Elvas, a nova capital da arte contemporânea portuguesa

Em Julho de 2007, Elvas festejava a abertura do Museu de Arte Contemporânea, o único no país inteiramente dedicado à criação artística nacional. Aí reside desde então a Colecção António Cachola. O texto que se segue foi originalmente publicado a 6 de Julho de 2007.

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Texto originalmente publicado a 6 de Julho de 2007

O site da câmara de Elvas abre com uma notícia sobre a inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE) e desde há vários meses que o boletim municipal publica artigos sobre o museu e os artistas representados na Colecção António Cachola. 

Em Elvas, cidade com pouco mais de dez mil habitantes, tudo se sabe. É assim nos meios mais pequenos. As obras no antigo hospital da Misericórdia, que acolheu entre 2003 e 2005 alguns serviços municipais, não passaram despercebidas aos elvenses. Até porque o edifício está bem no centro histórico. Mas nem todos têm conhecimento das transformações que aconteceram no interior. 

Na Praça da República pontificam as esplanadas e algumas (poucas) lojas. Há muito que os habitantes desandaram dali – há edifícios para vender, outros ocupados por bancos, um parque de estacionamento subterrâneo e somente o pároco de Elvas habita naquele lugar, sem vivalma a partir das 19h. 

Sentado numa das duas mesas da esplanada do café Primor, Álvaro, 77 anos, vai falando com saudade desses tempos em que elvenses e espanhóis, vindos sobretudo de Badajoz e das aldeias da raia, enchiam as noites da praça madrugada fora, aos fins-de-semana. Eram os "tempos da alegria", quando o Elvas pertencia à 1ª divisão de futebol e a cidade alentejana vivia sob prosperidade e pujança. 

Agora, a cidade sente na pele os efeitos de uma certa situação periférica – certa porque apesar de estar longe de Lisboa a sua localização fronteiriça deixa-a muito perto de Badajoz (dez quilómetros), cidade com mais de 300 mil habitantes. Não há dia em que portugueses e espanhóis não atravessem a fronteira – Elvas vai a Badajoz comprar gasolina e produtos alimentares, e Badajoz compra em Elvas atoalhados e frequenta os restaurantes. A partir de hoje, os espanhóis podem também incluir no seu roteiro pela cidade alentejana uma visita ao MACE, cuja inauguração decorre hoje, a partir das 19h, numa sessão presidida pela ministra da Cultura. 

Mesmo os elvenses mais distraídos não deverão passar ao lado deste acontecimento, porque, ao princípio da noite, a cidade festeja a abertura do museu com um banquete popular na Praça da República e muita música, a cargo do DJ Nuno Botelho. A comemoração estende-se durante o fim-de-semana, com entradas livres para o novíssimo museu. 

O MACE, cujo director de programação é João Pinharanda, tem uma dupla vertente de ineditismo – é o primeiro museu dedicado exclusivamente à arte contemporânea portuguesa e está localizado em Elvas. A escolha obedece ao desejo do coleccionador de arte António Cachola, natural de Elvas, cuja colecção de cerca de 350 obras ficará em depósito no MACE por um período de 13 anos. Mas serve também um intuito descentralizador e transfronteiriço. O MACE quer captar público dos dois lados da fronteira e a sua posição estratégica poderá, assim acredita António Cachola, contribuir para esse objectivo. 

Pinharanda fala numa "batalha" quando se refere a este intuito. Porque não faltam concorrentes ao MACE: a uma dezena de quilómetros, em Badajoz, há o Museu Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporânea (MEIAC), e em Cáceres, não muito longe da fronteira, a recém-constituída Fundação Helga de Alvear prepara-se para abrir, dentro de menos de três anos, o Centro de Artes Visuais. "O MACE quer ganhar a população de Elvas mas também de Cáceres, Badajoz, Évora, Portalegre ou Montemor-o-Novo, tudo pólos vizinhos de afirmação cultural", realça Pinharanda. O objectivo é "transformar um museu de fronteira num museu que ajude a acabar com as fronteiras: entre a arte contemporânea e o público, entre o centro e a periferia, entre Portugal e Espanha", aponta o director. 

Incluir o museu nos roteiros nacionais e espanhóis é uma das metas. Mas há outras. A câmara, proprietária do edifício e co-financiadora, juntamente com o Ministério da Cultura (através do Programa Operacional da Cultura), das obras de reconversão, está já a preparar a candidatura à rede do Instituto Português dos Museus. 

Em conversa telefónica (assim preferiu, argumentando que, neste caso, "o coleccionador não deve ser notícia"), Cachola, 53 anos, economista no grupo Delta, não poupa elogios aos financiadores do projecto. À "coragem e visão" do "grande dinamizador" do MACE, José Rondão de Almeida, presidente da autarquia, o coleccionador soma o apoio "sem limitações, com dignididade e sem mediatismos" do Governo. 

O investimento da câmara parece estar a ganhar pontos. No final de Junho, a autarquia firmou um acordo com o Banco Espírito Santo, transformando-o num dos principais mecenas do MACE. O modelo de financiamento do museu inclui, aliás, uma bolsa de mecenas, que irão contribuir para a realização de iniciativas temporárias. Foram já assinados protocolos (por um período de três anos e de cariz renovável) com a Fidelidade, a Nestlé, a Fundação Oriente e a Sonae. Estas iniciativas temporárias têm várias vertentes. Haverá um programa com seminários, cursos de formação cultural e artística, projecção de vídeos, conversas com os artistas representados na colecção, visitas guiadas, ateliers para públicos escolares e parcerias com as instituições universitárias de Évora e Portalegre. Mas Pinharanda quer também exibir exposições temporárias. "Comecei a perceber que o primeiro ano de programação só podia ser feito mostrando as sucessivas facetas da colecção", afirma. Em Setembro, durante as festas de São Mateus, uma das mais populares da cidade e arredores, as peças agora expostas serão substituídas e para Junho de 2008 está já a ser delineada uma mostra de novas aquisições. "Uma coisa que critico é o facto de não existirem museus onde se possa ver o que continua a ser feito na arte portuguesa contemporânea", justifica. 

Pinharanda descarta a possibilidade de o MACE acolher uma exposição individual, mas não invalida essa ideia. Isto porque ele quer "espalhar" a colecção noutros locais da cidade, nomeadamente em antigos edifícios militares, actualmente devolutos. Um dos primeiros passos para este projecto, que o director quer transformar numa rede ibérica, promovendo a circulação das obras, já está dado: o paiol de Nossa Senhora da Conceição, a poucos metros do MACE, é uma extensão do museu. Até Setembro estão ali expostas obras de Mafalda Santos, Alexandre Farto, Nuno Vaza e Ricardo Jacinto. Ainda neste âmbito, o director do MACE tem já garantida uma exposição com os trabalhos premiados na edição do próximo ano do Prémio Fidelidade – as peças estarão patentes no espaço museológico da Escola Agrária de Elvas. 

O programa de actividades do MACE afigura-se intenso. E por isso há quem lamente a definição do horário do museu, pouco compatível com a numerosa oferta de actividades e de serviços. O fecho à hora do almoço, entre as 12h e as 14h, não trará muitos benefícios à cafetaria, espaço propício para almoços e jantares. Depois há o encerramento das portas, às 18h, que, durante a época estival, é excessivamente prematuro. Fechado à segunda-feira e terça de manhã, o MACE estará aberto de quarta a domingo. 

Intervenção "sem ruídos"

O MACE está instalado num edifício setecentista, contíguo à igreja da Misericórdia e cuja entrada se faz pela rua da Cadeia, bem no centro histórico de Elvas. Agora nada faz supor que ali estiveram albergados, até 1993, o hospital e a Mesa da Misericórdia de Elvas – apesar das referências religiosas que se fazem notar na frontaria do edifício, nomeadamente um nicho com a imagem da Nossa Senhora da Conceição. 
O majestoso portal em mármore, com traços do barroco tardio de D. João V, atribuído ao canteiro Gregório das Neves, abre para um átrio, também em mármore em tons rosa, e o olhar é imediatamente invadido por uma monumental escadaria de inspiração barroca – na parede defronte do primeiro lance de escadas, mais um nicho, desta vez sem a imagem, mas com a inscrição Nossa Senhora do Amparo. 

As espaçosas enfermarias e demais salas do antigo hospital, convertidas em espaços museológicos, ocupam os pisos térreo e primeiro – aqui vão estar, numa primeira fase, perto de 100 obras (pintura, escultura, instalação, vídeo e fotografia). A transformação do velho hospital em museu foi feita através de uma intervenção multidisciplinar. Em 2003, o arquitecto Pedro Reis, coordenador de uma equipa constituída pelo arquitecto João Regal e pelos designers Filipe Alarcão e Henrique Cayatte, ganhou o concurso público para o projecto de reconversão do edifício, adquirido um ano antes pela câmara de Elvas. 

José Francisco de Abreu, o arquitecto que terá projectado o edifício original, deu "qualidades especiais" ao hospital, nota Pedro Reis, apontando a espessura das paredes, a elevada altura dos pés direitos e a clara definição de todos os espaços interiores. Para intervir num lugar com quase 3.500 metros quadrados, que, ao longo dos séculos sofreu diversas alterações, o arquitecto e a sua equipa tentaram procurar soluções técnicas que "minimizassem" o impacto das transformações. Isso mesmo é notório na instalação de infraestruturas, como o ar condicionado ou o sistema de iluminação, dissimuladas em todos os espaços. 

O branco e a sua sobriedade imperam – nas galerias, no mobiliário dos espaços administrativos e de apoio ao museu, na cafetaria, no enorme terraço/esplanada que oferece uma vista excelente sobre a cidade. As obras prolongaram-se ao longo de um ano e meio e uma das preocupações de Reis foi "tornar os espaços mais versáteis", possibilitando, assim, o acolhimento de obras de grande dimensão. 

Do velho hospital nenhum espaço ficou sem aproveitamento. O projecto incluiu ainda a criação de zonas para o serviço educativo, uma mediateca, um depósito de livros, uma loja e várias salas de reservas das obras. Em termos concisos, o arquitecto, que fez a sua estreia em projectos para espaços museológicos com este trabalho no MACE, explica as principais linhas de intervenção: "Quisemos tirar o máximo partido dos espaços do edifício, dissimular as infraestruturas e intervir de uma forma silenciosa, sem ruídos." Ao projecto de Pedro Reis foi acrescentada uma peça de José Pedro Croft, duas estruturas em ferro que ocupam dois cantos de uma das galerias. Foi a única encomenda que João Pinharanda fez para a inauguração do MACE.

No início desta semana, Joana Vasconcelos partiu bem cedo para Elvas, acompanhada por duas assistentes, Clara e Carla. A artista ia ajudar na montagem de uma das suas peças mais emblemáticas, A Noiva, um lustre com quase cinco metros de altura feito com milhares de tampões, adquirido por António Cachola em 2001. Primeiro propuseram-lhe que a obra ficasse exposta no paiol de Nossa Senhora da Conceição, um dos pólos de extensão do MACE. Mas ela recusou e escolheu, concorda agora João Pinharanda, o lugar mais indicado para a peça: a sala do Consistório, no piso superior do edifício, com um pequeno altar e com painéis de azulejos (datados do segundo quartel do século XVIII) que representam a vida de Santa Isabel, mãe de S. João Baptista e prima de Maria, mãe de Jesus. 

As dificuldades inerentes à montagem de A Noiva acabaram por ceder tempo à artista para ajudar à colocação, numa das salas do piso térreo, do par de peças Wash and Go, cilindros giratórios ornados com meias de nylon coloridas (1998). Em conversa com Pinharanda, Joana disse que o MACE simboliza a verdadeira descentralização. O director não podia estar mais de acordo, mas acredita que o museu terá "mais impacto" junto do público espanhol.

Neste primeiro período da mostra da colecção de António Cachola estão representadas no MACE obras de João Pedro Vale, José Pedro Croft, Rui Sanches, Rui Chafes, Fernanda Fragateiro, Jorge Molder, Pedro Calapez, Noé Sendas e Paulo Quintas, entre outros artistas. O espólio de Cachola, que começou a adquirir peças "a pensar numa colecção" em finais dos anos 90, apresenta artistas revelados ou firmados no decénio de 80 e na actualidade. 

Ao PÚBLICO, o coleccionador quis também "deixar algumas palavras aos criadores", nomeadamente àqueles que ainda não integram a sua colecção. "Existem artistas plásticos que tinham todo o direito de estar na colecção. Não estão por falta de oportunidade", afirma, apontando os nomes de Julião Sarmento, Miguel Ângelo Rocha, João Louro, João Paulo Feliciano e Filipa César.

"Qual museu?"

Voltamos ao café Primor. Álvaro sabe da existência do MACE. "Quando inaugura?", pergunta. Falamos no banquete popular que vai acontecer, ao princípio da noite de hoje, ali mesmo, na Praça da República, com leitões a assar no espeto e muito vinho a jorrar. E ainda da música para dançar. Álvaro diz que não vai perder a inauguração. É isto mesmo que António Cachola (não há quem não o conheça, apesar de agora viver em Campo Maior) afirma querer. "Gostava que os elvenses sentissem que este projecto não é da autarquia, mas é de todos", sublinha. "Devem sentir o MACE como deles e senti-lo como um projecto singular." Ele mesmo terá oportunidade de o demonstrar esta tarde, mas quis afirmar um desejo: "Espero que se sintam orgulhosos por terem uma oferta cultural que não existe no resto do país." 

Álvaro não sabe muito bem o que vai encontrar no MACE, mas também anseia que o novo museu devolva a Elvas a alegria de outros tempos. "Sabes que vai abrir o museu na sexta-feira?", pergunta a Artur, que entretanto chega à Primor, à procura do vento fresco do final da tarde e de um copo de vinho tinto. "Qual museu?" Álvaro demora-se alguns minutos a explicar - "Ah", vai soltando Artur, 85 anos que parecem 70 ("aqui não se morre", diz Álvaro) – e não se esquece de falar no banquete da noite. "Não se viu escrito em lado algum", lamenta Álvaro, olhando para nós como que a justificar o desconhecimento. 

A conversa toma outro rumo. No fim de contas, o rumo é sempre o mesmo: relembrar os tempos áureos de Elvas. Do MACE salta-se para aquela noite em que Artur, antigo jogador do Elvas, apostou com a multidão que enchia a Praça da República que era capaz de "dar 20 voltas à praça". Fê-lo com uma perna às costas e levou para casa um garrafão de vinho.