Ministro quer converter Centro Hospitalar do Algarve em duas unidades locais de saúde

Ex-reitor da Universidade do Algarve exige que o ministro Adalberto Campos Fernandes dê um esclarecimento público sobre a medida.

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Viriglio Rodrigues

O Centro Hospitalar do Algarve (CHA), que integra os hospitais de Faro e de Portimão, vai ser transformado em duas unidades locais de saúde (ULS). A questão vai ser debatida nesta terça-feira, numa reunião entre membros do gabinete do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e a presidente da Câmara de Portimão, Isilda Gomes, uma acérrima defensora desta solução que, ao que o PÚBLICO apurou, foi já discutida em Lisboa num encontro com todas as administrações regionais de saúde.

A reorganização do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no Algarve suscitou já uma carta aberta do director do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de Faro, Horácio Guerreiro, que alerta o ministro para as consequências da medida que está longe de ser pacífica e condena a “falta de visão estratégica da classe política, que sacrifica o futuro, a troco da satisfação do seu próprio ego”.

O Ministério da Saúde não adianta pormenores, refere apenas que “está em curso um estudo sobre a reorganização do SNS no Algarve”.

O ex-reitor da Universidade do Algarve, Adriano Pimpão, exige um esclarecimento público urgente sobre o assunto. “O ministério deve dizer, rapidamente, o que se passa”, proclama. A questão central, diz o ex-reitor, reside na pergunta: “Vai melhorar a saúde no Algarve?” Ao PÚBLICO, o também presidente da Assembleia Intermunicipal considera que a forma como se organiza o sistema da saúde é “importante, mas não é tudo”. Com a substituição do CHA por duas ULS, diz Adriano Pimpão, perspectiva-se “outra preocupação” - a deslocalização do centro de decisão para fora do Algarve. “Estamos a formar quadros qualificados, ao mesmo tempo assistimos, desde há dez anos, ao esvaziar de competências da região”, insurge-se.

O socialista Vitor Aleixo, presidente da Câmara de Loulé, afirma, por seu lado, que a criação do Centro Hospitalar do Algarve “é uma experiência desastrosa, a não repetir”.

Na carta ao ministro a que o PÚBLICO teve acesso, o director do Serviço de Gastrenterologia admite que a solução “possa satisfazer as estruturas políticas dos partidos governantes, instigada pelos capatazes locais”, mas “empobrece a saúde na região e conduzirá à desvalorização do Algarve como entidade regional com peso político”. Horácio Guerreiro sublinha que a “população total” do Algarve justifica um grande hospital, ou um centro hospitalar, mas “não justifica a existência de dois hospitais com dimensão suficiente à necessária diferenciação”.

O especialista adverte para as “consequências imediatas” da solução“ que - frisa -“coloca os hospitais a reboque da medicina geral familiar e, de seguida, leva à extinção da ARS do Algarve”. “Fazer depender os hospitais dos cuidados primários, ou integrá-los em ULS com os cuidados primários, fará com emerja a visão dos médicos de família os quais são excelentes profissionais (…), mas não serão, certamente, o motor da evolução clínica e cientifica no campo da saúde”, escreve Horário Guerreiro, frisando que “a médio prazo, o modelo de decapitação hospitalar e de subjugação do sistema de saúde do Algarve à ARS de Lisboa levará também a que seja liquidado o curso de Medicina da Universidade do Algarve”.

Fonte do CHA disse ao PÚBLICO que a solução do ministério “não permite a organização de serviços caros como a neurologia ou a cardiologia, nem a optimização de serviços e recursos. Acrescenta que a medida não resolve a “sistemática falta de médicos” no Algarve e faz notar que a escassez de especialistas impede que as “valências de radiologia de intervenção, cirurgia plástica e cirurgia maxilofacial que estão previstas no Hospital de Faro estejam a funcionar” no Centro Hospitalar do Algarve.

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