Cavaco Silva defende que a "independência e a identidade" não são "atitude passadista"

O Presidente da República elogiou a "persistente actualidade" do trabalho de uma associação cultural que tem por valores "Deus, Pátria, família".

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Cavaco Silva na cerimónia desta terça-feira na Sociedade Histórica da Independência Nacional NUNO FERREIRA SANTOS

Quando José Alarcão Troni, o presidente da Sociedade Histórica da Independência Nacional começou a enumerar os "valores e interesses estratégicos do Estado e da Nação portuguesa", envergando o colar e as insígnias da associação, falando perante uma plateia cheia de consócios e dirigindo-se ao Presidente da República, houve um regresso ao passado. " Deus, Pátria, família" foram os primeiros três desses valores - e eram também a célebre "trilogia da educação nacional", do Estado Novo de Salazar. A Sociedade, a que Troni preside, e já partilhou a sua sede, no Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, em Lisboa, com a extinta Mocidade Portuguesa, já existia quando Salazar conquistou o poder e continuou a existir, depois do fim da ditadura. Além daqueles três, que são os primeiros, e foram também o mote para as eleições dos corpos sociais da Sociedade, existem mais valores, prossegue Troni: "Língua, liberdade, mar, diáspora, lusofonia e Europa."

O Salão Nobre onde tudo isto se passa foi adequadamente desenhado pelo arquitecto Raul Lino. O salão, os candeeiros, as cadeiras e as mesas, acrescenta a historiadora Ana Maria Prosérpio, que alerta para a necessidade, evidente, de "um urgente restauro" do palácio que ganhou o seu nome actual por ser o local onde, antes da restauração de 1640, se reuniam os conjurados, que combateram Filipe II de Castela (terceiro de Portugal). O tecto de madeira contribui para o ambiente escuro e solene.

Bastante diferente é a recriação da "sala dos conjurados", no topo de um bonito pomar de laranjeiras, escondido dentro do palácio. Aníbal e Maria Cavaco Silva atravessaram o jardim, ouvindo as explicações de um dos dirigentes da Sociedade, que já chefiou o protocolo do Estado, e chegaram ao limite do Palácio, onde a Cerca Fernandina que ali resiste limitava a cidade medieval. Numa pequena sala, reuniam-se os conjurados. Não os célebres quarenta, que não caberiam todos ao mesmo tempo, mas pelo menos a meia dúzia que ali se encontra, em versão estátua realista. Um deles era o dono da casa, Antão de Almada.

O 1.º de Dezembro, entretanto, deixou de ser feriado por contingências económicas, e está prometido que volte a sê-lo. A Sociedade empenhou-se na crítica a essa decisão do ex-ministro Vítor Gaspar. Fez um abaixo-assinado. Talvez isso ajude a perceber o alcance de uma, à primeira vista tonitruante, alínea 5 do capítulo terceiro dos Estatutos da Sociedade: "Combater, pelos meios considerados convenientes, a generalização de doutrinas susceptíveis de ferirem a dignidade de Portugal, como um dos Estados-Nação mais antigos e identitários da Europa."

Se o fim da comemoração da restauração da independência mereceu um abaixo-assinado crítico, não é de esperar que noutras circunstâncias igualmente atentatórias de "ferir a dignidade de Portugal" os tais "meios considerados convenientes" possam ultrapassar esse limiar de acção veemente.

Depois de ouvir Alarcão Troni, que foi seu secretário de Estado da Educação e do Ensino Superior (1987-1992), de onde saiu para presidir à empresa pública CTT-Correios de Portugal, Cavaco Silva explicou esta sua deslocação simbólica, em fim de mandato. Saudando Troni e os seus consócios, e a importância do seu trabalho, que considerou ter uma "persistente actualidade", o Presidente elogiou "um dos traços mais notáveis desta Sociedade": "O facto de ela ter correspondido, desde a sua fundação [em 1861], a um sentimento genuinamente popular."

Para Cavaco, "os valores que cimentam a identidade e a coesão de cada povo assumem, hoje em dia, uma importância redobrada". Para o Presidente, foi por "opção soberana" que Portugal aderiu à União Europeia, e é um "defensor convicto do projecto e dos valores europeus." Mas isso não é incompatível, prossegue o Presidente, com aquilo que os Estatutos da Sociedade prescrevem: "Defender a independência e a identidade de Portugal", cita Cavaco que, adianta, "não é, de modo algum, uma atitude passadista". "É simplesmente a manifestação da nossa vontade de permanecer aquilo que somos, desde há quase um milénio."

O final do discurso de Cavaco guardava outro regresso ao passado. Este, pessoal. Citando o que disse na sua tomada de posse, em 2006 - "a nossa determinação é maior do que qualquer melancolia" - o Presidente quis frisar, "hoje, ao terminar os meus mandatos", e neste preciso local, com a sua história, que retoma "cada uma destas palavras" e reafirma manter "a mesma convicção".