Projectos sobre cancro, AVC e acidificação dos oceanos vencem prémios L’Oreal

Desenvolvimento de um sistema para fazer chegar fármacos às células cancerosas e estudos para descobrir causas dos acidentes vasculares cerebrais misteriosos e o efeito nos peixes da acidificação dos oceanos venceram Prémios Mulheres na Ciência.

Elisabete Oliveira vai produzir nanopartículas que emitem luz
Elisabete Oliveira vai produzir nanopartículas que emitem luz DR
Ana Catarina Fonseca está a investigar as causas misteriosas de AVC
Ana Catarina Fonseca está a investigar as causas misteriosas de AVC DR
Ana Faria quer verse os peixes se adaptam a um oceano mais ácido
Ana Faria quer verse os peixes se adaptam a um oceano mais ácido DR
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Os prémios L’Oreal atribuídos anualmente a três mulheres que fazem investigação científica em Portugal distinguiram este ano projectos na área do cancro, das doenças cardiovasculares e da ecologia. Elisabete Oliveira, de 32 anos, Ana Catarina Fonseca, de 34 anos, e Ana Faria, também de 34 anos, vão receber nesta terça-feira em Lisboa cada uma delas a Medalha de Honra L’Oreal Portugal para as Mulheres na Ciência e 20.000 euros as investigações que têm em mãos.

Elisabete Ferreira está a desenvolver nanopartículas para o tratamento do cancro na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, na Costa da Caparica. O objectivo é construir pequeníssimas partículas (o prefixo nano transporta-nos para a escala do milionésimo de milímetro) que têm os condimentos para identificar e penetrar nas células cancerosas, libertarem um fármaco e matá-las.

“A quimioterapia tem muitos efeitos secundários”, explica a investigadora ao PÚBLICO. “Queremos um tratamento que seja mais efectivo. A mais-valia deste sistema é que podemos introduzir o fármaco que quisermos e podemos construir diferentes dispositivos.”

Neste momento, a cientista doutorada em biotecnologia ainda está a testar as nanopartículas em células in vitro para o cancro colo-rectal. A primeira fase é identificar substâncias produzidas em excesso por aquelas células cancerosas em relação às células normais. Quando identificarem uma molécula que, no fundo, seja específica destas células cancerosas por estar em quantidades anormais, podem construir a sonda – outra molécula que será colocada à superfície das nanopartículas e que se irá ligar às moléculas específicas das células cancerosas. Desta forma, as nanopartículas ficam com uma antena que as guia para o cancro.

As nanopartículas têm poros na superfície, que depois serão preenchidos por um fármaco. Segundo a investigadora, o fármaco que vai ser testado é a doxorrubicina, muito usada para combater vários cancros e que é injectada intravenosamente. “O culminar do projecto é o desenvolvimento da forma oral [de medicação] da doxorrubicina”, diz Elisabete Ferreira.

Para isso, será necessário confirmar a eficácia do sistema. Estas nanopartículas emitem luz. “Podem ver-se directamente ao microscópio”, diz a cientista, o que permitirá ver se entram nas células cancerosas. Depois do trabalho in vitro, o tratamento será testado em animais e, finalmente, em doentes humanos. As nanopartículas são feitas de sílica e são eliminadas naturalmente. “Estimamos que em cinco ou seis anos conseguiremos ter o primeiro dispositivo disponível.”

O trabalho de Ana Catarina Fonseca centra-se também na saúde humana, mas em acidentes vasculares cerebrais (AVC). A investigadora doutorada em medicina trabalha no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, e irá tentar compreender a origem de uma parte importante dos AVC que hoje são classificados como indeterminados. “Desde há uns anos que tenho tentado ver se estes AVC podem ser reclassificados”, diz a cientista ao PÚBLICO.

Os AVC dividem-se em hemorrágicos ou isquémicos. Os primeiros representam 20% dos casos e acontecem quando se rompe um vaso sanguíneo e há uma hemorragia no cérebro que mata as células nervosas. Nos segundos, 80% dos casos, há uma oclusão de um vaso sanguíneo que impede os nutrientes e o oxigénio de chegarem às células nervosas, o que as mata.

Os trombos causados pela agregação de plaquetas e os coágulos de fibrinogénio são duas causas possíveis para haver um AVC isquémico. Mas num terço dos casos de AVC isquémicos não se consegue identificar a sua origem. No trabalho que já fez com a sua equipa, Ana Catarina Fonseca descobriu “que algumas substâncias no sangue podem ajudar a reclassificar alguns AVC”. A investigação ainda está numa fase inicial e a cientista vai agora analisar os corações de doentes que sofreram AVC de causa indeterminada para tentar encontrar pistas anatómicas que possam ajudar, no futuro, o prognóstico destes AVC misteriosos.

O terceiro trabalho afasta-se da saúde humana para estudar a saúde animal e a dos oceanos. Nos últimos anos, Ana Faria esteve a analisar o desenvolvimento das fases iniciais de cinco espécies de peixe quando são submetidas a um pH mais ácido. Estima-se que o pH dos oceanos irá descer até 2100 de oito para 7,7, porque estão a absorver o excesso de dióxido de carbono na atmosfera, emitido pelas actividades humanas e responsável pelo efeito de estufa. A diferença de 0,3 “parece muito pouco, mas a escala do pH é logarítmica, e essa diferença é bastante”, diz a investigadora, doutorada em ecologia marinha, e a trabalhar no ISPA – Instituto Universitário.

Trabalhos anteriores mostraram que, devido à acidificação dos oceanos, as larvas de peixes tropicais “perdiam capacidades de reconhecer o odor de um predador ou os sons típicos de um recife”, diz Ana Faria. A investigadora testou quais seriam as consequências da alteração do pH em espécies comerciais da costa portuguesa, como o sargo, o linguado e a corvina, e em espécies de importância ecológica, como o peixe-ventosa e o peixe-rei.

Nas experiências em laboratório, Ana Faria descobriu que as espécies comerciais eram mais vulneráveis à acidificação do que as de importância ecológica: “As larvas são mais pequenas quando nascem. Parece que estão a mobilizar energia para responder às alterações do meio, comprometendo o crescimento.”

Agora, a cientista vai usar o caboz para testar se os indivíduos adultos desta espécie de peixe conseguem adaptar-se a um oceano mais ácido. Este tipo de investigação pode ajudar a tomar decisões sobre a conservação, explica: “Se soubermos que uma espécie comercial vai ter dificuldades em se adaptar, podemos diminuir o esforço de pesca.”