Torne-se perito

A dança pós-moderna e as suas sisters do Harlem

Trajal Harrell continua a fazer ficção histórica (e se...?) em Judson Church is Ringing in Harlem, que sábado traz a Serralves. À procura de um passado alternativo, menos branco, para a dança — e para a América.

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Os Óscares tão brancos deste ano (e dos 87 anteriores…), Beyoncé, punho erguido e tudo, a brincar aos Black Panthers no Super Bowl, e a conversinha de Kendrick Lamar “with the entire nation”, em cima do palco dos Grammys, sobre estes últimos quatro séculos (todos os que já passaram desde que há oficialmente América) de escravatura e fractura racial? Trajal Harrell, que até nasceu do lado de lá da barreira invisível que divide os Estados Unidos ao meio (em Athens, na Georgia, o estado onde Eli Whitney inventou o descaroçador que permitiu ao Sul enriquecer em campos de algodão fatalmente tingidos de vermelho, como finalmente vimos “naquele” plano do Django Libertado graças ao grande vingador Quentin Tarantino…) mas depois subiu até à Universidade de Yale para ter uma educação Ivy League, está aí e não está.

Certo, Judson Church is Ringing in Harlem, tal como os anteriores e os posteriores episódios da série de performances que tem em curso desde 2009, Twenty Looks or Paris is Burning at the Judson Church, é uma maneira de colocar o dedo na ferida das relações entre culturas dominantes e culturas dominadas no difícil ecossistema social e racial dos Estados Unidos, trabalhando a partir de um absurdo histórico: o encontro, que nunca teve lugar, entre dois fenómenos que coincidiram na Nova Iorque dos anos 60 e deixaram descendência, as experiências de Trisha Brown, Deborah Hay, Yvonne Rainier e outros pioneiros da dança pós-moderna na Judson Church, de um lado, e o circuito de salões de baile do Harlem em que uma geração de gays e transexuais afro-americanos e latinos inventou as competições voguing, do outro.

Há 15 anos que o coreógrafo e bailarino a quem a imprensa americana (enfim, o Huffington Post) já chamou “a nova Martha Graham” anda a ficcionar esse encontro – a imaginar, em formatos que vão do XS ao XL, passando por este made-to-measure que amanhã poderemos ver em Serralves e pelo M, de (M)imosa, criado com Marlene Monteiro Freitas, Cecilia Bengolea e François Chaignaud, o que teria acontecido se as sisters dos bailes voguing tivessem descido em saltos altos e plumas até Greenwich Village para espreitar o que se passava na Judson Memorial Church ou, igualmente improvável, se a vanguarda artística então aquartelada na igreja de Washington Square se tivesse aventurado across 110th street e chegado ao coração underground do Harlem.

Judson Church is Ringing in Harlem é a materialização desta última hipótese. Não estamos já nos anos 60, mas há mesmo três bailarinos educados no cânone conceptual da dança pós-moderna cujos parâmetros o Judson Dance Theater ajudou a fixar (Trajal Harrell, Thibault Lac e Ondrej Vidlar), e eventualmente deformados por ele, a aproximarem-se de toda uma outra tradição de representação e a deixarem-se influenciar por ela, uma tradição não-oficial, paralela, mais interessada num efeito de verosimilhança (“realness”, no original) do que num efeito de autenticidade. “Claro, a tradição performativa dos bailes voguing não faz parte da História da dança contemporânea – mas todos sabemos que a História não é ‘a verdadeira história’, apenas a versão perpetuada por aqueles que têm os recursos económicos, políticos, simbólicos para a escrever”, começa por dizer ao Ípsilon numa entrevista telefónica a partir de Roterdão. “Sou obcecado pela ideia de impossibilidade histórica. Como artista, o meu trabalho é mostrar que o impossível é possível e encorajar a audiência a usar a imaginação como ferramenta para tomar o poder: um político, um médico ou um juiz não podem fazer isso, eu posso.”

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Fazer sangue
No caso deste “e se…?” que Trajal Harrell anda a colocar desde 1998 – Twenty Looks or Paris is Burning at the Judson Church, explica-nos, era para ter sido a conclusão de um trabalho de pesquisa e de reflexão, não o início de uma série que até ele já admite poder não estar em condições de alguma vez concluir… –, interessava-lhe pôr no centro do discurso sobre a dança, pelo menos por alguns instantes, formas de representação que à partida estariam condenadas a ser periféricas. Traçando, concretiza, a hipotética linha que poderia ter ido (se…) da “autenticidade” pregada na Judson Church – o preceito, no fundo “herdado do modernismo, de levar para a dança corpos autênticos” – à “realness” praticada na cena ballroom, onde aos domingos à tarde, depois da missa, milhares de homens puderam e continuam a poder ser mulheres, milhares de negros e de latinos puderam e continuam a poder ser brancos.

Talvez o trabalho de Trajal Harrell não esteja tão distante da vontade de fazer justiça pelas suas próprias mãos (para não dizermos: de fazer sangue) que há no cinema de Tarantino. Ou talvez esteja. Parece animá-lo mais a sensação de poder que dá a pura ficção histórica – no mais recente The Ghost of Montpellier Meets the Samurai, por exemplo, imagina o encontro entre Dominique Bagouet, figura seminal da dança francesa dos anos 80, e o pai fundador do butoh Tatsumi Hijikata – do que os benefícios de um número activista.

Sim, ele está “vivo e acordado”, perfeitamente consciente de que o racismo continua a correr nas veias da América (“Os EUA têm uma história e um discurso muito particulares sobre esta questão e deviam aprender com territórios com outros passados de colonização e de imigração, como a Europa e a América Latina”, argumenta). Não tem, aliás, parado de pensar sobre “o que acontece quando uma forma cultural não-dominante chega ao mainstream” (“É saqueada e rebaptizada: foi assim que o blues se transformou em rock’n’roll”). Mas, tudo pesado, essa continua a ser apenas a segunda razão pela qual Trajal Harrell quis inventar um lugar onde os artistas da Judson Church pudessem encontrar-se com os artistas do Harlem de igual para igual. A primeira é que ele estava farto do conceptualismo – abre uma excepção para “casos poderosos e importantes como os de Xavier Le Roy e Jérôme Bel” – e viu no voguing uma maneira de declarar morte a esse paradigma e poder continuar a dançar.

Mas Judson Church is Ringing in Harlem não é só a peça em que Trajal, Thibault e Ondrej continuam a dançar. É a peça em que festejam isso, sabendo que não são nem pioneiros da dança pós-moderna nem nenhuma das glamorosas sisters que Trajal tem na comunidade voguing que frequenta (só como observador) desde 1998, mas que têm a sorte de poder fingir que descendem igualitariamente das duas. E é também a peça em que, como numa competição de voguing, como numa missa afro-americana, eles põem a sua melhor roupa de domingo e dão tudo – expressão que só tem uma tradução na língua de Nova Iorque. Por incrível que pareça (mas o impossível é possível para Trajal Harrell), poderíamos usá-la tanto para descrever o que aconteceu no Judson Dance Theater como o que continua a acontecer no Harlem: “Giving church”.

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