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Megafone

Os golfinhos não tiram selfies

Em 2016, há quem use um telemóvel para, no fundo, matar uma cria de golfinho enquanto tenta fotografar-se com ela

Ao longo dos séculos, muitos se envolveram na discussão: o ser humano nasce bom ou mau? Apesar de não ser eu uma das mais proeminentes autoridades da Antropologia, considero que esta discussão não faz sentido, porque é evidente que o ser humano nasce estúpido. Sim, estúpido.

Ora, Jean-Jacques Rousseau ou Thomas Hobbes podem ter lido muitos livros bons e dedicado longas horas à reflexão cuidada acerca da natureza do ser humano, mas eu tenho uma vantagem sobre eles: tenho acesso à Internet. Assim, pude ler uma notícia que demonstra que o ser humano não nasce bom nem mau: nasce estúpido. Conta a notícia que, na Argentina, uma cria de golfinho deu à costa e um grupo de pessoas provocou a sua morte. Para se defender de um ataque feroz desse predador implacável que é o golfinho? Não. Para fazer uma caldeirada ou sushi de golfinho? Não. Para tirar uma selfie com o golfinho.

Aquela gente, de corpo esbelto banhado pelo sol do Verão argentino, aquela gente à beira-mar plantada (estaria melhor enterrada, mas não se pode ter tudo), munida de arpões e canas de pesca… perdão, de telemóveis com câmara fotográfica, desatou a transportar o golfinho para aqui e para ali e o golfinho acabou por morrer. Isto por causa de uma selfie, repito.

Qualquer pessoa sensata que se deparasse com um golfinho em apuros teria, como único objectivo, recolocá-lo na água, em segurança. O que decidiu uma turba de gente parva? “Pessoal, vamos tirar selfies com ele! Sejam rápidos e passem o golfinho à pessoa do lado, não porque o golfinho tenha que ir para a água, mas porque daqui a pouco temos um churrasco na casa do Hernandez!”.

Em primeiro lugar, o golfinho não quereria, certamente, tirar uma selfie, porque o golfinho é uma espécie suficientemente inteligente para saber que as selfies são uma pirosice. Mas, mesmo que quisesse muito tirar uma selfie, o golfinho teria escolhido outros golfinhos, as tartarugas, as medusas, os tubarões (o tubarão, tirando a dentição e o apetite voraz, até tem um ar bonacheirão e parece ser um animal porreiro), enfim, qualquer espécie, menos aquele grupo de humanos energúmenos que, numa praia, decidiu pegar numa cria de golfinho para tirar uma selfie.

Depois de milhares de anos de evolução do Homo Sapiens Sapiens, depois de avanços significativos em várias áreas do saber, conseguimos alcançar maior capacidade de processamento e de captação de imagem num telemóvel, em 2016, do que tínhamos em maquinaria pesada criada para o efeito, em meados do século XX. No entanto, há quem use um telemóvel para, no fundo, matar uma cria de golfinho enquanto tenta fotografar-se com ela.

Na semana passada, um grupo de cientistas concluiu que Einstein estava certo, há mais de cem anos, acerca das ondas gravitacionais. Esta semana, um grupo de imbecis numa praia argentina provou que Hitler estava certo, há mais de sessenta anos, acerca da ideia de que alguns seres humanos são dispensáveis. Onde este execrável ditador errou clamorosamente foi no grupo-alvo, porque não é, obviamente, na etnia ou na crença religiosa que está o perigo, mas sim no que um grupo de pessoas consegue fazer munido de mortíferos telemóveis.

A malta que cometeu esta insanidade ficou, certamente, muito triste. Isto, porque a selfie não terá ficado tão gira quanto eles pensavam. Perdeu a Natureza, o que, para eles, é chato, e perdeu o Snapchat, o que, para eles, é muito pior. Mas podemos ter esperança: talvez eles se lembrem de tirar selfies com tubarões, anacondas ou tigres. Talvez a ideia corra mal, para o lado deles, e um destes animais fique com comida para uma semana. Pode perder o Snapchat mas, acima de tudo, ganhará a Natureza.

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