Crítica

Rokia Traoré a contas com as dores

Rokia Traoré a tentar continuar, a tentar manter a esperança depois de lhe alvejarem o inocente idealismo.

<i>Né So</i> obriga Rokia a um retraimento interior, a uma sonoridade que recusa exuberâncias
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Né So obriga Rokia a um retraimento interior, a uma sonoridade que recusa exuberâncias

Né So não provoca aquele impulso imediato a que Rokia Traoré nos habituara de, ouvidos três ou quatro temas, ir espreitar se, por milagre, as viagens para o Mali se teriam tornado um investimento financeiro razoável. E se esse impulso fica bem sossegado no seu cantinho, aos poucos percebe-se que desde o primeiro segundo Né So se vai revelando um disco fundado na dor. Tal fundação acontece em dois sentidos distintos: o pessoal e o colectivo. Ao mesmo tempo que se via abanada na sua vida e a contas com um regresso ao Mali que coincidiria com a entrada do país numa guerra civil devastadora, via-se duplamente privada da sua decisão em ali viver – não apenas a sua permanência se tornava intolerável, como o país que a fizera querer voltar e redescobrir era arrasado e corria o risco de desaparecer.

Sobraria e sobrou, naturalmente, outro país. Um país combalido, dorido, com um amor-próprio atirado ao tapete e espezinhado repetidamente. Né So (“casa”, em bambara) projecta essa confusão para a música, obriga Rokia a um retraimento interior, a uma sonoridade que recusa sempre manifestações de exuberância e aparentemente domesticada pela sua anterior vida na Europa, mas que resulta afinal de uma queda desamparada no pântano que é sempre a reflexão sobre a identidade no meio do caos e da sobrevivência sob ameaça. Onde no anterior Beautiful Africa, a primeira colaboração com o produtor inglês John Parish (habitual companheiro de estúdio e de palco de PJ Harvey), tudo era afirmação e vitalidade, agora é dúvida, lamento e desgosto pelos caminhos da humanidade.

Desde o início da sua carreira, Rokia Traoré tem emprestado a voz à luta contra as desigualdades, à emancipação feminina e à diversidade cultural. Né So soa ao embate despreparado entre idealismo e realidade, à convalescença emocional de uma mulher quase vencida por um mundo onde grassa a violência e a intolerância entre povos, e a solidariedade parece frequentemente mais um luxo do que uma prática quotidiana. Daí que Rokia passe o tema final Né So e Sé Dan a perorar sobre a liberdade, a identidade, a luta entre bem e mal e o respeito pelo próximo, num achaque de raspanete moral, servido pelo tom de quem acabou de se confrontar com a evidência de que isto não está para subtilezas ou mensagens poéticas.

Felizmente, nem esse achaque final nem a presença alienígena de Devendra Banhart contaminam o resto do álbum. A defesa da felicidade como resposta contra a violência do mundo sustenta Tu Voles, mas é sobretudo a voz dorida de Rokia colada às magníficas guitarras de Obikè, Kènya ou Ilé a espalhar um charme imenso por toda esta explanação de uma tristeza incontida. Atirando-se à quase heresia de interpretar Strange Fruit, o tema de Abel Meeropol que Billie Holiday popularizou e tornou criminoso ouvir em qualquer outra voz, Rokia sobrevive a esse momento delicado graças à sua interpretação mais quebrada e exposta de todas – acompanhada nesse campeonato pelo desamparo tocante de Amour –, como se cantasse mal se tendo em pé.

Nascido dos escombros de um país ainda em choque com a presença dos jihadistas e a sua demonização da música e de qualquer manifestação cultural, Né So soa sempre ao doloroso reconhecimento de que, dificilmente, uma voz cantada se sobrepõe aos tiros e aos gritos desesperados. Né So é Rokia Traoré a tentar continuar, a tentar manter a esperança depois de lhe alvejarem o inocente idealismo.