Opinião

O Cerejo e o Rezendes

Custa-me que o verdadeiro Mike Rezendes tenha que aparecer na foto, humilde, ao lado do famoso Mark Ruffalo para ganhar em Portugal um espaço de visibilidade que o seu trabalho, a causa disto tudo, não lhe deu.

Spotlight é o gabinete de sonho para qualquer jornalista que se preze. Um pequeno grupo discreto, quase secreto, com carta livre para investigar tudo, reportando apenas a um editor e sem prazos para investigar uma história até ela estar concluída. No filme Spotlight mostra-se como todo o sistema da perversão sexual de menores ocultado pela Igreja católica, primeiro na zona da Nova Inglaterra, foi apanhado pelo grupo de investigação do jornal Boston Globe em 2001/2002. Mas será realmente um enorme elogio para estes jornalistas que um filme nomeado para os óscares conte a sua história?

No dia da ante-estreia em Portugal houve debate com os jornalistas José António Cerejo, Pedro Coelho e Paulo Nuno Vicente. Falaram das dificuldades de fazer jornalismo de investigação em Portugal, ou seja os meios escassos, a falta de tempo e de investimento. No final dos discursos a sala aplaudiu em comunhão de ideias. Os sinais de desconforto para mim começaram na modéstia com que um dos melhores jornalistas de investigação da actualidade, José António Cerejo, falou para a plateia. É o pouco à vontade de quem trabalha fora do spotlight televisivo; de quem só conta as histórias dos outros e não fala normalmente de si. De quem faz da rotina do trabalho o elaborar perguntas difíceis e incomodas aos que nos administram e governam. O seu treino não é ser um jornalista de palco mas sim o trabalhar longe dos olhares, seguindo pistas, acumulando provas e exigindo respostas.

Está por fazer a história das relações entre o cinema e o jornalismo. Não são nem amigáveis nem generosas, embora o pareçam.

O jornalismo sempre precisou de histórias exemplares para se valorizar socialmente. Histórias para se ensinar e se mitificar. Por exemplo, o Caso Watergate há muito que assume o papel, quase solitário, de heroicizar o jornalismo de investigação, os seus princípios, a isenção, o rigor e a protecção das fontes. Mas, cada vez mais é o cinema quem fornece ao jornalismo as lendas. Quando os filmes são anunciados como "baseados em factos reais" isso significa, normalmente, que são feitos a partir de trabalho jornalístico.

Mas o cinema nem sempre trata bem o jornalismo. Basta relembrar alguns casos perversos como o de Randolph Hearst, o iniciador do tabloidismo, retratado em Citizen Kane (Orson Welles, 1941) ou o sensacionalismo do jornalismo televisivo mostrado em Network (Sidney Lumet, 1976). Mas desafiando a lógica considero mais úteis, para o jornalismo, estes e todos os filmes que o põem em causa, denunciando-lhe a soberba e as más práticas deontológicas. O romantismo enaltecedor de um filme como Spotlight, dirão alguns, atrairá jovens para o jornalismo e estes ajudarão a superar a crise. Mas o chamado jornalismo de investigação foi desaparecendo das redacções por causa da imposição, nos últimos 30 anos, do quase monopolista “modelo CNN” com o histerismo das breaking news, onde a visão do pivô se sobrepôs à do repórter.

Os problemas são vastos mas neste texto procuro apenas problematizar as relações entre jornalismo e cinema. Entre a reportagem e ficção.

Porque não consegue o verdadeiro repórter passar, com o mesmo fulgor que um actor, a paixão do jornalismo? Porque não consegue a reportagem ter o mesmo charme e impacto global que o cinema?

Não está em causa o cinema. Não quero, nem por um instante, vilanizar a sétima arte. Aliás o cinema é a arte que integrou todas as artes e as entregou ao povo (começando, obviamente pelo teatro e pela literatura). Mas o cinema diz-nos também que a música de Mahler existe nos canais de Veneza (Morte em Veneza / Visconti, 1971) e há pintura de Vermeer nos filmes de Greenaway e na objectiva de Eduardo Serra. Nenhuma arte dialogou tão fortemente com a filosofia (por problematizar a diferença e os extremos da vida). O cinema tornou-nos ainda visível o Tempo (Deleuze) e a História. Mostrou-nos (Mizoguchi , em Amantes Crucificados,  1971) que o amor e a paixão não são a mesma coisa (o amor, a mais difícil das construções humanas e a paixão, o mais belo e temível dos sentimentos).

Mas o cinema quando toca nas outras artes não as deixa na mesma. Estão por contabilizar as baixas de um combate, subterrâneo, camuflado de abraço amigo, entre o cinema e o jornalismo.

Deixo apenas dois exemplos para reflexão. Primeiro, o fascínio que o cinema provoca em muitos aspirantes a jornalistas teve como consequência uma época de produção de jornalismo de investigação fast food. Um jornalismo que busca o maior dos impactos e a maior das recompensas, com o menor dos esforços. Investigações que começam sujeitas a tempos de execução curtíssimos (uma semana, quinze dias) e que depois são encerradas a meio porque é preciso emitir ou publicar. O efeito é um simulacro de jornalismo de investigação onde a “grande história” são casos contados por gente de cara tapada e voz disfarçada, contextualizados por especialistas e eventos reconstituídos em simulações feitas com técnicas cinematográficas. Existe também o negócio do copy/paste de processos judiciais negociados na sombra entre “investigadores” e agentes da justiça. Parece jornalismo a sério, mas na verdade só põe os nomes reais quando ataca uns personagens secundários (normalmente homicidas, directores de lares, administradores de pequenas medias empresas) ou então se atrela aos interesses dos agentes da justiça. Em Portugal, as duas grandes histórias dos últimos anos, as falências do BES e BANIF, só começaram a ser contadas, aos poucos, depois de os bancos terem implodido por dentro. Tentar ser jornalista de investigação em Portugal é enfrentar a desconfiança dos colegas (o privilégio de ter tempo), o medo dos chefes (por causa dos potenciais processos), a ditadura do tempo (os jornalistas dos diários acham-se sempre penalizados com a “lanzeirice” dos não- diários). Mas é sobretudo torturante trabalhar sozinho, enfrentar os momentos maus, desistir das investigações que não se conseguiram provar meses depois de trabalho intenso, por causa de fontes que se acobardam ou por faltar apoio de retaguarda (coordenadores e directores).

Por isso, o segundo exemplo a analisar é o fenómeno de “eucaliptização” do verdadeiro jornalismo de investigação.

O cinema e a televisão desenvolveram uma linha de montagem de produção de ficção, conseguiram uma produtividade, uma cosmética e tempos de cozedura imbatíveis. É uma economia de sucesso com resultados que o verdadeiro jornalismo de investigação nunca terá.

Fazer investigação no terreno é também desconstruir a vida que o cinema nos apresenta. Por mais que se busquem verdadeiros heróis e vilões, na vida real todas os investigados têm uma dimensão humana bem mais complexa, difícil de ajuizar e de encaixar no padrão moral a preto e branco do enredo cinematográfico. Quando olhadas de perto, as investigações mostram-nos que a vida é um labirinto tão sinuoso que dificilmente cabem nela as belas linearidades cinematográficas. O Cerejo modesto estava lá na sessão de cinema para nos representar a todos. E o balanço final é este, triste. Hoje o jornalismo de investigação definha, trabalhando com meios miseráveis enquanto o cinema pega depois nas histórias e faz delas uma indústria sedutora e milionária vista por milhares em todo o mundo. E ainda produz uma perversa cultura de espectáculo, com espectadores que preferem ver as histórias que o jornalismo desenterrou contadas na ficção do cinema ou das séries televisivas.

Spotlight é um bom filme mas o cinema não celebra o jornalismo, vampiriza-o. E por isso na ante-estreia de Spotlight quando comecei a ouvir falar o Cerejo (como respeitosamente o tratamos no meio) comecei a imaginar que público ali estaria, num grande auditório, se o motivo fosse antes o jornalista a apresentar, em ante-estreia, uma das suas inéditas investigações? A esperança de Cerejo e de todos os bons jornalistas é que um dia um realizador português ou de Hollywood (caso mais raro) pegue numa das suas investigações e delas faça um filme. Foi o que aconteceu ao luso-descendente Mike Rezendes subitamente famoso em Portugal 15 anos depois de ter feito a reportagem da sua vida e de ter ganho um Prémio Pulitzer. Custa-me que o verdadeiro Mark Rezendes tenha que aparecer na foto, humilde, ao lado do famoso Mark Ruffalo para ganhar em Portugal um espaço de visibilidade que o seu trabalho, a causa disto tudo, não lhe deu.

Jornalista da RTP e professor universitário