Opinião

A anatomia da "geringonça"

Depois do Orçamento, chegou a hora de rever o significado da palavra "geringonça".

Em vez da “coisa mal feita e que se escangalha facilmente”, na definição do dicionário da Porto Editora, o Governo apoiado pelo PCP, pelo BE e pelos Verdes parece-se cada vez uma “coisa mal feita capaz de resistir a qualquer vicissitude". O tempo mostrou que a “coisa” tem uma extraordinária capacidade de adaptação ao ecossistema político. A "geringonça" resistiu às negociações que levaram à formação e aprovação do Governo, resistiu ao rectificativo, aguentou a estapafúrdia negociação que entregou o Banif ao Santander, sobreviveu ao embate das intromissões de Bruxelas no Orçamento do Estado e, suprema prova de relevância, fez com que a bancada do PCP se levantasse pela primeira vez em 40 anos para aprovar um orçamento que não fala de nacionalizações e foi até objecto de elogio de uma agência de rating. Um milagre, portanto.

A "geringonça" consolidou-se ao vencer sem apelo nem agravo o debate na generalidade do Orçamento do Estado. Para funcionar e chegar até aqui, a "geringonça" teve de ser conduzida como uma bicicleta: se António Costa deixasse de pedalar em direcção aos anseios do Bloco e do PCP, a máquina ficaria estática e o Governo estatelava-se. Num dia houve que dar feriados, prometer reduções de horários ou reverter privatizações; depois houve que dar ao pedal para seduzir o Bloco pondo a EDP a pagar o alargamento dos beneficiários da tarifa social de energia; no outro dia houve que fazer a banca ou os fundos imobiliários pagar mais impostos para piscar o olho ao PCP; no terceiro há que renovar juras eternas à Constituição; no quarto logo se verá o que há no alforge para distribuir pelas hostes. Pelo caminho, o condutor da "geringonça" tem de se focar no papão da direita, Pedro Passos Coelho, que é afinal a sua principal fonte de energia.

Acreditar que a dinâmica da "geringonça" se resume a uma combinação de demagogia, irresponsabilidade e populismo, como uma boa parte da direita teima em insistir, é simplista e errado. A mensagem do Governo é hoje muito mais atractiva e sedutora do que a da oposição. Ainda estamos em tempos de fé em alternativas à troika, ao PSD e ao CDS e António Costa tem sido um óptimo apóstolo dessa mensagem. De tanto repetir a tese do virar de página, o virar de página colou-se à pele da "geringonça". De tanto proclamar o fim da austeridade, a austeridade desapareceu, apesar do anúncio de mais de 800 milhões de novos impostos. A "geringonça" é por estes dias a dona das palavras que o país cansado e descrente quer ouvir. As que indiciam mudança, justiça, sensibilidade social, crescimento económico, oportunidades, dignidade nacional, a luta contra os abusos da banca, a recusa da ideia de que a política é um caminho único.

A "geringonça" sempre foi um híbrido difícil de perscrutar, uma criação de "posições conjuntas" que lembravam uma “adivinha embrulhada num mistério dentro de um enigma”, como Churchill definia a política externa soviética. A hibridez da "geringonça", porém, tornou-se um dos seus principais cimentos. Tanto dá para defender pensionistas, funcionários públicos ou beneficiários do rendimento social de inserção, como para aceitar ingerências de Bruxelas no cumprimento das regras do euro; tanto dá para defender com voz grossa a nacionalização do Novo Banco ou a renegociação da dívida, como para admitir que o aumento do salário mínimo não será feito ao ritmo que se pretendia. Nesta mecânica de rodas dentadas atadas com fio de arame há um núcleo de acção coerente e moderado em torno do qual gravitam sem consequência as teses que prometiam no extremo peninsular o caos que o Syriza tentou criar na Grécia.

No núcleo da "geringonça" há, como se impõe, gravitas, gravatas e zelo no que se diz ou pede; na periferia há o irredutível prazer da liberdade de sonhar. Foi nos interstícios desses mundos que Costa fez o milagre da aprovação do Orçamento, mesmo que a esquerda o considere filho de pai incógnito (não é o nosso, dizem), o tenha por “insuficiente” ou até o lamente por merecer o aplauso dos capitalistas radicais da Moody’s. Mais do que na substância, a "geringonça" alicerça-se em discursos. As curtas transferências sociais para os mais pobres, o reforço das pensões mais baixas ou as devoluções da sobretaxa de IRS para as famílias de mais baixos recursos chegam para confirmar a tese de que a austeridade virou de página. Para o Bloco e para o PCP, basta uma coisinha de esquerda na "geringonça" para que o seu apoio se mantenha.

Essa foi afinal a principal façanha da "geringonça": obrigar os partidos da esquerda extrema a aceitar a política como a arte do possível. Pela primeira vez, Bloco e PCP obrigam-se a partilhar (mesmo resmungando) o gradualismo reformista, as regras prudenciais da política financeira, o cumprimento das regras da moeda única, o perigo que paira sobre o país endividado mas mesmo assim carente de empréstimos para não se afundar. O Bloco e o PCP e os Verdes, é certo, hão-de continuar a falar da nacionalização da banca ou dos transportes, hão-se exigir a renegociação da dívida, a taxa Tobin, a taxação das fortunas, o aumento de salários desligado da produtividade ou hão-de dar largas ao secctarismo fazendo cartazes imbecis e ofensivos. Mas, no seu próprio interesse, hão-de fazê-lo sob a égide de uma "geringonça" que definiu o seu novo padrão de comportamento político.

O pior vem a seguir, dizem os mais cépticos e repete-o Pedro Passos Coelho, apontando para as negociações do Semestre Europeu e para o plano B que Bruxelas exigiu ao Governo. Talvez. Convém, no entanto, lembrar que esses mesmos cépticos já antecipavam dramas infindos na aprovação do Orçamento e o Orçamento foi aprovado numa clara manifestação de força e de coesão da "geringonça". Contra a previsão dos catastrofistas, os juros da dívida estão estáveis, as agências de rating não atacaram como se esperava e os índices de confiança até aumentaram. É por isso que, a cada semana que passa, se vai consolidando a ideia de que, com a "geringonça", tudo é possível. Esta nova forma de fazer política que permite a um partido ser poder e contrapoder, governo e oposição, yin e yang, moderado e radical, comprometido e rebelde pode estar aí para durar. É estranho, pois é. Mas, como a Coca Cola de Pessoa, pode ser que a "geringonça" se estranhe e depois se entranhe.