Quando os telemóveis à mesa tiram o espaço à família

Oitenta e um por cento dos inquiridos num estudo sobre hábitos à refeição concorda que o uso de telemóveis prejudica o convívio à mesa. Ainda assim, há 70% que os usa enquanto come.

Os lisboetas são mais restritivos no uso do telemóvel à mesa.
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Os lisboetas são mais restritivos no uso do telemóvel à mesa. Miguel Dantas

Num inquérito realizado em Portugal a propósito dos hábitos à refeição, 81% dos inquiridos reconheceu que o uso de telemóveis à mesa pode ser prejudicial ao convívio. Porém, 70% admitiu utilizar estes aparelhos durante a refeição. 

O inquérito realizado pela Marktest, e o estudo conduzido pelo sociólogo Pedro Abrantes, do ISCTE, em Lisboa, nasceu pela mão de uma marca de iogurtes, Activia, que queria analisar a forma como os portugueses lidam com as refeições. E as conclusões sugerem que práticas como o uso de telemóveis à mesa podem ser nocivas para uma boa digestão, pelas interrupções da refeição para atender chamadas ou responder a e-mails e SMS.

O momento de sentar à mesa é "o mais comum dos rituais familiares, que cumpre importantes funções como a promoção do sentido de pertença, de sentimentos de segurança e de expressão de emoções", diz a psicóloga Carla Crespo ao PÚBLICO, numa reportagem sobre hábitos familiares à mesa, publicada em Agosto de 2014. Por outras palavras, a mesa de refeições seria um espaço de construção identitária para as famílias. Quando 70% dos inquiridos naquele trabalho admite comer de telemóvel na mão ou por perto, surge a questão de saber se os pequenos dispositivos estão a pôr em causa as relações familiares.

Outras conclusões: sete em cada dez portugueses terminam as refeições em menos de meia hora, e 50% sofre de má digestão quando dedica pouco tempo a comer. E o pouco tempo que se dedica à mesa continua a ser invadido pelos dispositivos móveis e pela televisão 93% dos inquiridos disse ver televisão às refeições e 80% atende chamadas enquanto come. Ainda que a maioria concorde que o uso de aparelhos electrónicos à refeição é prejudicial para o convívio, 72% não tem em casa a regra de não usar o telemóvel à mesa.

Ao contrário dos homens, para as mulheres portuguesas é mais importante a boa companhia à mesa do que um bom prato. O mesmo para os portuenses – no Porto a boa companhia à refeição é mais valorizada do que em Lisboa. Não obstante, também é nestas duas cidades que menos refeições se fazem à mesa. No Sul (Algarve e Alentejo), é onde se dá maior importância a que se coma com calma. É lá, também, onde mais gente identifica o uso do telemóvel à refeição como prejudicial ao convívio familiar - 87%, face à média de 81% de todos os inquiridos.

No que toca ao convívio familiar, 84% dos inquiridos concorda que as refeições são um momento de reunião de família, mas 50% dos lisboetas permite que os filhos saiam da mesa antes do fim da refeição. No Porto há mais regras neste aspecto: só 25% dos inquiridos é que permite que se deixe a mesa antes de toda a gente acabar de comer.

A partilha do dia-a-dia (da escola ou trabalho) é o que mais se discute durante as refeições de família (86,3%), seguindo-se as questões familiares (76,7%). Este é um momento importante para os pais monitorizarem os filhos, e para haver partilha de dúvidas, projectos, e ideias, como também explica a psicóloga Carla Crespo. As crianças têm cada vez menos a iniciativa de saírem de casa para ir brincar, e por isso refugiam-se na tecnologia. "Isto invade os espaços familiares".

Há mais lisboetas a proibir o uso de telemóveis do que portuenses. “A regra mais comum é não utilizar tecnologia à mesa, mas permite-se comer muito rápido para depois se voltar para os telemóveis e os computadores”, explica Pedro Abrantes ao PÚBLICO. “No Porto as refeições podem durar mais tempo, mas é permitido que se use o telemóvel”. Comer à mesa é um acto de intimidade, e os telemóveis podem pôr isso em causa. 

Mais de metade dos inquiridos considera desadequado que se entregue um telemóvel ou tablet a uma criança para a manter entretida num restaurante, mas Pedro Abrantes reconhece que há muitos pais que fazem exactamente isso. "Há contradições que têm a ver com os desafios que a própria tecnologia coloca à vida familiar", e "há dificuldades em gerir este tema".

Os jovens mimetizam os pais, e "quando os pais dizem uma coisa e fazem outra, naturalmente que a criança vai prestar mais atenção ao que o pai faz, e menos ao que diz". Compete aos pais não só estarem atentos às crianças, mas também a si próprios enquanto adultos, porque o espaço da refeição é um espaço de convívio e partilha de valores, acrescenta. 

“Está assente na cultura portuguesa que o momento da refeição é central nos relacionamentos familiares”, afirma o sociólogo. “O que mais vemos, especialmente quando trabalhamos com escolas e nas grandes cidades, é que as relações estruturantes são perturbadas, e que há muitos jovens que têm falta de momentos de convivência quotidiana.”

O inquérito foi respondido pela internet por uma amostra de 606 pessoas residentes em Portugal Continental, com idades entre os 18 e os 64 anos. A recolha de informação ocorreu entre 29 de Janeiro e 1 Fevereiro. A margem de erro máxima para o total, para um intervalo de confiança de 95%, é de ± 3.98 p.p..