerar consensos, reconhecendo o vencedor das eleições, não o faz, e depois, numa posição minoritária, ainda mais minoritária, tendo preferido e tendo optado por conversar com as esquerdas, se isso não correr bem, querer virar-se para a direita, eu acho que nós podemos falar de consensos, mas ele não pode.

Não será o seguro de vida do PS de António Costa.
Certamente não serei.

Disse que o CDS pode falar de consensos.
Nós procurámos apontar pontos de consenso. Não quiseram, não quiseram sequer discutir possibilidades de consensos, porque quiseram foi fazer um outro consenso à esquerda. Foi opção deles. Quando agora vêm apelar a consensos acho que é de uma extraordinária desfaçatez, com franqueza.

No debate na generalidade do OE, foi clara a vossa demarcação do PSD. É para manter?
Não tenho essa preocupação. A minha preocupação é de seguir o meu caminho e que o CDS siga o seu caminho. Olhar em frente ver em cada circunstância é melhor solução, de acordo com a nossa reflexão, o nosso entendimento é o que me preocupa. Se isso nuns casos é igual ao PSD e noutros casos é diferente do PSD, ver-se-á a seguir.

Vai ser candidata à Câmara de Lisboa?
Essa é uma questão que não está em cima da mesa. O que está em cima da mesa, no meu caso, é ser candidata a líder do CDS. Depois de estar na liderança do CDS obviamente que temos vários desafios eleitorais, não sabemos qual é o primeiro. Nas legislativas não temos nem dia nem hora, isso condiciona também todas as reflexões que se possam fazer em torno de candidaturas.

No caso das autárquicas serem as primeiras eleições faria sentido ser candidata a Lisboa?
Acho que é um cenário que deve ser discutido dentro do CDS. Se o CDS se quer afirmar também como um partido com maior expressão autárquica os nossos melhores devem estar disponíveis para isso. Obviamente que sendo líder do CDS, eu sou candidata a primeira-ministra. Isso para mim é claro. Não quer dizer que não se possa excluir à partida outras hipóteses.

Não lhe parece ser um pouco contraditório ser candidata a presidente do maior centro urbano de Portugal depois de ter sido ministra da Agricultura. Não é dar um salto do mundo rural para o urbanismo?
De forma nenhuma. Aliás, recordo que o primeiro desafio político que eu tive, a par da agricultura, foi a reabilitação e arrendamento urbano. Se bem se recorda eu no início tinha ambiente e ordenamento do território. E fui eu directamente que o fiz porque era, dentro da equipa do ministério, era a que mais facilmente podia pegar naquele tema em virtude da minha formação como jurista privatista. Portanto, as questões das cidades não me são nada alheias. Aliás, aquilo que eu defenderei na moção que o país precisa de uma visão renovada para o território que trata de mundo urbano, de mundo rural e de mar nas suas diferentes interacções. Antes de ser ministra da Agricultura estava aqui no Parlamento a tratar de Orçamento e finanças. Quando entrei para o CDS tratei da demografia e antes estava na faculdade como professora de direito privado. Com franqueza não tenho medo de novos desafios ou de rasgar os temas.

O CDS começou a baixar nas sondagens. O partido corre o risco de voltar a ser o partido do táxi?
Não, de forma alguma. Aquilo que vejo no terreno é uma extraordinária mobilização do terreno. Estive nos 18 distritos e nas duas regiões autónomas. O que vi foi gente do antigamente a aparecer e a dizer que há muito tempo não vinha ao CDS, vi gente da actualidade muito mobilizada, vi pessoas muito recentes na militância do partido, dois, três meses no partido e a vi muitas pessoas a chegarem para vir a estas sessões e a assinar fichas de militantes. Creio que neste momento estamos num momento de transição e as coisas ainda não aconteceram.

Qual a sua estratégia para recuperar individualmente o eleitorado do CDS?
O CDS tem de falar, é aquilo que procurarei fazer, para toda a gente. Dos mais jovens até aos mais idosos. Das questões da reforma do sistema de pensões, que é uma preocupação dos mais jovens e também dos mais idosos, e para os mais idosos que estão em situação de reforma e que eventualmente têm muitos anos pela frente e bem e o que nós propomos e onde envelhecimento activo será uma questão central. O CDS falará para toda a gente: para quem está a trabalhar, para quem está a estudar, para quem está reformado e quem está no final da vida. A minha preocupação é essa: é não estar preocupada com este ou aquele específico nicho de pessoas mas estar preocupada em ter um discurso em todos se revejam.

Podermos ver Assunção Cristas a fazer almoços com taxistas como Paulo Portas fez tantos?
Nunca me tinha ocorrido. Com franqueza, à partida não posso negar, mas nunca me tinha ocorrido.

Qual foi o papel de Paulo Portas na sua decisão de avançar?
Acho que foi um papel muito discreto. Portas tinha uma preocupação clara que foi a de garantir que o partido teria solução. E dos vários cenários que foi dando foi no sentido de estar tranquilo e confortável porque temos muitas pessoas boas e temos.

Era conhecido que tinha uma preferência por si.
Não sei se tinha uma preferência por mim. Isso não subscrevo. Tinha preocupação de que as pessoas se sentissem totalmente à vontade para avançar. Ele teve a preocupação de transmitir a mim e a outros também de que poderíamos estar tranquilos em avançar porque ele saía mesmo.

Portas deve mesmo deixar de interferir na vida do partido ou preferia que ele ficasse?
Eu espero que Paulo Portas nos possa ajudar com a sua inteligência e argúcia e nesse aspecto nós no CDS não temos um histórico muito feliz nessa matéria. Eu espero que ele não siga esse histórico.

Acha que ele pode ser ministro de António Costa?
Acho que não [sorrisos]. Mas acho bom que ele, de facto, possa estar, dar o seu conselho e ter alguma proximidade. Ele vai mesmo iniciar um novo capítulo e depois se calhar há outros, ele é muito novo e certamente tem muito para fazer na vida.

Não a assusta um pouco o facto de ir liderar um partido que foi liderado durante 16 anos por uma figura como Paulo Portas. Não acha que o CDS se vai sentir órfão?
Acho que não. E acho que lhe posso dizer com alguma segurança que isso não vai acontecer. Nesta volta que dei senti as pessoas muito gratas pelo trabalho que Paulo Portas fez, e é um trabalho que eu acarinho muito e que as pessoas têm essa gratidão, mas não senti ninguém que transmitisse ‘que mal que ele fez ou ainda tinha tanto para dar’. Eu acho que Paulo Portas teve a inteligência de perceber que este era o momento de sair, aplaudido por todos, com a gratidão de todos, com a vontade de que agora lhe transmiti de poder continuar a ajudar com alguma coisa e a ter alguma presença, mas as pessoas não sentem que ele devia ficar e que é mau uma mudança. As pessoas estão satisfeitas por haver uma mudança.

Como é que pretende marcar o seu cunho ideológico?
Eu diria que não é, mais uma vez, uma questão central para mim. O CDS tem uma matriz ideológica clara, está na declaração de princípios, que é a fundação na doutrina democrata cristã. Mas acho muito mais importante o CDS poder posicionar-se para ajudar a resolver questões concretas da vida das pessoas. E aí certamente que a nossa resposta é diferente da dos outros partidos, mal seria se fosse igual.

Esse pragmatismo na acção perante a sociedade tem pressupostos ideológicos, assenta na democracia-cristã. Portanto demarca-se de uma vertente mais liberal que existe dentro do CDS?
Eu diria que existe uma vertente mais liberal, mais conservadora, mais democrata-cristã, mas que convivem muito bem. E não há ninguém que tenha posições exclusivamente alinhadas num sentido ou noutro. Aliás como a generalidade das pessoas. Para resolver problemas concretos da vida das pessoas precisamos de ter, se calhar, essas inspirações para conseguir alterar uma boa solução. Evidentemente para mim é claro que uma primeira tarefa do Estado tem a ver com as situações de maior fragilidade social e com as situações de maior pobreza mas também é claro que essas situações se resolvem em definitivo com mais economia a funcionar e com mais empresas e mais investimento privado e não necessariamente com mais prestações sociais porque o passado mostra aí pragmaticamente que isso não aconteceu. Quando ao longo das últimas décadas fizemos mais transferências sociais para combater a pobreza e a exclusão, na verdade não progredimos de forma tão significativa tanto quanto esses recursos deveriam sugerir, a consequência não foi aquela que poderia ter sido.

Está a dizer que o papel assistencialista do Estado não pode ser aumentado.
Não. Estou a dizer que o papel assistencialista do Estado mostrou que não teve a eficácia que devia ter tido. O que significa que a resposta mais eficaz para o combate à pobreza é ter uma economia dinâmica a funcionar que gere emprego que crie de facto oportunidade onde as pessoas possam trabalhar, receber a sua remuneração e libertarem-se de situações de pobreza.

Qual o papel que deve ser reservado ao Estado?
Para além das funções mais tradicionais do Estado, para mim é claro que o Estado deve ter uma posição no combate à pobreza e no apoio aos mais desfavorecidos, que passa por uma política mais assistencialista quando não há outra rede possível, mas passa também por ajudar a que a economia funcione, cirando condições de mercado, condições de concorrência, diminuindo burocracia, apoiando as empresas nos investimentos na medida em que pode como por exemplo no recurso aos fundos comunitários e outros, apoiando as empresas a internacionalizarem-se, com isso criar uma dinâmica de crescimento económico que ela por si seja indutora de mais emprego e do rompimento de ciclos de pobreza. O Estado certamente terá de estar ai, como terá de estar nas prestações sociais, quando não há outra solução. Mas a solução para a pobreza não é e não pode ser só as prestações sociais. Para mim, o Estado tem que estar na educação como tem que estar na saúde como tem que estar na segurança social. Nestes contextos todos eu defendo uma lógica de Estado Social de parceria. Um Estado não faz tudo sozinho mas que faz agregando actores do terreno, da economia social.

O que falta fazer na reforma do Estado?
Ás vezes, falamos desses chavões – reforma do Estado – e depois temos dificuldade em saber o que cai aqui dentro. Quando o Governo anterior, muito criticado aliás pela esquerda e por sectores da sociedade, fez um conjunto de concessões ou reprivatizações está a fazer uma reforma do Estado está a tirar do Estado um conjunto de sectores. Quando o Governo anterior decide que os dirigentes da administração pública devem ser nomeados através de um concurso que é público e tem regras, isto é uma reforma. Eu acho que às vezes se anda a falar de outras realidades que estarão noutra galáxia. Eu também acho que é preciso reformar mais coisas no Estado.

O quê?
Por exemplo, precisamos de ter carreiras mais bem remuneradas no topo, porque não temos dirigentes, não conseguimos captar e manter dirigentes de topo de carreira na administração pública porque não lhes pagamos de forma minimamente competitiva com o sector privado. Mas isso depois cria um dano enorme ao sector privado porque não ter um Estado ágil que funcione bem, que consiga dialogar de igual para igual com o sector privado, depois cai em cima dele.

Há outro assunto de que ninguém quer falar dentro dos partidos que é a avaliação e o mérito dos próprios políticos. Os políticos em Portugal são mal pagos. Concorda com esta afirmação?
Concordo que os políticos que sejam bons profissionais não têm nenhum incentivo do ponto de vista remuneratório para estarem na política. Puderam optar por estar na política se sentirem outro apelo, outra vocação, se tiverem sentido de missão, se gostarem.

O pagamento aos deputados é digno do cargo que eles ocupam?
Essa questão pode ser debatida mas tem de ser colocada antes de mais pela sociedade civil. Quando compararmos os salários e entendermos que os deputados são representantes da nação, têm de pensar que deputados gostariam de ter, se querem ter pessoas que recebam estes valores e têm estes, que são os que se disponibilizam – os que gostam muito da política ou aqueles para os quais este valor é, apesar de tudo, um incentivo – ou se querem ter pessoas que são os melhores nas suas áreas e, então, certamente não é com estes valores.

Qual a sua posição em relação à eutanásia?
Sou contra a eutanásia.

É contra qualquer forma de morte assistida?
Penso que sobre esta matéria há muito para ser estudado, mais uma vez, e debatido por todos com profundidade, mas o que a mim me convoca mais é perceber se um país civilizado no seculo XXI que presta bons cuidados de saúde é o país que deve estar a discutir como ajuda as pessoas a viverem bem até ao fim dos seus dias, como é que ajuda a classe médica a mudar um bocadinho a sua forma de pensar para não ter sempre, às vezes a custo de tudo e de todos e com desproporcionalidade e sacrifícios prolongar vidas que não fazem sentido, mas isto não quer dizer encurtar essas vidas. Mas isto não é encurtar ou prolongar. É permitir que as pessoas vivam com toda a dignidade e sem dor que seja insuportável. Poupando aquilo a que se chama a obstinação terapêutica ou o encarniçamento terapêutico, que é a desproporção no tratamento. Mas isso não quer dizer antecipar a morte.

Votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas disse ser a favor. O que pensa da adopção gay?
Continuo a ter as mesmas hesitações, sabendo que no caso do casamento sou a favor e as coisas são bastante claras, são entre duas pessoas adultas e não há terceiro envolvido. No caso da adopção o que me preocupa mais é o interesse superior daquela criança e nessa matéria eu ainda não consegui decidir para onde nos leva esse superior interesse da criança, se para o sim, se para o não. Como não estava cá – estava nos Açores - e a questão está resolvida não tive de tomar essa decisão, mas e calhar faço parte da maioria dos portugueses que também não tem uma posição firme nessa matéria.