Opinião

Aventuras de um papa desconhecido

De certa maneira, Ratti contribuiu mais do que Pio XII para a instalação do fascismo e do nazismo na Europa.

A literatura histórica contemporânea estudou minuciosamente o pontificado de Pio XII, mas tem ignorado o pontificado de Pio XI (Achille Ratti), que foi eleito no mesmo ano em que Mussolini subiu ao poder (1922 ) e viveu até 1939. E, no entanto, de certa maneira, Ratti contribuiu mais do que Pio XII para a instalação do fascismo e do nazismo na Europa. O Vaticano de Pio XI deu uma ajuda crucial para o advento e estabilidade do regime de Mussolini; a Acção Católica cooperou entusiasticamente com a polícia na eliminação de toda a espécie de opositores ao Duce (chegou mesmo a encobrir alguns crimes); e principalmente tomou a iniciativa ideológica e política na perseguição aos judeus. Porquê? A troco de quê?

A troco de interesses institucionais que pouco valiam e de uma revanche anacrónica que só o clero italiano partilhava, queria um Estado autónomo (recebeu o Vaticano), queria que o catolicismo fosse a religião oficial de Itália, queria liberdade para a Acção Católica e queria dinheiro. Mussolini com tudo ou quase tudo e ao longo do tempo acrescentou alguns prémios por bom comportamento: cruzes nas salas de aula, penas para as mulheres que mostravam as costas nuas (para não falar em parte do peito, coisa que perturbava particularmente  Ratti) e uma censura apertada ao cinema, ao teatro e à imprensa, que por qualquer razão desagradavam ao Vaticano. No fundo, a Igreja aspirava a um regime tão opressivo como o de Mussolini, desde que ele estivesse sob o seu controlo, uma política ingénua e torpe que durou para lá da queda do ditador.

Seja como for, o pior que o Vaticano fez nessa época de horror foi exprimir e popularizar o anti-semitismo latente na Europa. A revista dos Jesuítas La Civiltà Católica, que o papa de facto dirigia, e o L’Osservatore Romano começaram a publicar entre 1920 e 1930 a propaganda nazi, que na Alemanha teve de esperar por 1933. O mito da conspiração dos judeus com o comunismo, o capitalismo, o liberalismo e a Maçonaria apareceu em Roma antes de se tornar corrente na Alemanha e, a seguir, em Espanha. Claro que Ratti recusou um racismo “biológico”. Infelizmente, nessa altura, os compromissos com Mussolini não lhe permitiram romper claramente com a nova orientação do regime e acabou por se resignar à lei, imposta pela insistência de Hitler, que declarava “ariano” o povo de Itália e não permitia o casamento legal entre um cristão e um judeu convertido. O populismo nunca levou a nada de bom.