Editorial

CGTP em guarda, sem governo a combater

A CGTP chega ao XIII Congresso com muitas reivindicações, mas sem um governo para combater.

Formada em 1970 como Intersindical, ainda durante a ditadura, nunca a CGTP teve pela frente um desafio como o actual: um governo PS com apoio do PCP e do Bloco. E isto é tanto mais difícil, quanto a afasta forçosamente dos comportamentos maniqueístas do passado: um apoio incondicional ao Governo de Vasco Gonçalves (que até discursou no seu I Congresso, em Julho de 1975) ou uma contestação sem tréguas aos governos do PS, do PSD e do CDS, nas suas mais variadas alianças e composições. Agora, é como se existisse um meio-termo político, a fazer dançar os pratos da balança. E isso apanhou a CGTP de surpresa (tal como apanhou o país), o que é visível no extenso Programa de Acção a apresentar ao XIII Congresso da central, que hoje começa em Almada, onde as referências a uma “política de direita, que agride e humilha os trabalhadores, o povo e o país” (assim mesmo, escrito no presente), antecedem uma referência à “possibilidade de formação de um governo do PS”, governo esse que entretanto já se formou. Mas se isto são vicissitudes da escrita, facilmente corrigíveis por um funcionário atento, já a prática se afigura mais complexa. Arménio Carlos, secretário-geral, na breve entrevista que hoje concede ao PÚBLICO a propósito do congresso, prefere falar num quadro político “mais exigente e desafiante”. Não é um enigma, deriva de uma indefinição natural: a favor ou contra? Quando? Como? Como conciliar as numerosas exigências sindicais com aquilo que o Governo tenderá a fazer, ou seja, integrar umas e rejeitar (ou, no mínimo, adiar) outras? É com este dilema que a CGTP tem de lidar nos próximos meses e talvez anos, se a sorte sorrir a António Costa como este sorri à oposição e ao país. Do ponto de vista programático, e no meio de milhares de palavras que não diferem no essencial das de programas anteriores, há alguns pontos que merecem atenção. O primeiro é a ausência de combate a um governo, porque não há de momento governo para combater. No seu lugar abre-se um vácuo onde caberá de tudo: pressão, reivindicação, negociação, até mesmo conflito aberto (“Ao longo dos próximos quatro anos poderá haver focos de confronto”, é o próprio Arménio Carlos que o diz, talvez para que não venham a acusá-lo de não ter avisado). O segundo é um “namoro”, agora com carácter programático (pág. 11 do programa): “Particular atenção deve ser dada à sindicalização dos trabalhadores com vínculos precários. A precariedade deixou de ser um fenómeno restrito dos jovens trabalhadores.” E a CGTP, talvez temendo que estes se organizem noutras estruturas, criadas ou a criar, procura acolhê-los na sua “asa”. Por último, há uma espécie de xeque à concertação em tons marxistas (pág. 28): “É preciso combater a ideologia da conciliação de classes, uma vez que os interesses são antagónicos e, portanto, inconciliáveis. É também necessário desmontar a falácia que quer fazer crer que a ‘concertação’ institucionalizada coloca as forças nela envolvidas em pé de igualdade.” Talvez seja apenas propaganda, mas o futuro não se avizinha fácil.